sexta-feira, 18 de julho de 2014

Resenha: A Construção da Personagem – Constantin Stanislavski

Encontrei na biblioteca do meu pai o livro A Construção da Personagem, do Constantin Stanislavski, 10ª edição traduzida por Pontes de Paula Lima, publicado no Brasil em 2000 (embora tenha sido publicada no país pela primeira vez em 1970), pela Editora Civilização Brasileira (incorporada à Editora Record em 2000). À primeira vista pensei que se tratasse de alguma obra sobre criação literária, até olhar o texto de contracapa e ler a introdução e descobrir que, na verdade, é uma das produções sobre teatro mais recomendadas para atores, diretores teatrais e demais interessados na arte cênica.

Capa do livro A Construção da Personagem, Constantin StanislavskiMesmo após descobrir que o livro não era o que eu esperava, fiquei instigado para ler e me surpreendi. Sempre apreciei espetáculos teatrais e me encantei pela magia que acontece quando o ator está no palco. Nos segundos iniciais ainda não estamos no clima, mas bastam alguns minutos para aquele estranho (ou conhecido, dependendo de quem está atuando) se transforme numa pessoa, ganhe sua alma, tenha emoções e posturas únicas que o diferenciam e evidenciam sua identidade.

Meu exemplar de A Construção da Personagem tem 320 páginas. O livro é a continuação de A Preparação do Ator, que, aliás, ainda não li, e estou pensando se lerei as outras obras do autor. Estou com A Criação de um Papel, do Stanislavski, na minha mesa-purgatório, aguardando uma oportunidade de ser lido. De volta ao livro, gostei bastante da obra, tanto pela linguagem utilizada, quanto pelos conhecimentos transmitidos. E para quem – como eu –, sonha em se tornar um escritor, é preciso abrir a mente para várias artes, sendo inclusive uma ótima forma de lidar com os bloqueios criativos e aprender mais sobre o comportamento humano.

Na nota sobre a tradução norte-americana é abordado brevemente quando é que o ator, diretor teatral, pedagogo e escritor russo Constantin Stanislavski mandou os seus manuscritos e permitiu sua tradução, para que artistas do mundo inteiro pudessem aprender mais sobre a arte teatral e suas experiências. Elizabeth Reynolds Hapgood descreve os objetivos gerais do autor: “Ajudar o ator a desenvolver todas as suas capacidades intelectuais, físicas, espirituais e emocionais – tornando-o assim capaz de preencher seus papeis com as proporções de seres humanos inteiros, personagens que terão o poder de levar o público ao riso, às lágrimas, a emoções inesquecíveis”. Pelo pouco que provei do autor, deu para perceber que Stanislavski era um amante das artes cênicas e, como visto no seu personagem, Tórtsov, o diretor da escola e do teatro, ele nunca desistiu de aprender e ensinar, deixando essa lição para seus alunos e para quem ler o livro.

O que torna a obra mais gostosa de ler é a maneira que ela foi escrita. A Construção da Personagem traz vários conselhos práticos e é bem didático, no entanto para não se tornar maçante e nem técnico demais, Constantin Stanislavski inventou uma ficção que passa numa escola dramática, com seu próprio palco e auditório. Seus personagens, além de Tórtsov (que representa o autor), são diferentes arquétipos de estudantes de teatro, tornando a experiência de avalição dos aprendizados de cada um deles mais interessante, por causa da identificação entre leitor e personagem.

À medida que os personagens vão tendo lições teóricas e prática sobre diferentes elementos cênicos, o leitor vai aprendendo junto – é claro, na medida do possível, sem achar que só porque você leu o livro, você vai virar ator. Seguem os títulos de cada um dos capítulos do livro A construção da personagem: Para uma Caracterização Física; Vestir a Personagem; Personagens e Tipos; Tornar Expressivo o Corpo; Plasticidade do Movimento; Contenção e Controle; A Dicção e o Canto; Entonação e Pausas; Acentuação: a Palavra Expressiva; A Perspectiva na Construção da Personagem; Tempo-Ritmo no Movimento; Tempo-Ritmo no Falar; O Encanto Cênico; Para uma Ética do Teatro; Padrões de Realização; Algumas Conclusões sobre a Representação.

