sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Quantos Amigos Você Tem? – A Ilusão dos Números na Pós-Modernidade

Alguns textos são gritados em nossos subconscientes e tentar ignorá-los só o fará gastar uma energia desnecessária. Há tempos, aliás, desde sempre, há algo que sempre me fez refletir: Quantos amigos você tem? A pergunta não tem a pretensão de machucar, pelo contrário, somente fazê-lo pensar um pouco. Numa época onde as pessoas gostam de soluções rápidas e fáceis, e o cérebro parece ter se tornado um mero ornamento, a questão pode incomodar. Há coisas que preferimos deixar para lá, bom, até que a realidade nos atinja e nos vemos sozinhos, incompreendidos, cercados pela ilusão dos números.


Meu aniversário está chegando – não que isso vá fazer diferença na vida de quem não me conhece –, mas creio que essas datas nos inspiram a fazer um balanço de nossas vivências. Posso contar nos dedos, literalmente, quem são os meus amigos e não preciso citar, pois além de infantil, cada um sabe o papel que desempenha na vida do outro. Embora bastem duas mãos para ver quem são meus amigos, aquelas pessoas que convivem comigo, não somente quando eu estou feliz, ou fora de casa, mas que apreciam a minha presença mesmo quando estou nos dias cinzentos, não é o que os meus perfis nas redes sociais indicam.

Basta uma olhada rápida no meu perfil no Facebook para ver que tenho mais de 800 “amigos”, mais de 1000 seguidores no Twitter e quase 800 seguidores no Google Plus. Alguns amigos virtuais, independente da distância, se fazem mais presentes do que pessoas que moram a metros ou quilômetros da sua casa. No entanto, nossos cérebros são limitados e pesquisas indicam que há um limite de quantos indivíduos podemos nos relacionar. Segundo um estudo publicado na BBC, o número média seria de 150 relações pessoais.

Uou! E os pensamentos se dividem entre “Tudo isso?” e “Só isso?”. Sabemos que os números são ilusórios e mesmo assim continuamos buscando alimentar esse desejo. Cada um com seus objetivos. Alguns para preencherem suas carências, uns para se sentirem importantes ou até mesmo “famosos” e outros pelo simples prazer de ter alguém com quem conversar, sempre. A solidão, tão necessária para os desenvolvimentos pessoais e criativos, se tornou uma vilã na sociedade pós-moderna. Ser solitário, saber apreciar alguns momentos sem depender o tempo inteiro de cumprir as expectativas que os outros têm sobre você, parece ser algo assustador. Não conseguimos ficar alguns minutos em silêncio, sem nos sentirmos tentados a navegar na internet e jogar conversa fora, fazer comentários sem sentido ou postar uma foto, mesmo que estejamos entediados e nossa intenção seja parecer que estamos nos divertindo. Bom, sejamos realistas, nem sempre a vida é boa, é divertida ou alegre...

Ninguém está dizendo que você precisa se excluir, se trancar no seu quarto e evitar qualquer contato humano. E se for fazer isso, bom, é uma escolha sua! Por que, diabos, vivemos tentando nos encaixar o tempo inteiro nas regras que fogem aos nossos controles? O verdadeiro afeto, a companhia de outro ser humano, pode fazer bem para a saúde (comprovado cientificamente). Porém, o que me preocupa não são os laços verdadeiros, mas aqueles fundamentados em ilusões.

Parece negativo demais – aliás, não só parece como é –, que só nos damos conta de quem são nossos amigos verdadeiros quando passamos por períodos difíceis. Ainda não inventaram elemento mais poderoso para induzir a reflexão do que a morte. Problemas de saúde, crises financeiras, problemas pessoais, todos eles também podem simbolizar a morte de alguém ou alguma coisa dentro de você – a cada dia que passa a pessoa que você era ontem morreu um pouco, dando lugar a um novo você. E nesse ciclo de fragmentações, de deixar sonhos morrerem e novos nascerem, de sofrer no silêncio e brilhar sob a luz do sol, de se transformar e adaptar para sobreviver à realidade, as amizades ilusórias (e algumas amizades sazonais) deixam de fazer sentido.

