segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Resenha: O Lado Bom da Vida – Matthew Quick

Durante o fim de semana li o livro O Lado Bom da Vida, do autor Matthew Quick, de 256 páginas, publicado no Brasil, em 2012, pela Editora Intrínseca, com tradução de Alexandre Raposo. Para quem assistiu ao filme antes, a adaptação cinematográfica é bem fiel ao livro, embora se perca um pouco dos recursos metalinguísticos.

O que mais me interessou na narrativa de O Lado Bom da Vida, com exceção das instabilidades mentais de Pat Peoples, as quais eu já conhecia por causa do filme, é a maneira que o protagonista cria uma série de ilusões. Por exemplo, Pat imagina que sua vida é como um filme, além de ser obcecado por finais felizes, e acredita que ao melhorar sua própria personalidade, o resto também vai melhorar e os problemas do passado serão resolvidos magicamente.

“Não quero ficar no lugar ruim, em que ninguém acredita no lado bom das coisas, no amor ou em finais felizes, e onde todo mundo me diz que Nikki não vai gostar do meu novo corpo, nem vai querer me ver quando acabar o tempo separados. Mas também tenho medo de que as pessoas de minha antiga vida não sejam tão entusiásticas quanto estou tentando ser agora”.

A história é narrada em primeira pessoa por Pat. O passado é ocultado dele e do leitor e só é revelado gradualmente. Sabemos que ele teve experiências ruins e foi enviado para uma instituição psiquiátrica durante anos, quando ele acredita ter ficado fora durante meses e não se lembra do motivo dele e Nikki, sua ex-mulher, estarem separados. Outras particularidades do protagonista: Pat precisa se controlar para não perder o controle sempre que escuta uma música; Ele é viciado em exercícios físicos, como corrida e musculação, pois acredita que desta forma conseguirá recuperar sua esposa e faz o possível para deixar de lado sua necessidade de estar sempre certo.

A vida de Pat se transforma quando a mãe dele se esforça para trazê-lo para casa. Embora a mãe tenha paciência com o filho, o pai é um viciado em jogos de futebol americano que deixa o próprio humor se influenciar de acordo com as vitórias ou derrotas. O protagonista também tem um irmão que também é apaixonado pelo esporte. Mesmo que Pat não se dê conta, o ponto mais alto de sua vida nos últimos dias é o reencontro com seu amigo Ronnie, quando ele é apresentado para Tiffany.

“Se as nuvens estão bloqueando o sol, sempre tento ver aquela luz por trás delas, o lado bom das coisas, e lembro de continuar tentando.”

Tiffany parece uma sombra de Pat. Assim como o homem, ela também teve seu próprio histórico de desequilíbrio químico (depressão) e tenta se exercitar diariamente. O que a princípio incomoda Pat, acaba se tornando um motor para ele movimentar suas esperanças e lidar com o seu principal conflito, tentar reconquistar Nikki.

O Lado Bom da Vida traz algumas doses de realismo, por exemplo, como o afastamento de pessoas que não conseguem lidar com os problemas dos outros e mesmo que conheçam alguém com transtornos parecidos, estão repletos de preconceitos sobre os outros. Ao perceber a dor de Pat e a maneira que Tiffany o ajuda, mesmo que o final não seja aquele idealizado por ele inicialmente, há uma boa sensação de catarse.

Matthew Quick brinca com as expectativas do leitor e mostra que a Literatura não tem a obrigatoriedade de apresentar finais felizes, já que os conflitos dos personagens não só os tornam mais humanos e reais, mais também nos faz perceber que nem sempre as coisas estão em nossas mãos e quanto mais idealizamos alguma coisa, mais longe estamos de conquistar aquilo que desejávamos. A narrativa nos faz ver o lado bom da vida, não aquele pré-concebido, mas o imperfeito. Se eu pudesse definir em uma palavra o livro seria aceitação. Aceitar as próprias limitações, aceitar que não se pode mudar o passado, aceitar que, às vezes, o amor está onde você menos esperava e tudo o que você precisa fazer é recebê-lo de braços abertos, ao invés de alimentar fantasias e sofrer pelo que não se pode ter.

“Parece triste. Parece com raiva. Parece diferente de todas as outras pessoas que conheço - ela não consegue fingir aquela expressão feliz que os outros fingem quando sabem que estão sendo observados. Ela não precisa fingir comigo.”

O romance está repleto de críticas que cabem ao leitor decifrar nas entrelinhas. Os preconceitos sobre os transtornos mentais surgem do próprio protagonista, até seus familiares e amigos. Ainda que as pessoas se esforcem para tentar acolher Pat, é possível perceber que este apoio é limitado e, muitas vezes, superficial. Além de ser mantido no escuro sobre o seu divórcio com Nikki, até que ele estivesse preparado para se lembrar do que realmente aconteceu, Pat quase não recebia visitas quando estava internado. Ainda sobre as idealizações do protagonista, é gostoso ver como ele se ilude a ponto de desejar que tais obras de literatura não fossem recomendadas para adolescentes, por não serem otimistas e seus personagens passarem por situações tristes. Pat vive num estado de autonegação, como se tudo ao seu redor tivesse que ser perfeito e feliz, mesmo que ele não seja desta forma.


Sobre o autor – Matthew Quick era professor na Filadélfia, mas decidiu largar tudo e, depois de conhecer a Amazônia peruana, viajar pela África Meridional e trilhar o caminho até o fundo nevoado do Grand Canyon, reviu seus valores e, enfim, passou a dedicar todo seu tempo à escrita.

Ele, então, fez MFA em Creative Writing pelo Goddard College e voltou para a Filadélfia, onde mora com a esposa. Quick é autor de três romances, além de O Lado Bom da Vida, que lhe renderam criticas elogiosas e menções honrosas importantes, entre as quais destaca-se a do PEN / Hemingway Award.

4 comentários:

  1. Analine Molinário20 de janeiro de 2015 19:23

    Parabéns pela resenha. Adoro o livro e a resenha ficou exatamente da forma como entendi a história. ;-) Foi um livro que me marcou. Adorei ler.

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    Respostas
    1. Obrigado, Analine!
      O que eu mais gosto em O Lado Bom da Vida é o realismo do relacionamento. Apesar do Pat buscar algo ilusório (tentar aperfeiçoar o corpo e a personalidade por alguém que não dá a mínima para ele), ele acaba aceitando as próprias limitações.
      Fico feliz que tenha gostado!

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  2. Essa resenha bom, muito bem sucedida, mas eu amei o filme. A história eu achei muito bom, bem executar um script, engraçado e inteligente. Abotoaduras entre Jennifer Lawrence e Bradley Cooper me espanta, posso dizer que é um dos melhores filmes de drama Cooper. Atuações ótimas até mesmo dos coadjuvantes Robert De Niro e Jacki Weaver estão ótimos. Uma ótima historia, madura, diferente de todas essas comedias dramáticas/românticas. Vale muito apena acompanhar.

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    1. Oi, Sofia!
      Gosto muito do filme também. Dá para sentir bem as emoções vividas pelos personagens e como eles lidam com esses conflitos internos. Jennifer Lawrence está fantástica!
      Abraços

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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