segunda-feira, 9 de março de 2015

Entrevista: Alexandre Loch, psiquiatra estreia na ficção com livro sobre a angústia

Médico psiquiatra e filósofo, Alexandre Loch concedeu entrevista ao Blog do Ben Oliveira via e-mail, na qual o autor do livro Bile Negra (Editora Novo Século, 2014) bateu um papo comigo sobre suas influências literárias, o processo de escrever o romance e a angústia humana – tema central de sua narrativa.


Alexandre é especialista em psicanálise e atende em consultório e no Hospital das Clínicas, onde coordena a enfermaria de Ansiedade e Depressão e o Grupo de Psicoses. Em seu romance de estreia, o escritor juntou a arte ao conhecimento técnico e vivências sobre a melancolia, dando origem a uma obra de ficção que lembra uma sessão de terapia.

Confira abaixo a entrevista com o escritor Alexandre Loch:

Ben Oliveira: Para escrever, é preciso conhecer bem as pessoas. Como médico psiquiatra, com formação em Filosofia, você tem uma experiência teórica e prática sobre a condição humana. Como estes conhecimentos o influenciaram a escrever um livro de ficção?

Alexandre Loch: Estes conhecimentos me possibilitaram acessar o ser humano de uma maneira técnica, conhecer melhor as pessoas com as ferramentas da medicina e da filosofia. Vi, daí, que às vezes muito se pode explicar sobre uma depressão, sobre uma ansiedade, sobre uma angústia, mas isso frequentemente não é suficiente para as pessoas. Às vezes a experiência de compartilhar este sentimento, de atingi-lo através da literatura e das artes, é muito mais rica e significativa. Foi assim que estes conhecimentos me instigaram a escrever uma ficção sobre o assunto que aprendi na teoria e na prática do dia-a-dia, a melancolia.

Leia: Resenha de Bile Negra – Alexandre Loch

Ben Oliveira: O título Bile Negra faz uma ponte com as teorias disseminadas na Grécia sobre as biles e os humores, sendo que a negra se relacionava à melancolia. A angústia humana é uma das certezas da existência: viver é sofrer. Qual foi a mensagem que você quis transmitir com seu livro?

Alexandre Loch: Com Bile Negra quis mostrar justamente isto, que em nosso percurso pela vida necessariamente vamos nos angustiar, e que isso fará parte de nosso crescimento. Sempre procuro transmitir às pessoas que as experiências difíceis podem ser muito dolorosas, mas em parte podem ser revertidas também para amadurecimento.

Ben Oliveira: As transformações da sociedade, o excesso de informações, o consumismo, o efêmero, o vazio. O protagonista de Bile Negra é um homem que sofre e compartilha seus conflitos, como se fosse uma sessão de terapia. Levando em conta que a melancolia está presente há séculos, é nostálgico afirmar que nos dias atuais as pessoas estão mais suscetíveis à depressão e aos desequilíbrios mentais?

Alexandre Loch: Não é nostálgico, é científico na verdade. Hoje em dia há diversos estudos epidemiológicos que provam que viver em grandes cidades aumenta a frequência de distúrbios mentais. Quanto maior a urbanicidade, ou seja, quanto maior e menos saudável for a cidade, maior a chance de um indivíduo que mora nela de adoecer do ponto de vista psicológico. Assim, falar de depressão nos dias de hoje é muito atual, já que é uma das cinco doenças que mais gera incapacidade nas pessoas no mundo todo.

Ben Oliveira: É difícil não se identificar com os problemas do protagonista, já que os sentimentos são universais. No prólogo de Bile Negra, você afirma que as situações vividas pelos personagens não são baseadas em experiências de seus pacientes. Quando se trata de ficção, entende-se que personagens não são pessoas. Houve uma preocupação ética de sua parte, como médico, alertar isto, para evitar possíveis desentendimentos? 