Há quem idealize a própria morte e sonhe com a oportunidade de rever pessoas que você costumava conhecer, e perdeu o contato ao longo dos anos, em seu velório. Poucos são aqueles capazes de aceitarem o fardo da lucidez e a coragem de aceitar que tudo na vida é efêmero, principalmente os relacionamentos. Se prender ao passado, em momentos de nostalgia pode ser revigorante, porém trazê-lo ao presente pode arruinar a sua paz de espírito.

Neste devaneio sobre amizades na pós-modernidade, pouco o que se tem observado em nossos cotidianos é a verdade desses relacionamentos. Então, sim, posso contar nos meus dedos com quem eu gostaria de passar o meu aniversário, quem são as pessoas que realmente se importam comigo e o sentimento é recíproco – se o seu relacionamento não for de mão dupla, e o egocentrismo é tudo o que lhe resta, bem-vindo ao clube das pessoas que substituíram o termo “amigos” por “colegas”.

A ilusão dos números deveria servir como uma mentira que contamos a nós mesmos, para nos sentirmos melhores. A verdade é que nunca fui chegado ao teatro dos relacionamentos. Queremos ser vistos, curtidos, apreciados, mas só o mundo das aparências não sustenta, não alimenta a alma que clama pelo companheirismo, pela sinceridade (por mais assustadora e feia que seja!). No vazio dos relacionamentos, o mesmo é observados nos namoros e casamentos, porém isto é assunto para outro texto.

Quem afirmou que “a ignorância é uma benção”, não poderia estar mais certo sobre como o conhecimento pode machucar, mas nem sempre a dor é ruim, e ela nos ensina a viver um dia de cada vez, a colocar os pés no chão e dar um passo atrás do outro. Prefiro, no entanto, pagar o preço da minha lucidez a ser mais um desses zumbis que se refugiam na ideia de que estão cercados de amigos – colegas fantasiados, que mal sabem o seu nome, parabenizam pelo seu trabalho (embora nunca tenham lido, o importante é apoiar, mesmo que falsamente), te despejam elogios sem valor (esperando que você faça o mesmo em retorno) ou ficaram presos em algum lugar do seu passado, pensando que você é o mesmo que costumava ser, bastando algumas conversas fiadas para fazer tudo voltar a ser como era antes.

Não sinta pena por eu poder contar os meus amigos nos dedos. Eles não conhecem só os meus sorrisos amarelos, minha alegria maquiada ou tentam me agradar o tempo inteiro. Entre altos e baixos, de alguma forma, anos se passaram e não mergulhamos nesse lago das ilusões. Antes de tentar parecer a pessoa mais popular e cheia de amigos do mundo, ao menos dê conta de nutrir os seus relacionamentos. No mundo real, e não no das ilusões dos números, o que importa é a qualidade, não a quantidade.

E a pergunta ecoa mais uma vez, convidando-o a refletir. Você pode tentar fugir dela, mas uma hora ou outra ela surgirá novamente... Quantos amigos você realmente tem?

4 comentários:

  1. Ótimo texto, Ben. Gostei. Então, assim como você, conto os meus amigos nos dedos. Sinto orgulho por isso. Pois fui capaz de conquistar (e ser conquistado) pessoas que hoje estão comigo no que mais preciso (e mesmo quando não). Os amigos são raros, tê-los ao nosso lado é muito importante. Existem aqueles momentos de atritos, mas é aí que avaliamos o quão somos amigos. No final das contas percebemos o verdadeiro valor de uma amizade verdadeira. Conheci os meus melhores amigos no segundo ano do ensino médio. E até hoje estamos unidos.

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    1. Olá, Lucas! Fico feliz em saber que você cultiva suas amizades. Infelizmente, há muitos amigos que com o passar dos anos vão se afastando, e não há muito o que fazer, a não ser aceitar que eles se foram. Ficar sofrendo ou forçar a situação, de nada adiantará. Por outro lado, existem pessoas que estão sempre presentes, nos momentos difíceis ou bons, e tentam entender porque somos como somos.

      Abraços!

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  2. Meu maior amigo sempre foi meu companheiro.

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    1. Ownn! Eles aguentam muitas crises, que até amigos próximos desconhecem. Acho justo!

      Abraço e um ótimo domingo!

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