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Destaques

Resenha: Coração Assombrado – Lisa Rogak

Em seu livro Coração Assombrado (Haunted Heart), a autora Lisa Rogak contou a  história de vida do escritor Stephen King, conhecido como Rei do Terror do Suspense. A obra foi publicada no Brasil pela editora DarkSide Books pela primeira vez em 2013 e republicada em 2017 para uma edição comemorativa de 70 anos do autor. A obra foi publicada originalmente pela Thomas Dunne Books, em 2008.


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O sucesso de Stephen King acabou servindo de inspiração para milhares de escritores do mundo todo. Diferente de tantas histórias de autores que tiveram sua entrada ao universo editorial facilitada, seja pelos contatos ou privilégios, o autor teve que lutar para conquistar seu espaço e seu talento se revelou mais bem-sucedido do que poderiam esperar. Como pode um autor de terror ter emplacado vários livros na lista de mais vendidos dos Estados Unidos e de diferentes países?

Um jogo de sorte? Marketing? Stephen King escrevia desde a…

Resenha: A Consciência das Palavras – Elias Canetti

É incrível o quanto podemos aprender com ensaios, cartas e palestras. Assim foi a aula que eu tive com o livro A Consciência das Palavras, do autor Elias Canetti, de 323 páginas, com tradução de Márcio Suzuki e Herbert Caro, publicado no Brasil, em 2011, pela Companhia das Letras.

Os ensaios alemães escritos por Canetti abordam a vida de diversos autores, como Karl Kraus, Franz Kafka, Tolstói, Dr. Hachiya, Georg Büchner, Hermann Broch e até mesmo a relação entre Hitler e o arquiteto Speer. Mesmo com o conhecimento básico sobre algumas dessas personalidades até o total desconhecimento de outras, Elias Canetti dá um vislumbre da vida desses homens – aliás, está aí um fato que só agora me dei conta, todas as pessoas estudadas eram do sexo masculino, o que demonstra a necessidade de entender as relações entre poder, sobrevivência e metamorfose.

Não pretendo abordar cada ponto do livro, pois seria tarefa exaustiva demais, tanto para mim quanto para você que está lendo; pelo contrário, o que eu quero mostrar é o ponto que liga todas essas pessoas estudadas pelo autor. Algumas ideias ressoam, como a guerra, as transformações internas e externas, o amor e a paixão, o poder das palavras, a relação entre construção e destruição, e, é claro, a vida!

O que Hitler teria de tão cativante para ter persuadido tantas pessoas? No livro, Canetti aborda o arquiteto que trabalhou para Hitler, Speer, e a necessidade de que o líder do nazismo tinha de se sentir no controle. A ambição de Hitler era o que o movia. Canetti descreve bem como o nazista tinha uma obsessão pelo poder, por construções enormes, por controlar a massa, escravizá-la e exterminá-la, bem como sua vontade de destruir tudo aquilo que o fizesse se sentir menor. Não se pode negar o poder que Hitler tinha sobre os outros, mas por trás de tamanhas atrocidades, se escondia um homem frágil e estrategista que sabia a importância de não se aproximar de outras pessoas que pudessem encontrar os seus pontos fracos, pois ele sempre deveria se sentir a autoridade máxima.

Ainda se tratando das guerras, Elias Canetti contou como esses eventos foram determinantes na vida dos escritores acima citados. Um dos mais fascinantes ensaios foi o sobre o Dr. Hachiya, um médico japonês que sobreviveu à tragédia da bomba atômica de Hiroshima e descreveu os rastros de destruição. É incrível como Canetti sente-se seduzido pelo respeito que o homem tinha com os mortos, bem diferente dos outros médicos que foram ajudar a cremar os cadáveres na região. Mesmo diante dos horrores de Hiroshima, Hachiya transformou as palavras, e numa espécie de diário conseguiu transportar os leitores para aquele ambiente que cheirava a sardinhas queimadas. Diante da morte e das consequências da guerra, o médico japonês narra o vale dos mortos, sem deixar de honrar e orar pelas vítimas.

"... Escrever significa abrir-se em demasia. [...] Por isso, não há nunca suficiente solidão ao redor de quem escreve; jamais o silêncio em torno de quem escreve será excessivo, e a própria noite não tem bastante duração"Franz Kafka

Das destruições externas vamos às guerras interiores. E não seria a paixão uma das principais responsáveis por tirar a paz de um homem? Elias Canetti apresenta ao leitor alguns trechos do diário e cartas escritas por Franz Kafka.  É interessante observar como o escritor tcheco, autor do seu livro imortalizado, A Metamorfose, se sentisse exatamente como o seu personagem que se transformou em um inseto. A partir dessas correspondências de Kafka com Felicia, aprende-se a influência da personalidade do autor em seus textos. Três coisas me chamaram a atenção no ensaio sobre Kafka: como ele se enxergava frágil e pequeno diante dos outros; suas atitudes contraditórias: ao mesmo tempo em que sentia necessidade de saber tudo sobre Felicia e queria mantê-la por perto, ele sabia que ao se entregar a ela, o seu processo de criação literária estaria perdido; por último, como esses eventos de sua vida se imortalizaram em sua escrita, num processo de cristalização das palavras, na qual Kafka e seus livros são um produto de sua própria metamorfose.