Alexandre Loch: Certamente. Como esta ficção se aproxima muito da nossa vida nos dias de hoje, tive a preocupação de fazer com que as histórias e personagens não se parecessem em nada das pessoas que conheci como pacientes. Isso pode ocorrer mesmo sem querer; relatar uma história fictícia e perceber a posteriori que ela se assemelha bastante com alguém que você já conheceu. Mas diversas revisões cuidadosas deram conta de afastar qualquer similaridade; mesmo porque, muitos de meus leitores são também pacientes meus, e eu tinha de ter esta preocupação com a discrição. Aliás, todos estes meus pacientes que leram gostaram muito da obra, o que me mostra que tomei o caminho certo.


Ben Oliveira: Ainda falando sobre a questão do leitor que se coloca na pele do personagem. Ao ler Bile Negra, é possível entender melhor sobre si mesmo. Muitas pessoas melancólicas se recusam a procurar ajuda. Após criar esta identificação leitor-protagonista, você diria que de alguma forma acaba sendo um incentivo para se buscar ajuda apropriada?

Alexandre Loch: Acho que acaba sendo um incentivo sim. Queria que o livro funcionasse como uma espécie de espelho da alma; a pessoa lê, identifica-se ali com as questões tratadas, e passa a refletir sobre elas. Uma segunda ideia ao buscar esta identificação leitor-protagonista foi a de desmistificar estes sentimentos. Algo como uma mensagem dizendo “ei, você não está só”.

Ben Oliveira: Você afirma: “A angústia é inerente a todo ser humano”. Vivemos numa época que busca soluções rápidas e mágicas, isto inclui pessoas que buscam tratamento antidepressivo mesmo quando não precisam. Como identificar a linha entre a tristeza (normal) e a melancolia (patologia)?

Alexandre Loch: A diferença entre uma tristeza e uma depressão pode ser complexa e deve ser sempre avaliada cuidadosamente por um profissional, quando surge esta dúvida, mas em linhas gerais podemos assinalar que nos quadros psiquiátricos há sempre algum grau de disfunção. Assim, a tristeza passa a ser depressão quando ela é muito profunda, quando ela perdura por muito tempo, quando ela leva o indivíduo a perder o emprego ou evitar os amigos, e assim por diante.

Ben Oliveira: Em seu blog, você relaciona a escrita à terapia. Da mesma forma que o leitor vivencia a catarse, o escritor também é beneficiado pelo ofício. Qual é a importância para o ser humano deste alívio para alma proporcionado pela Literatura?

Alexandre Loch: A literatura é uma maneira não logica, não racional de se atingir as emoções. Com ela e com as outras artes temos acesso a todo um mundo emocional interno que é muitas vezes inacessível por outras vias. Ter acesso a este conteúdo é de extremo valor para o ser humano; ele se sente compreendido. Além disso, estes conteúdos podem, através da literatura e das artes, ser elaborados, digeridos, processados.

Ben Oliveira: Levando em conta que mesmo tendo o conhecimento de determinadas áreas, o profissional da saúde também precisa de outros para se manter equilibrado e o papel catártico da escrita. Como foi a experiência de escrever Bile Negra?

Alexandre Loch: A experiência de escrever Bile Negra foi para mim uma grande catarse. É impossível escrever um romance sem que você não se envolva com a obra, sem que haja um pouco de você nela. Tentei, assim, colocar diversas questões que me afligiam, seja por vivência pessoal ou profissional (ao ver as pessoas sofrendo por exemplo), no papel; todas elas travestidas de um personagem, de uma história fantasiosa, de uma situação que eu inventava. O livro em si foi tema de várias sessões de terapia, pois o ato de escrever e revirar algumas histórias acabava mexendo comigo também. O resultado foi o romance lançado ano passado pela Novo Século Editora.

Ben Oliveira: Literatura não é autoajuda. Em seu livro, os personagens tomam seus próprios rumos, compartilham seus problemas, mas em nenhum momento o narrador tenta dizer ao leitor como se comportar. Por que é importante despertar este olhar crítico? 

