terça-feira, 4 de novembro de 2014

Resenha: Carta ao Pai – Franz Kafka

Carta ao Pai, como o próprio título indica, é uma carta escrita por Franz Kafka para o pai dele, na qual ele desabafa porque sempre se sentiu tão pequeno e frágil. A edição que eu li tem 11 páginas e foi publicada em 2013, pela L&PM Pocket, com tradução de Marcelo Backes.

Capa do livro Carta ao Pai, do escritor Franz Kafka“Seja como for, éramos tão diferentes e nessa diferença tão perigosos um para o outro, que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim...”.

O escritor que deixou sua marca na literatura, publicado há mais de 100 anos, se revela no livro Carta ao Pai. Ao longo de suas obras, Kafka se inspira na relação falha com o seu pai para escrever, como em Metamorfose, na qual o personagem se transforma em um inseto – assim como o autor que sempre se sentiu minúsculo, estranho e fraco – e em O Processo, na qual um homem é condenado.

Na época em que Franz Kafka escreveu a carta, ele tinha 36 anos e era no ano de 1919. Além de se machucar com o pai desde sua infância, ele ficou chateado com a recepção fria diante do anúncio de casamento com Julie Wohryzek. Em outras palavras, Kafka se sentia derrotado e assustado diante da vida: tinha 36 anos e nunca havia se casado ou tido filhos, um trabalho que ele não gostava e como acontece com muitos escritores, suas obras não foram tão valorizadas enquanto estava vivo.

“Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito. Era uma despedida de ti, intencionalmente prolongada, com a peculiaridade que ela, apesar de imposta por ti, corria na direção que eu determinava”.

Kafka responde ao pai sobre o medo que sentia dele. As diferentes gerações e a hipocrisia do pai foram alguns dos fatores que contribuíram para o afastamento entre os dois. O próprio Hermann Kafka comenta que nunca soube tratar o filho como os outros pais tratavam os deles, alegando que não sabia fingir como eles.

A sensação de pequenez de Kafka está presente no aspecto físico, ao se sentir bem menor do que o pai; no social, o pai ganhou a vida e sustentou a própria família, enquanto Kafka foi estudar e teve a liberdade de escolher o que faria; o psicológico, se sentindo lento em relação às outras pessoas e no religioso, pois mesmo aprendendo sobre o judaísmo, para o pai, Kafka nunca era bom o suficiente.

“Casar, fundar uma família, aceitar todas as crianças que vieram, mantê-las nesse mundo incerto e inclusive conduzi-las um pouco é, segundo minha convicção, o máximo entre todas as coisas que um homem pode alcançar”.

Ainda na carta, Franz comenta toda a estranheza do pai em relação ao seu ofício de escritor, nunca se importando o suficiente para ler o que ele escreveu. O autor faz um apanhado de tudo o que lhe faltou, como o apoio paterno (não o financeiro) e a aceitação e daquilo que sempre lhe foi obscuro, como a grosseria e frieza que o pai tratava os outros, não só de sua própria família, como os seus funcionários, sempre criticando e tentando diminuir todos ao seu redor.

A figura autoritária do pai e a incapacidade de dar afeto para Kafka foram responsáveis pela formação de uma eterna consciência de culpa no escritor. Nada do que ele fazia seria grandioso o suficiente. Ele tinha dificuldades para se relacionar com outras pessoas e um medo terrível de se casar, pois constituir uma família exigiria de Franz Kafka uma energia que ele não tinha, além de ter que lidar com a aprovação do pai.

Sobre o autor – Franz Kafka nasceu em Praga, filho de judeus, ele iniciou a carreira literária em 1908. Entre as importantes obras publicadas em vida estavam O veredicto, O foguista, a coletânea de contos Um médico rural e A Metamorfose. Mesmo pedindo para seu melhor amigo Max Brod queimar suas obras quando Kafka morresse, o outro publicou obras póstumas, como O processo, O castelo e Amerika.

Veja também: Documentário sobre o escritor Franz Kafka e sua vida marcada por fragilidades

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