segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Resenha: O Quarto Escuro – Louise Welsh

O livro O Quarto Escuro (The Cutting Room), da escritora escocesa Louise Welsh, de 341 páginas, foi escrito em 2002, e publicado no Brasil, em 2005, pela Girafa Editora, com tradução de Áurea Akemi Arata. Uma narrativa detetivesca que se passa no underground de Glasgow.


Para quem gosta de romances policiais, O Quarto Escuro conta a história de Rilke, um negociador de antiguidades que vai até a casa de McKindless, um homem que acabou de morrer e sua irmã queria que ele leiloasse seus objetos. Até aí, o leiloeiro já estava acostumado com o serviço. Porém, ele descobre um envelope com fotografias de uma modelo torturada até a morte e começa sua investigação para descobrir se é montagem ou realidade.

“Eu era velho demais para chamar isso de amor à primeira vista, mas tinha todos os sintomas. As pessoas morrem por amor, mentem, enganam e abandonam aqueles que os amaram. O amor fecha as portas para a fortuna, faz de homens maus, heróis, e de heroínas, libertinas. O amor corrompe, cura, deprava e desvirtua. É o remédio, a melodia, o veneno e a dor. O apetite, o antídoto, a febre e o sabor. O Amor Mata. O Amor Cura. O Amor é uma ameaça. Ah, mas é divertido enquanto dura...”.

Louise Welsh escreveu um romance que aborda este submundo, desde as empresas leiloeiras obcecadas em ganharem dinheiro e que sabem como cativar seus clientes viciados em gastar dinheiro até o mundo das drogas e da exploração sexual, na qual o protagonista nos leva para diferentes lugares, compartilhando suas experiências, sentimentos e pensamentos por meio de uma narrativa em primeira pessoa.

O que eu mais gostei no romance, além de deixar um pouco de lado a figura do detetive que investiga o caso e coloca este poder nas mãos de um homem comum, foi da caracterização do personagem principal que apesar de tentar ajudar, está longe de ser um herói. Rilke é um senhor gay, com seus 60 anos de idade, e mesmo sendo um dos funcionários mais bem pagos da empresa em que trabalha, ele está cansado. Os conflitos internos dele são expostos ao longo das páginas. Rilke tem dificuldades de se relacionar com outros homens homossexuais e parece ter problemas de autoaceitação. O melhor amigo do protagonista é Les, uma travesti que vende drogas.

Ainda que aconselhado por várias pessoas a parar de pesquisar a origem das fotos, Rilke não consegue deixar de lado e vai entrando cada vez mais nesta atmosfera sádica. Desde a curiosa coleção de livros sobre prazeres sexuais e violência de McKindless até a descoberta de uma modelo que o homem teria contratado, Rilke fica tão obcecado a ponto de não parar de pensar no assunto.

“... Muitas pessoas fantasiam sobre sexo e morte. Eros e Tânatos. A associação é tão antiga como o mundo. Repetida mil vezes, na arte, na literatura, no cinema e mesmo na mitologia. Oficialmente, na minha profissão, jamais foi feito um filme snuff. Acho que tal coisa nunca poderia acontecer. É autopreservação. Todos sabemos, claro, que há. Nunca vi um, não conheço nenhum título, mas sei que em algum lugar há um filme em que há uma pessoa matando outra no momento do orgasmo. A experiência me diz. Se alguém pensou em fazer a coisa, então em algum lugar alguém fez a coisa. O mundo é um lugar velho e assustador, Rilke, o terrível já aconteceu”.

Preocupado com a disseminação da arte Snuff (imagens que mostram pessoas morrendo), Rilke esconde da polícia as informações que descobre e continua investigando por conta própria com a ajuda de alguns colegas. O leitor é levado para as travessuras de Rilke, clube de fotografias, boates com travestis, bares, lojas de fotografias pornográficas até que os mistérios vão desenrolando. As resoluções do conflito são surpreendentes e abordam uma faceta destes problemas que não são exclusivos de Glasgow (Escócia), mas fazem vítimas pelo mundo todo.

O romance tem uma linguagem ácida e bem descritiva, possibilitando ao leitor ir revelando o mistério da fotografia junto com Rilke, já que ele também não é nenhum detetive e está dando seus próprios tiros no escuro. As dimensões do personagem com suas qualidades e falhas tornam eles mais realistas, mais humanos, além de expor o lado monstruoso e sádico daqueles que vitimizam os outros para satisfazerem seus desejos sexuais.


Sobre a autora – Louise Welsh nasceu em 1965, na Escócia. Por muitos anos trabalhou com livros raros e fora de catálogo, o que provavelmente a fez conhecer os meandros do mercado de antiguidades, cenário deste seu primeiro romance. O Quarto Escuro foi vencedor de diversos prêmios da Grã-Bretanha, entre eles o da Crime Writer’s Association de melhor livro de suspense de 2002. Em 2005, lançou seu segundo romance, Tumburlaine Must Die. Publica constantemente contos e textos jornalísticos.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Oi, Ronaldo!
      Para quem gosta de romances policiais, O Quarto Escuro proporciona uma boa dose de entretenimento. Não posso revelar o desfecho, mas me lembrou alguns filmes de thriller que gosto bastante.
      Abraços

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