domingo, 6 de julho de 2014

Filme: Frances Ha – comédia dramática sobre seguir sonhos e amadurecer

Sabe aquela sensação de que todo mundo está seguindo o seu próprio caminho, tem um bom emprego, está em um relacionamento amoroso estável e você está ficando para trás? Assim é o enredo de Frances Ha, um filme de comédia dramática, dirigido por Noah Baumbach, com roteiro do diretor e de Greta Gerwig, atriz que faz o papel da protagonista, uma mulher em Nova Iorque lutando para seguir o seu sonho, mesmo com todos os motivos para desistir.

Nas primeiras cenas, o espectador acompanha a amizade entre Frances e sua melhor amiga, Sophie (Mickey Sumner). “Nós somos como um casal de lésbicas”, a protagonista define sua amizade. Neste momento do filme, fiquei pensando nos relacionamentos que construímos ao longo da vida e desejamos que durassem para sempre ou que a outra pessoa reagisse como nós mesmos, mas nossas idealizações quase nunca correspondem à realidade. Lembrei-me de um amigo (continua presente na minha vida) dizendo a respeito de uma pesquisa sobre como após sete anos trocamos metade das pessoas de nosso círculo de amizade.

"I'm not messy, I'm busy"

Frances paga pelo preço de suas ilusões. Ela dividia o apartamento com Sophie e tinha um namorado provavelmente alcoólatra, cujo relacionamento era cheio de problemas. Então, ela acerta em negar o pedido de morar junto com o rapaz, fugindo de um medo que nem mesmo ela sabia de se sentir presa ou de deixar os seus planos para o futuro (que, aliás, parecem bem incertos), dizendo que combinou com a melhor amiga de que iria renovar o contrato.

Contém spoilers!

Shit happens! – Quanto menos esperamos, os problemas nos atingem com tanta força e velocidade que não temos para onde escapar. Frances termina o namoro, e pouco tempo depois, Sophie decide morar com outra amiga, em um bairro que ela sempre quis morar. Mesmo tendo sido ‘abandonada’ por Sophie, Frances não deixa seu otimismo ser arrastado água abaixo e arranja novos colegas para dividir o apartamento. Ah, esqueci de dizer: Frances adora dançar, embora tenha feito aulas e sonha em se tornar bailarina da companhia. “Eu sou dançarina”, diz ela, e no mesmo instante é impossível não pensar em mim mesmo, “eu sou escritor”.



Um detalhe do filme bem bacana é sua fotografia em preto-e-branco. Assim como na vida, em que os problemas não desaparecem só porque nós desejamos, Frances passa por situações hilárias, como decidir viajar sozinha para Paris durante dois dias e se hospedar no apartamento de um colega, mesmo sem ter o dinheiro para bancar sua passagem aérea (Viva o cartão de crédito! Salvando vida dos impulsivos) ou qualquer outra coisa. Daí por diante, acontece, como escreveu meu colega e escritor, Ítalo Damasceno, em seu blog: “... uma completa catástrofe. Bom, uma catástrofe engraçada pra gente, mas trágica para ela”.

Não pude evitar. Houve uma identificação completa com Frances, que me lembrou de Hannah Horvarth – a protagonista da série do HBO, Girls, uma mulher que sonha em se tornar escritora profissional e passa por vários apuros por desejar algo que está longe de se realizar. Eu, com meus 24 anos, conclui minha graduação em Jornalismo, e ainda estou desempregado, porque decidi me aventurar no universo da escrita de ficção (sair do armário literário e dizer: Sou escritor!), no qual tenho colhido alguns resultados, como publicações em coletâneas de contos e prêmios em concursos literários, porém sem nenhum retorno financeiro que pudessem cobrir no mínimo os gastos que eu tenho com livros sobre escrita e literatura em geral – leituras com as quais complemento o meu aprendizado. Estaria eu tão perdido quanto Frances? Mergulhado em um drama do qual todos ao meu redor percebem e acham graça das minhas lutas ou ainda há esperança? É difícil responder a pergunta: “O que você faz além de escrever?”, sim, nenhum resultado vem rápido para quem deseja seguir a carreira de escritor profissional, isto quando há algum retorno, com uma série de limitações no Brasil.

"Sometimes it's good to do what you're supposed to do when you're supposed to do it".

Coloquei-me na pele da protagonista e gostei muito de como o roteiro do filme mostrou uma face que nem sempre temos coragem de revelar. Nossos medos – medo de falhar, medo de envelhecer e não conquistar o seu sonho, medo de trabalhar com o que não queria, medo de perder os seus amigos mais próximos, medo de que ninguém possa nos entender, medo de que depois de tantas batalhas, tudo seja uma merda, você se sinta um derrotado.