Os títulos dos capítulos definem bem o que se aprende em cada um deles. Os atores lidam com a dificuldade inicial de darem vida para seus personagens, aprendendo que não se trata somente da caracterização externa (roupas, maquiagens, perucas e demais acessórios), mas também da caracterização interna (emoções, manias, personalidade). Então, o leitor aprende mais sobre o movimento corporal, a fala e o tempo-ritmo. Cada um dos elementos apresentados por Stanislavski fazem toda a diferença a nível consciente e subconsciente na atuação e o desafio principal de quem está em cima do palco é combinar todas essas técnicas de forma natural, como se o personagem fosse uma pessoa viva e não simplesmente um papel.

Seguem alguns trechos que gostei do livro e que além de aprenderem mais sobre o teatro, me fizeram refletir sobre a arte em geral, até mesmo a literatura:

“A arte confere beleza e dignidade e tudo que é belo e nobre tem o dom de atrair”.

“O sucesso é transitório, fugaz. A paixão verdadeira está na pungente aquisição de conhecimentos sobre todos os matizes e sutilezas dos segredos criadores”.

“Tolstoi, Tchekov e outros grandes artistas achavam que era necessário sentarem-se todos os dias a uma certa hora para escrever, se não um romance, um conto, ou peça, pelo menos um diário, registrando pensamentos ou observações. O objetivo principal era cultivar dia a dia os modos mais delicados e precisos de transmitir todas as sutis complexidades dos pensamentos e sentimentos humanos, as observações visuais e as impressões emocionais”.

“Quanto maior é o talento do ator, mais ele se preocupa com sua técnica, sobretudo quanto às suas qualidades interiores”.

Stanislavski faz uma crítica interessante aos seus alunos que pode descrever bem a inquietação atual dos jovens artistas, independente de suas áreas, comentando que é necessário aprender as coisas com o passar dos anos, e não achar que a técnica pode ser dominada perfeitamente num curto período de tempo. O autor diz que é necessário estudar parte por parte e depois fundir no todo, para compreender os fundamentos e aprender sua inteireza e acrescenta:

“Não podem pretender fazê-lo de uma só vez. É como ir à guerra: tem-se de conquistar o terreno pouco a pouco, consolidar os ganhos, manter contato com as comunicações da retaguarda, expandir, conquistar novas vitórias, antes que se possa falar em conquista definitiva”.

Depois desse trecho inspirador do Stanislavski, fica aqui a minha recomendação: leia A Construção do Personagem se você aprecia teatro e deseja aprender mais sobre as artes cênicas, tendo em mente que quando adquirimos o conhecimento sobre uma área, muitas vezes, podemos aplicar esses conceitos aprendidos em outra. Por exemplo, através dos ensinamentos, pude aprender a dificuldade do ator de interpretar uma personagem por causa de sua complexidade, logo como escritor, percebi que é preciso prestar atenção não só na aparência, mas também no jeito que a pessoa se comporta, anda, corre, fala, ri, chora, enfim, como ela se expressa. Além deste, também é recomendável ler as outras obras do Constantin Stanislavski. Nesta busca pelo conhecimento artístico, você pode acabar aprendendo mais sobre si mesmo e as pessoas ao seu redor.

4 comentários:

  1. Li ele em meu primeiro curso de teatro. Fiquei apaixonado. Tem anos isso.

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    1. Livro muito bom mesmo! Olha, deu para tirar muitas lições sobre criação de personagens. É incrível como podemos aprender um pouco sobre a escrita em diferentes áreas.
      Abraços!

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  2. vc realmente é um amante da escrita, pois essa obra é muitas vezes técnica e voltada aos amantes das artes cênicas, voce foi capaz de ler e pelo que vi tirou nota 10 no quesito compreensão da obra, parabéns.

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    1. Gratidão pelo comentário generoso! Fico feliz que tenha gostado da resenha. Acredito que toda leitura é bem-vinda para escritores e o teatro flerta com os romances, novelas e contos.
      Abraços

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