Alexandre Loch: Na verdade, o livro acaba se comportando como uma terapia mesmo. Surpreendentemente isso acabou acontecendo de maneira não planejada, intuitiva. Na terapia, à exemplo do livro, idealmente não é papel do profissional aconselhar, dizer o que as pessoas devem ou não devem fazer. Semelhantemente Bile Negra acabou virando um grande sessão de terapia; não diz ao leitor o que ele deve fazer, para onde ir ou para onde deixar de ir, mas apresenta parâmetros de pessoas-personagens que tomaram determinado caminho.

Ben Oliveira: Ao longo do livro, há um cuidado com a linguagem e as metáforas, para descrever os estados de espírito dos personagens. Foi difícil não cair na tentação de usar termos científicos e deixá-lo literário?

Alexandre Loch: Não, na verdade isso acabou fluindo com extrema tranquilidade. Eu procurava os momentos nos quais estava mais relaxado, ou mais mexido por alguma emoção, para escrever. Fiz isso justamente para propiciar uma escrita mais fluida, mais emocional, e menos técnica. Foi uma maneira de tentar estimular a espontaneidade e deixar o conhecimento científico de lado.

Ben Oliveira: A melancolia, muitas vezes, é um dos elementos marcantes em artistas e escritores. Muitos escrevem para não enlouquecer, enquanto outros são vistos como loucos pela sociedade. Como você avalia este dualidade?

Alexandre Loch: Lembro-me muito bem de um famoso terapeuta, muito experiente, contando-me que quando alguns de seus pacientes ficavam muito angustiados, o escrever os aliviava. Acho que a escrita serve um pouco para colocar a loucura no real e transferi-la ao papel. Isso serve para aliviar escritor e leitor, transformar a loucura em algo humano e compartilhável. Transportar aquele conteúdo emocional para a letra é edificante e catártico. Infelizmente muitos escritores, por estes movimentos, por este tipo de compartilhamento, acabam recebendo o rótulo de loucos.

Ben Oliveira: Seu livro foi lançado durante a Bienal internacional do Livro de São Paulo. Como foi a sensação como autor, de autografar e entrar em contato com seus leitores?

Alexandre Loch: Ter lançado o livro na Bienal foi muito bom. Pude ter um contato mais próximo com o leitor, perceber sua curiosidade, ouvir o que esperava de um livro meu. Ouvi também relatos do que o livro havia despertado neles, seja pela capa, pela sinopse, pelo título, ou simplesmente pelo fato de eu, psiquiatra e formado em filosofia, tê-lo escrito. Foi uma experiência muito gratificante!

Ben Oliveira: Seu livro tem marcado presença em blogs literários, através de parcerias e também de resenhas espontâneas, e você tem investido na divulgação no Facebook. Quais têm sido suas dificuldades e conquistas no meio literário?

Alexandre Loch: Acho que uma dificuldade realmente é a disseminação. Não são todos que têm tempo ou mesmo que gostam de ler romances; muitas vezes não sobra tempo para o prazer, para o lazer de se ler uma ficção. Vejo que muitas pessoas dedicam-se para trabalho e outras coisas, e muitas vezes quando têm de ler, são inundadas pelas exigências de leituras técnicas relacionadas ao trabalho, à sua profissão. Por outro lado, cito como conquistas a repercussão positiva que Bile Negra tem gerado; fico muito realizado ao ver que as pessoas que estão lendo o romance estão gostando muito. Tenho recebido muitas avaliações positivas no Skoob, nos próprios blogs literários, e também recebo muitas mensagens pessoais falando bem do livro, tanto de amigos como de pessoas desconhecidas, o que é muito bom.

Ben Oliveira: Todo escritor é leitor. Como foi o início deste seu relacionamento com a leitura?