Ainda sobre a fragilidade do escritor e sua necessidade de solidão, Canetti aborda a vida do escritor russo Tolstói. Separar a ideia do autor e sua vida parece algo improvável. São nos diários de Tolstói que o leitor conhece sua essência. “Sua força reside no fato de que ele não se deixa persuadir: precisa de experiências próprias, intensas, para chegar a novas convicções”.

No ensaio “Poder e Sobrevivência” o autor descreve esses dois pontos constantes na vida do ser humano. Aliás, ao longo do livro todo, em todas as cartas, ensaios e palestras, Canetti discorre sobre o assunto de forma indireta. O medo e a impotência diante da guerra, o horror despertado pela morte, a fragilidade do homem e os efeitos do poder.

O papel do poeta é analisado por Canetti que descreve esses artistas como os responsáveis por ver o mundo como ele é e se transformarem em guardiões das metamorfoses. “Para dizer algo sobre este mundo que tenha algum valor, o poeta não pode afastá-lo de si ou evitá-lo. Tem de carregá-lo em si enquanto caos, o que é mais do que nunca, a despeito de todas as metas e planejamentos, pois o mundo se move com velocidade crescente em direção à própria destruição”. Além do ensaio escrito pelo próprio autor sobre o ofício do poeta, ao contar a vida de poetas, suas manias e medos e o papel dos relacionamentos com suas amantes, Elias Canetti dá uma aula sobre esses transformadores das palavras.

Quem é que nunca leu alguma frase de Confúcio na internet? O autor conta um pouco sobre a vida do pensador e filósofo chinês, a sua afeição pelo aprendizado e pelo entendimento da vida. Um fato interessante comentado por Elias Canetti é o de que mesmo sendo um entendedor do comportamento humano, Confúcio não se arriscava a falar sobre a morte. O pensador também tinha aversão ao poder e ao tratamento das pessoas como meras ferramentas.

No ensaio “O primeiro livro: Auto de fé”, o escritor conta como foi o processo de criação literária do seu romance. Sua estadia em Viena foi o que o influenciou a escrever a obra, ao presenciar um homem desesperado pelos autos que estavam sendo queimados, durante uma manifestação. “Já se passaram 46 anos, e ainda trago em mim a excitação daquele dia. Foi a coisa mais próxima de uma revolução que já vivenciei de corpo presente. Centenas de páginas não seriam suficientes para descrever o que vi com meus próprios olhos”. Novamente, entra aqui a influência dos eventos históricos na produção literária. Meu trecho favorito do ensaio foi:

“Um dia, ocorreu-me que o mundo não podia mais ser representado como nos romances antigos, do ponto de vista de um escritor, por assim dizer: o mundo estava fragmentado, e só a coragem de mostrá-lo em sua fragmentação tornaria ainda possível uma verdadeira representação dele. Isso não significava, todavia, que seria necessário lançar-se a escrever um livro caótico, no qual nada mais pudesse ser entendido; pelo contrário, era preciso inventar, de maneira consequente e com o máximo rigor, indivíduos extremos, tais como aqueles de que já era mesmo constituído o mundo, e colocar tais indivíduos – levados às últimas consequências – lado a lado, em toda a sua diversidade”.

Além de escrever sua criação literária, o autor conta como foi sentir-se rejeitado quando os editores não se interessaram pela publicação de seu romance, até que alguns anos depois, a obra foi publicada, proporcionando-o alguns elogios.

Bom, é isso. Espero ter transmitido um pouco do que se encontra em A Consciência das Palavras, através desses recortes. Impossível seria fazer uma resenha que fizesse juízo ao seu conteúdo, já que cada um dos ensaios permitiria múltiplas interpretações devido à riqueza do conhecimento transmitido. É importante notar que mesmo alguns ensaios se tratando de autores com os quais eu nunca tive nenhum contato prévio, assim que terminei de lê-los, senti como se os conhecesse, mergulhei em seus íntimos e me transformei. Canetti tem esse dom de contar a história de uma história, sem torná-la maçante, pelo contrário, fazendo cada uma desses vivências acrescentarem algo a sua vida.

"Tranquilizar-me talvez seja a principal razão porque escrevo um diário. É quase inacreditável o quanto a frase escrita pode acalmar e domar o ser humano"Elias Canetti

Ao entender o processo de outros escritores, mergulhei no meu próprio íntimo. Quantas vezes não me senti perdido, incompreendido, maluco? Esse contato com os diários, cartas e ensaios de outros autores, me fez perceber que neste rico universo das palavras, há muitos assuntos e vidas que se interpenetram. Compreender o outro é também uma oportunidade de buscar o autoconhecimento. Vi um pouco de cada um desses escritores em mim e nessa identificação, ao visualizar suas metamorfoses, acabei me transformando junto. Ter consciência das palavras, para quem é escritor, é o mínimo que se pode procurar, diariamente. Afinal, entendendo a relação entre o nosso subconsciente, as memórias e a escrita, podemos ao menos tentar aproveitar o máximo potencial da magia das histórias.

Sobre o autor – Elias Canetti nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o Prêmio Büchner, em 1975 o Prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o Prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em Zurique, em 1994.

Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido e O jogo dos olhos, já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé, os relatos As vozes de Marrakech e o ensaio Massa e Poder, este último pela Companhia das Letras.

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