sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Resenha: Ninguém Me Explicou na Escola – Fernando Favaretto

Ninguém Me Explicou na Escola aborda os relatos de um adolescente seminarista que compartilha seus segredos e inquietações com o leitor, bem como suas primeiras experiências homossexuais. O livro, de 354 páginas, foi escrito por Fernando Favaretto, publicado em 2014, pela Editora Multifoco, através do selo Desfecho Romances.

Segundo o texto da contracapa do livro, a narrativa foi inspirada nos diários escritos pelo próprio autor, durante o período de 1992 a 1994, época em que ele entrou para um seminário e, da mesma maneira que o protagonista lutou com suas dúvidas e transformações em vários sentidos, como a questão da vocação religiosa, da escolha profissional, sexo e desejo, amor e amizade, medo e culpa.

A história é narrada em primeira pessoa entre idas e vindas, na qual o protagonista conta como foi o seu primeiro contato com o seminário. Ele compartilha uma carta que recebeu de um frei e, além de ter sido uma ótima oportunidade de ele poder se educar melhor, um dos motivos que o levou a entrar lá foi tentar fugir de si mesmo e do seu desejo por outros rapazes. A linha entre a ficção e a realidade é bem fina. O leitor se pergunta o quanto do que foi contado é verdade ou tem uma dose de imaginação – assim como acontece quando tentamos relembrar algo do passado.

Para quem espera abrir o livro e dar logo de cara com as peripécias do personagem principal, a leitura exige um pouco de paciência, até o momento certo. O narrador descreve de forma breve como era sua vida antes do seminário, até os estranhamentos e adaptações das primeiras semanas. A linguagem é fácil de assimilar e, por vezes, traz um tom didático, talvez pela formação do autor. Cada início de capítulo traz uma epígrafe – um trecho de uma música. É interessante a maneira que o Fernando Favaretto consegue amarrar essa informação e contextualizá-la, de forma a familiarizar o leitor com o que acontecia na época.

No primeiro parágrafo da história, o autor dá um gancho para o leitor: “Ontem à noite eu sonhei com o Léo”. A partir desta frase, é criada a expectativa de saber o que teria acontecido entre ele e o protagonista. Então, ele imagina como estaria o colega, em seguida vai revelando como é que eles se conheceram. Leo e o narrador-personagem não eram estranhos antes de se tornarem seminaristas, porém lá dentro o relacionamento deles se desenvolve de uma maneira singular – ou talvez não tão única assim, mas vocês vão entender melhor ao longo da narrativa.

“Acho que vou ter que parar com essa mania de remexer no passado, já que uma recordação puxa a outra e o novelo infinito das coisas passadas começa a me enredar de um modo muito rápido e descontrolado”.

A narrativa intercala entre momentos provincianos e calmos de quem mora na região e estuda em um colégio frequentado por outros seminaristas (não somente eles), com uma pegada mais quente e excitante daquela fase da adolescência, nas quais as descobertas são feitas, os hormônios estão a todo vapor e há a necessidade de marcar território – descobrir sua própria identidade, se encaixar e se encantar por si mesmo (uma dose de narcisismo). Nem preciso dizer de quais partes gostei mais, né?

As informações dadas pelo autor sobre o seminário e o ambiente escolar ajudam bastante a entender o contexto, mas é preciso resistir à tentação de pular as páginas e avançar pelo texto até aquilo, que a meu ver, é o ponto alto do livro: como o protagonista lida com a sua atração por outros garotos. Como a história foi baseada na vida do próprio autor e nas coisas que aconteceram com ele, é possível notar uma forte dose de realismo e se levantar várias perguntas: Quantos outros rapazes não passaram pela mesma situação, achando que ao se tornar seminarista seus conflitos internos iriam se resolver?

“Quando eu era menor, não via mal nenhum em achar homens bonitos ou me imaginar beijando alguns deles. Com o passar do tempo é que fui percebendo que alguma coisa diferente se manifestava em mim, que os meninos todos pensavam e agiam diferente, e que era melhor esconder minhas estranhas ideias”.

Cada foco narrativo tem suas vantagens e limitações. A escolha pela primeira pessoa dá ao leitor o acesso aos pensamentos do protagonista. Desde os seus primeiros dias no seminário, percebemos que ele não está confortável. Que homossexual nunca se sentiu deslocado durante sua adolescência? É a fase em que os rapazes e garotas costumam namorar e não terem vergonha de exibirem esses afetos em público. Porém, quando se é gay, dependendo da cidade onde se mora, da região, as coisas complicam. Daí o entendimento de muitos jovens só saírem do armário quando se sentem seguros consigo mesmos, com os familiares e com a sociedade.