Alexandre Loch: Desde pequeno sempre li bastante. Gostava muito de ler best-sellers e clássicos da literatura. Lembro que quando criança um dos contatos mais precoces com as grandes obras da literatura mundial foi ao ler quase toda uma coleção chamada “Imortais da Literatura Universal”, da Abril, que até hoje minha mãe guarda em sua casa. Havia lá excelentes obras como Moby Dick e O Retrato de Dorian Gray, dentre outros títulos que marcaram minha infância e que nunca mais esqueci.

Ben Oliveira: Você pretende continuar se aventurando como autor de ficção? Há algum próximo projeto de livro em andamento?

Alexandre Loch: Acabo de terminar minha segunda ficção. Já a revisei uma vez e em breve pretendo entrar em contato com editoras para publicação. Vamos aguardar!

Ben Oliveira: Cite três escritores favoritos?

Alexandre Loch: José Saramago, Gabriel Garcia Marquez, Ernest Hemingway.

Ben Oliveira: Quais conselhos você deixaria para escritores iniciantes?

Alexandre Loch: O mercado literário no Brasil é muito difícil, mas não desistam do caminho. Usem da persistência e agarrem-se às suas paixões; não parem de escrever e de investir na sua obra, no seu talento. Uma hora a coisa entra nos trilhos e deslancha.

Ben Oliveira: Obrigado pelo bate-papo, Alexandre! Deixe uma mensagem aos seus leitores.

Alexandre Loch: Gostaria de agradecer imensamente aos leitores de Bile Negra, afinal, são vocês que me estimulam a continuar por este caminho e a lançar novos romances. Muito obrigado!

6 comentários:

  1. Eu adorei a entrevista porque a) ele é psiquiatra E filósofo, o que é muito legal, porque eu adoro a psiquiatria e filosofia, b) eu me identifiquei com cada palavra do livro dele e c) eu penso muito parecido com ele. Como sempre suas perguntas são as melhores! Parabéns pela entrevista e parabéns ao Dr. Alexandre pelo ótimo livro, já estou curiosa pelo próximo.

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    1. Oi, Michele! Suas visitas alegram o blog, sempre!

      Fico muito feliz que tenha gostado. Com o ritmo mais lento do blog, fica complicado produzir muitas coisas. Já adianto que este mês teremos outra entrevista: desta vez com o Alex Francisco, mais uma novidade para os leitores... :D

      É muito bom ver esses assuntos sendo mais discutidos, seja na ficção ou não ficção, blogosfera ou não... Muitas pessoas ainda tratam os desequilíbrios mentais como um tabu.

      Obrigado pela visita! Abraços :-)

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  2. Estou em débito comigo mesmo por ainda não ter lido Bile Negra, mas são tantos livros na fila que preciso antes me organizar. A entrevista mostrou a seriedade do autor, o que é importante nesse tipo de leitura. Se por um lado livros que tratam de problemas psicológicos são uma forma de terapia para o leitor, que se identifica com os personagens e descobre que não está sozinho nesse barco, se escritos por pessoas que abordam tais assuntos de forma leviana, podem criar sérios mal entendidos. Bom saber que Alexandre domina o assunto. Sem falar que no senso ético de não misturar pacientes com personagens. E você, como sempre, indo nos pontos mais importantes e conduzindo a entrevista de um modo que a torne interessante e leve. Abraços.

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    1. Ownn! Muito obrigado. São para vocês que continuo produzindo conteúdo para o blog. Nós, blogueiros, sabemos como é. Muitas vezes, acaba sendo um 'twitter' da vida, um manicômio, onde a gente acaba falando com as paredes. De qualquer forma, tem sempre um leitor ou outro para salvar e fazer todo o esforço valer a pena. Tenho certeza de que o Alexandre Loch vai ficar feliz que você se interessou pelo livro dele e que tenha gostado da entrevista.

      Abraços!

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  3. Ben

    Muito show essa postagem. Gratidão, por ter me apresentado ao livro e ao autor. Comprarei.

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    1. Oi, Claudiane! A gratidão é recíproca, acredite. Fico muito feliz que tenha gostado da entrevista e se interessado por comprar o livro.
      Volte mais vezes!
      Obrigado :D

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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