quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Resenha: A Arte de Escrever – Arthur Schopenhauer

O livro A Arte de Escrever traz ensaios escritos pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer sobre o pensamento, a escrita, a leitura e avaliação de obras literárias, foi organizado e traduzido por Pedro Süssekind, publicado no Brasil, em 2005, pela L&PM Pocket.

Para quem gosta de aprender mais sobre o ofício do escritor, o livro traz algumas críticas e levanta reflexões sobre o assunto. Os textos abordam o universo da literatura, valorizando alguns aspectos e desmerecendo outros, principalmente os autores que escreviam para sobreviver e lucrar com suas obras – assunto que continua polêmico até os dias atuais.

Na introdução do livro escrita pelo organizador da antologia, Pedro Süssekind aborda algumas das visões de Schopenhauer sobre a linguagem, como a imperfeição das traduções, a literatura de consumo, problemas estilísticos, os conselhos de escrita e a importância de desenvolver pensamentos próprios.

Ao ler A Arte de Escrever, é preciso levar em conta o período em que os ensaios foram escritos. Muitas das críticas ainda são presentes no universo literário, enquanto outras não servem tanto para os leitores brasileiros, visto que o índice de leitura no país e a bagagem literária são menores do que os dos alemães, por exemplo.

A obra traz 5 ensaios escritos por Schopenhauer: “Sobre a erudição e os eruditos”, “Pensar por si mesmo”, “Sobre a escrita e o estilo”, “Sobre a leitura e os livros” e “Sobre a linguagem e as palavras”, da primeira metade do século XIX.

Schopenhauer comenta que o excesso de leitura e aprendizado são prejudiciais ao pensamento próprio e os de escrita e ensino pode atrapalhar o saber e a compreensão. Levando em conta de que na Alemanha a educação é melhor do que no Brasil, mesmo em épocas diferentes, devido ao interesse por obras de filosofia, literatura clássica e de pensadores, o conselho mal interpretado pelo brasileiro poderia estimulá-lo a ler menos, enquanto um dos principais problemas no país é o alto número de pessoas incapazes de interpretar texto corretamente.

Tentando solucionar a questão da educação, Schopenhauer sugeriu que antes de cursarem a graduação escolhida, os alunos deveriam ter no mínimo 21 anos e passar por um exame rigoroso das línguas antigas e ser obrigado a estudar Filosofia por durante um ano.

Só é possível pensar com profundidade sobre o que se sabe, por isso se deve aprender algo; Mas também só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade”

O filósofo aborda a importância de organizar os conhecimentos, pois a grande quantidade de informações nem sempre significa a assimilação do que foi transmitido. Segundo Schopenhauer, o excesso de leitura atrapalha o pensamento próprio, pois o indivíduo nunca tem tempo livre para pensar. Ele aborda a diferença entre quem buscou o conhecimento em livros e quem aprendeu com o mundo.


Arthur Schopenhauer classifica os escritores em dois tipos: os que escrevem em função do assunto (pensamentos e experiências) e os que escrevem por escrever (por dinheiro).  Ele ainda discrimina três tipos de autores: os que escrevem a partir da memória, pensam ao escrever e pensam antes de escrever – sendo o último tipo, o mais raro e valioso.

“Todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro. As melhoras obras dos grandes homens são todas provenientes da época em que eles tinham de escrever ou sem ganhar nada, ou por honorários muito reduzidos”.

As revistas literárias que valorizam o mercado editorial em vez da qualidade literária são criticadas pelo filósofo, bem como os críticos anônimos, ocupação que deveria ser considerada proibida.
Entre os conselhos de escrita deixados por Schopenhauer estão: evitar a prolixidade; Ter estilo próprio; Aprender com o erro de outros autores; Aprender a usar metáforas; Ter algo a dizer; Não tentar parecer ser mais do que é; Não tentar escrever como se fala e vice-versa; Planejar o texto antes de escrevê-lo.

“A língua é uma obra de arte e deve ser considerada como tal, portanto objetivamente; assim, tudo o que é expresso nela deve seguir regras e corresponder à sua intenção; em cada frase, é preciso que se comprove o que deve ser dito como algo que objetivamente se encontra ali”.

Em um dos ensaios presentes no livro, Schopenhauer critica a leitura, pois acredita que ao ler um livro, estamos deixando outra pessoa pensar no nosso lugar, sendo tão importante aprender com os nossos próprios olhos. Ele critica os livros ruins, considerando-os capazes de definhar o espírito e recomenda evitá-los, devido ao pouco tempo e energia, já que a vida é curta. O filósofo também sugere uma segunda leitura dos livros, para assimilar melhor seus conteúdos.

O último texto aborda a linguagem, as limitações das traduções – dando como exemplo a dificuldade de se traduzir poemas – e a importância de aprender mais sobre os diversos elementos que compõem a escrita.

Enquanto a leitura de A Arte de Escrever pode desagradar um pouco aos escritores profissionais que sobrevivem de literatura comercial, ela também pode ajudar a abrir horizontes e fazê-los refletir sobre o próprio processo de criação literária, de elaboração de pensamentos próprios e construção do texto, antes de publicá-lo. Os textos de Schopenhauer presentes no livro fizeram e ainda fazem sucesso entre os autores e interessados nos conhecimentos transmitidos pelo filósofo, porém como ele próprio ressalta ao longo do livro, cabe a cada um tirar um tempo para pensar e desenvolver suas próprias conclusões. Diferente do que o filósofo sugere sobre fechar mais os livros e pensar mais sozinho, eu recomendaria o contrário no Brasil, já que o pensamento por si só, sem uma boa bagagem cultural e leituras, ajudaria a fermentar a ignorância e propagar os preconceitos.

Sobre o autor – Arthur Schopenhauer (1788-1860) é um dos mais importantes filósofos alemães. Ele achava que o mundo nada mais era do que uma representação formada pelo indivíduo. Influenciou Freud, Nietzsche e Bergson com o pessimismo e foi o responsável por introduzir o budismo à metafísica alemã. Foi além do idealismo kantiano e tinha em Hegel seu principal opositor. Suas obras mais importantes são O mundo como vontade e representação (1819) e Parerga e Paralipomena (1851).

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