segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Resenha: Para Ler como um Escritor – Francine Prose

Finalmente comprei a versão impressa do livro Para Ler como um Escritor, da escritora, crítica, ensaísta e professora de literatura e criação literária Francine Prose, publicada em 2008, no Brasil, pela Zahar, com tradução de Maria Luisa X. de A. Borges e colaboração do professor de literatura brasileira Italo Moriconi.

O livro de 320 páginas traz as impressões de Francine Prose sobre a leitura atenta (Close Reading), o prazer da leitura, a importância de aprender com os clássicos da literatura e a análise de alguns dos principais elementos narrativos. O que mais gostei na obra? Da sinceridade da autora, que não tem receio de compartilhar seus conselhos para escritores e leitores, e explicar que a algumas das regras ensinadas dos cursos de escrita criativa podem ser repensadas e quebradas. E não há forma melhor de aprender a quebrá-las do que se inspirando em obras literárias que fizeram e ainda fazem sucesso pelo mundo por causa da qualidade de seus textos.

“Quanto mais lemos, mais rapidamente somos capazes de executar o truque mágico de ver como as letras foram combinadas em palavras dotadas de sentido”.

Para quem espera um livro com uma receita de bolo para escrever romances ou contos, Francine Prose prova que este não é o caminho a se aprender. O que a autora busca ensinar ao leitor, não é o aprendizado de fórmulas para dominar a arte da ficção, mas a leitura atenta de livros, para entender como os escritores fizeram para encantar o leitor: a construção da história é, antes de tudo, a construção da linguagem, como ressalta o autor convidado Italo Moriconi.

Muitos dos trechos de livros analisados por Francine Prose são obras recomendadas por ela, não simplesmente porque são clássicos, mas porque são leituras que a cativaram e a fizeram aprender mais sobre a arte da escrita literária. Aos leitores com a bagagem literária parecida, Para ler como um escritor é uma ótima maneira de relembrar e aprender com os grandes autores, enquanto aos que ainda não leram, é uma oportunidade de saber quais livros adquirir para melhorar o ofício da escrita.

“Todos os elementos da boa escrita dependem da habilidade do escritor de escolher uma palavra em vez de outra. E o que prende e mantém nosso interesse tem tudo a ver com essas escolhas”.

“E os autores nacionais?”, você me pergunta. Além da lista de livros internacionais para ler imediatamente, a presença de Italo Moriconi no livro nos brinda com reflexões sobre a literatura nacional e uma lista de obras brasileiras recomendadas aos escritores e leitores.

No início do livro, Francine Prose questiona se é possível ensinar escrita criativa. A discussão não é nova. Se alguém que lê e participa de cursos sobre escrita não se torna escritor, ao menos ele fica mais atento sobre a literatura – é claro, existem oficinas e oficinas literárias. Porém, ela ressalta o fato da escrita ser solitária e a leitura também, cabendo a cada um buscar o conhecimento e não deixar as fórmulas sobre a arte da ficção atrapalharem o escritor novato a se afastarem da paixão pelo ato de escrever.

A simplicidade da linguagem torna a obra de Francine Prose tão gostosa de ler – ela mesma desistiu de um pós-doutorado, pois percebeu que as análises literárias iam contra o seu prazer da leitura e aprender sobre a literatura e não se arrependeu de sua decisão. O aprendizado progressivo é incentivado, podendo o leitor começar a analisar as palavras, frases e parágrafos, para depois prosseguir para a narração, personagem, diálogo, até mesmo os elementos que tornam algumas obras inesquecíveis: os detalhes e os gestos. A autora também declara sua paixão por Tchekhov, dedicando um capítulo exclusivo sobre coisas que a fizeram aprender mais sobre literatura com ele, e como algumas das dicas de escrita eram desmascaras diante de seus olhos ao ler o escritor russo. Enquanto o último capítulo do livro fala sobre a leitura como uma maneira do escritor iniciante buscar coragem e incentivá-lo a continuar escrevendo.

“Para qualquer escritor, a capacidade de olhar uma frase e identificar o que é supérfluo, o que pode ser alterado, revisto, expandido ou – especialmente – cortado é essencial”.

A partir da página 266, o leitor acompanha o posfácio de Italo Moriconi que aborda de forma breve a literatura nacional, como a influência da crônica e como o leitor pode aprender mais sobre escrita com este gênero literário. Ele ainda ressalta: “Escrever é ofício e ofício se aprende com quem já o exerce antes de nós: há o mestre, há o aprendiz...”. Moriconi argumenta a importância do leitor-escritor brasileiro também valorizar os livros nacionais, lembrando que nossos ritmos são nossos e palavras também e que como bem lembra Francine Prose, muito do que é escrito na língua original é perdido no processo da tradução.

Recomendo Para ler como um escritor não só para escritores, mas também para leitores que são apaixonados por livros. Através da leitura da obra, é possível entender mais sobre o processo de criação literária e aprender a ler as entrelinhas, para compreender porque alguns livros nos arrebatam de uma forma que outros não conseguem.

Sobre a autora – Francine Prose é autora de mais de uma dezena de obras de ficção, uma delas finalista do National Book Award. Crítica e ensaísta respeitada, foi professora de literatura e criação literária por mais de 20 anos em universidades como Harvard, Columbia e Iowa.

4 comentários:

  1. Lindo teu blog! Adorei tua resenha.
    Abraços
    http://leitorinsaciavel.blogspot.com/

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    1. Olá, Victor! Muito obrigado por sua visita e comentário :-)
      Volte sempre!

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  2. Tentei o livro só que fiquei perdido no meio de suas análises. Talvez não tenha dado a boa atenção. Mas, de fato, a autora escreve gostosamente.

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    1. Oi, Anônimo! Obrigado pela visita.
      Talvez o que mais complicada na leitura dessas obras sobre clássicos e sobre literatura em geral, é que nos outros países eles têm essas leituras como 'obrigatórias' e também são mais habituados a lerem. O que me ajuda na hora de ler é grifar os pontos principais. Dá para tirar pelo menos uma 'lição' de cada capítulo.
      Abraços! Volte sempre. :-)

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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