De repente, o que já estava ruim fica pior ainda – e não é assim que costuma acontecer, geralmente, na vida? Frances descobre que não vai entrar para a companhia de dança, a qual era o seu sonho participar. “Onde está a comédia?”, perguntei ao meu namorado que tinha recomendado o filme e afirmei: “Isto, para mim, é drama!”. É engraçado ver um personagem quebrando a cara, tropeçando na rua, se sentindo constrangido em uma mesa de jantar onde todos parecem estar com seus futuros encaminhados, enquanto ela persegue um sonho (que ninguém, além dela, parece acreditar), não tem dinheiro para pagar o próprio aluguel e se vê sem nenhum amigo para ajudá-la quando precisa. Mesmo quando a família e os amigos tentam auxiliar France, eles não compreendem e, por vezes, acabam a fazendo se sentir pior ainda. Só há uma coisa a fazer quando você se identifica com a situação: Rir para não chorar! Ou, mentir.

Andy: Então, o que você faz?
Frances: É complicado. 
Andy: Isto é, por que o que você faz é complicado? 
Frances: Não, porque eu não faço.

Em Frances Ha, o espectador acompanha a protagonista mentindo várias vezes, seja para a dona da companhia de dança, quando arranja um emprego como auxiliar nos eventos da universidade (a qual ela trancou quando era mais nova), ou quando viaja para passar uns dias com a família. A vida de Frances está, literalmente, uma merda. Mesmo mergulhada no oceano de derrotas, ela tenta acolher Sophie bêbada (lembra, a melhor amiga que sumiu, porque se mudou para outro apartamento e essa parte vocês não sabiam, depois ela noivou). Tudo bem, contei muitas partes do filme e escondi algumas para não estragar toda a surpresa, mas acho que se você leu até aqui, ainda vale a pena assisti-lo.


Decepcionada mais uma vez, Frances parece incapaz de guardar mágoas. Ela consegue se manter em pé no meio desse terremoto, ganhar dinheiro suficiente para sobreviver e ter um final feliz (depois de tantos conflitos, se a história não tivesse uma resolução agradável, seria como aceitar a própria derrota). Terminei de assistir ao filme com aquela sensação de que não importa como os outros vão agir, reagir ou tentar nos compreender, pois são coisas que fogem ao meu controle, desde que como Frances, mesmo passando por apertos, os quais nem sempre compartilho com os outros por questões óbvias, eu encontre a minha felicidade.

Nos iludimos, sofremos, amadurecemos, aceitamos perdas, lutamos por nossos ideais, mentimos, sorrimos, fazemos loucuras, entre outras centenas de ações que fazemos ao longo de nossas existências. No final de contas, como lembrou meu colega Ítalo: “... por menos controle que tenhamos, somos sempre os protagonistas da nossa vida e que um final feliz é uma opção possível”.

Concluo esse texto com um monólogo da protagonista: 

"É aquela coisa, quando você está com alguém e ama eles e eles sabem disso e eles te amam e você sabe disso... Mas é uma festa... E vocês estão ambos conversando com outras pessoas, sorrindo e brilhando... E você olha através do quarto e captura os olhos um do outro... Mas – mas não porque você é possessivo, ou é exatamente sexual... mas por que... essa é a pessoa da sua vida. E isso é engraçado e triste, porém apenas porque sua vida vai acabar, e este é o mundo secreto que só existe ali em público, sem ser notado, que ninguém mais sabe. É mais ou menos como eles dizem que existem outras dimensões em torno de nós, mas não temos a capacidade de percebê-las. Isso é - Isso é o que eu quero de um relacionamento. Ou apenas da vida, eu acho".

Confira o trailer de Frances Ha: 

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Parece ser um filme legal, acho que vou assistir, não é bem o tipo de filme que eu vá procurar, mas parece ter uma produção muito boa.

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    2. O roteiro é simples e as imagens também. Acho que é essa normalidade dele que faz você entrar na pele do personagem.
      Abraços e obrigado pelo comentário!

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  2. O que eu gostei no seu post foi que pela primeira vez eu vi você falando bastante de ti, além de falar da obra. Geralmente analisamos o livro ou o filme a partir dele próprio, mas em Frances não tem como não compará-la com a nossa própria vida.
    Você falou em Girls e eu concordo contigo. Se Sex and the City representou a geração dos anos 2000 e suas expectativas, Girls mostra a desilusão da decada de 2010 e as crises (políticas, econômicas e pessoais).
    Ótimo post, querido.
    PS: Adorei ter sido citado no seu texto. Sempre que quiser, esteja à vontade.

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    1. Obrigado pela visita e comentário, querido! Realmente, Girls tem uma visão que corresponde mais aos jovens da atualidade do que Sex and the City, onde as 4 mulheres são mais velhas e já têm suas carreiras estabelecidas (mesmo a Carrie com suas dívidas, não deixa de comprar sapatos e parece gastar muito mais do que ganha, embora sempre estava nos lugares badalados de Nova Iorque).
      Fico feliz que tenha gostado do texto!
      Abraços

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