Há alguns momentos em que o protagonista se questiona se ele realmente conseguiria continuar no seminário e até quando. O narrador pesa suas escolhas. Ficar cercado de rapazes todos os dias, quando ele ainda está tentando descobrir melhor a si mesmo, parece uma ideia ingênua e arriscada. Para quem gosta de psicologia, os encontros e desencontros do personagem principal nos fazem pensar o quanto de suas escolhas foram motivadas pelo seu próprio subconsciente e o quanto foi culpa do acaso.

Não pretendo prolongar mais o texto e muito menos estragar as surpresas do leitor. Ah, essa Caixa de Pandora que uma vez aberta, não há como fechar... Ainda que o protagonista não tenha certeza de sua orientação sexual, é como se todos ao seu redor desconfiassem, menos ele. Demora um pouco para ele aceitar, até que as brincadeiras, flertes e o contato físico aumentam. Do início ao final do livro, alguns livros se destacam na mente do leitor, como Cassiano, Léo, Rossendo e Pércio.

Durante a adolescência, além dos hormônios, é também comum a paixão platônica ou não. O narrador, então, se vê encantado por uns (idealização) e frustrado com outros. A carne é fraca e mesmo sem entender completamente o que está fazendo, o personagem acaba se deixando levar pelas sensações e se entregando ao êxtase sexual. Nestas partes, senti falta de um pouco mais de detalhes, mas talvez seja intencional, para que o livro pudesse ser lido por menores de 18 anos, ou pela delicadeza e receio com os quais costumamos tratar nossas memórias, levando em conta que a narrativa tem um toque autobiográfico.

“Às vezes fico pensando, como será que eles todos lembram dessas coisas? Será que sentem algum tipo de arrependimento ou de saudade, será que eu fui o único com o qual se envolveram ou será que existem outros dos quais eles se lembram melhor? Será que alguma vez contaram sobre essas experiências para alguém? Será que estão se realizando sexualmente? Que tipo de sequela ou de lição ficou dessas relações todas? Provavelmente, nunca saberei, e sinceramente, acho que prefiro nem saber”.

Para finalizar, acredito plenamente na importância de abordar a questão da sexualidade dentro da sala de aula e por que não nos seminários? Muitas pessoas acabam buscando refúgio nas religiões, o que elas não imaginam é que estão fugindo delas mesmas, causando uma série de desequilíbrios para sua saúde mental. O que Fernando Favaretto expôs no seu livro, mais do que uma maneira de contar sua própria história, literalmente ou não, foi a necessidade do diálogo sobre sexo e orientação sexual, deixando este tabu de lado. Na época, os adolescentes não tinham acesso a tantas informações como temos hoje, e ainda assim a religião e a sociedade tentam julgar o que é certo ou não. Para o adolescente gay, é como se tivesse que esconder este lado “monstruoso”, para ser aceito. A autopunição, o medo de dizer não e de se posicionar podem ser naturais durante este período da vida, mas devemos nos lembrar que não são todos que conseguem quebrar as correntes do armário mesmo na vida adulta. Como o próprio autor relembra com as aulas, uma inclusive onde foi abordado o uso da camisinha, há um desencontro entre o que os alunos esperam aprender e o que é ensinado. A preocupação de muitos professores em seguir o manual, orientam muitos alunos para os vestibulares e escolha da carreira profissional, bem como os ensinamentos transmitidos dentro dos seminários sobre a vocação religiosa, acabam se esquecendo do principal: de guiá-los para a vida e deixá-los tirarem suas próprias conclusões do que é certo ou errado. Uma enxurrada de nostalgia e reflexões. Recomendo!

Sobre o autor – Fernando Favaretto é natural de Sério (RS), formado em Letras e Jornalismo e Mestre em Educação. Além de ser diretor da UFRGS TV, escreve e trabalha com educação a distância.

O livro Ninguém Me Explicou na Escola, do autor Fernando Favaretto, pode ser comprado no site da Editora Multifoco e no site da Livraria Cultura

Ninguém Me Explicou na Escola também está presente na maior rede social para leitores do Brasil, Skoob!

2 comentários:

  1. O livro é de uma delicadeza extrema, no que faz o autor rir de si mesmo e chorar de suas angústias. Um saudoso retorno aos anos 90 também

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Lúcia! Realmente, é muito bacana esta contextualização da narrativa. Confesso, que não tenho tantas referências televisivas e musicais da época – mas para aqueles que viveram no mesmo período, deve ser uma delícia reviver aqueles momentos.
      Abraços! Muito obrigado por sua visita e comentário :D

      Excluir

Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Comentários Recentes

Me acompanhe no Instagram