terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Resenha: Bile Negra – Alexandre Loch

Concluí mais uma leitura, desta vez de outro autor parceiro do Blog do Ben Oliveira. O livro Bile Negra, do Alexandre Loch, de 192 páginas, publicado pela Talentos da Literatura Brasileira, selo da Editora Novo Século, em 2014. A narrativa de ficção aborda a angústia do ser humano, através das sensações, vivências e lembranças de vários personagens.


No prólogo de Bile Negra, o leitor já tem noção de onde surgiu o título do livro. Alexandre Loch afirma que foi através de Hipócrates de Cós, disseminada na Grécia por volta do século IV a.C., sendo que a bile negra fazia parte de uma das quatros biles responsáveis pelo equilíbrio dos humores – e seu desequilíbrio era responsável pela melancólica e outros estados de angústia. Com a proposta de retratar e refletir sobre o sofrimento, o autor utilizou seus conhecimentos para o desenvolvimento dos personagens, porém avisa que não são situações de seus pacientes atendidos em seu consultório.

A narrativa está dividida em três partes: Tormenta, Vazio e Libertação, respectivamente. Para quem gosta de epigrafes (aquelas citações nas aberturas de capítulos), cada uma das partes traz um trecho de Aristóteles explicando os efeitos da bile negra no organismo humano.

O personagem principal e narrador se chama Iago, um homem atormentado pela sua melancolia e que decide procurar ajuda profissional. A linguagem da ficção se constrói tal como várias sessões de terapia. O protagonista passa por várias etapas (ou no caso do livro, capítulos), até que se torna mais consciente dos seus problemas e confiante para se abrir e compartilhar sua história de vida.

“Porque nestes momentos tudo se corrói. Nestas fases tudo é invalidado, tudo vira mentira, tudo se desmancha e escoa como uma escultura de areia sofrendo com o temporal”Bile Negra, Alexandre Loch

Desde as primeiras páginas da história, o leitor já reconhece o sofrimento de Iago. Depressão, Síndrome do Pânico, Síndrome de Burnout, Alcoolismo, o foco do livro não é fazer o diagnóstico do personagem – apesar de ter sido escrito por um médico psiquiatra, a intenção, ao meu ver, é a de mostrar a fragilidade da mente humana, ou melhor, da condição humana. A universalidade nos permite uma identificação com os personagens, seja por nós mesmos passarmos por situações parecidas ou por conhecermos alguém que tenha passado, e consequentemente, abrimos nossas mentes e aprendemos a lidar melhor com a dor do outro ou de nós mesmos.

Ainda que Alexandre Loch seja psiquiatra, engana-se quem esperava por um livro de autoajuda ou uma obra de não ficção abordando a melancolia do ponto de vista clínico. Através das narrações dos personagens e por meio da habilidade da leitura nos transportar para outro universo, somos levados a vivenciar seus vazios existenciais. Quem tem depressão sabe muito bem como é essa sensação de desconexão da realidade, de sentir o corpo pesado e lento, de se sentir desgastado e querer morrer, mas ao mesmo tempo não ter energias para tal – sintomas que, aliás, para quem tiver interesse em se aprofundar, são descritos muito bem no livro O Demônio do Meio-Dia, do escritor Andrew Solomon.

Outro ponto que me marcou durante a leitura é a abordagem da sociedade pós-moderna ou modernidade líquida, conceito estudado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Não é preciso avançar tanto no tempo para reconhecer os efeitos da era pós-industrial em nossas vidas. Há mais de 80 anos, o próprio psicanalista Sigmund Freud discutiu o assunto no livro O Mal-Estar na Civilização, e ainda que de lá para cá muitas coisas tenham se transformado, ele acertou em cheio no retrato desta angústia humana.

“... A sensação era de desolação. Era um fechar-se triste. Como uma planta que é cortada e não morre na hora; com seu caule colocado em um sôfrego vaso com água, vai definhando, perdendo sua cor, sua seiva, sua vivacidade aos poucos”.Bile Negra, Alexandre Loch

Voltando para Bile Negra, à medida que o personagem principal entende como funcionam as engrenagens do sistema, ele reconhece que o seu vazio não é tão infundado como ele pensava. Iago e os outros personagens – alguns que não tiveram finais felizes, outros que fizeram o possível para sobreviver diante de seus referenciais e limitações – ora confrontam, ora são consumidos pelos seus demônios. Independente do histórico de transtornos mentais na família, percebe-se como o ser humano tem caminhado cada vez mais em direção ao sofrimento: consumismo, abusos de substâncias, excesso de informações e propagandas, estresse, falta de tempo para o lazer, isolamento, idealização, pais e mães viciados em trabalhos que não convivem com os filhos e depois se fazem de vítimas diante do afastamento, adoecimento por esgotamento físico e mental, violência física e sexual e prazeres efêmeros.

Somos levados por tantas histórias tristes de vida, que é impossível não sentir um pouco de mal-estar ao longo da leitura. Por outro lado, gostei muito desta dose de realismo presente na narrativa de Bile Negra. O leitor brasileiro costuma se comover com tantos romances internacionais e sofrer junto com seus personagens, como de livros orientais, por causa dos horrores destas comunidades, que acabam se esquecendo da realidade nacional. Talvez não tenhamos sistemas de castas, discriminação racial explícita, xenofobia e casamentos arranjados, mas no Brasil temos milhares de pessoas que sofrem e são vítimas de si mesmas, de suas famílias e da sociedade em que vivem.

“Este flerte com a solidão era gostoso e perigoso. Sentia medo de que isso se tornasse tudo. De que eu ficasse só nisso. Só viajando com as pessoas e morando na imaginação. Eu tinha medo.”Bile Negra, Alexandre Loch

Bile Negra cumpre bem o seu papel ao fazer o leitor encarar aquilo que muitas pessoas ignoram diariamente. Após a leitura, ficam várias perguntas no ar: Até que ponto somos responsáveis pela nossa infelicidade? Como manter uma mente saudável diante de uma sociedade que está deixando as pessoas cada vez mais doentes? Como buscar o equilíbrio diante do caos? Como buscar sustentação diante da liquidez? Como esperar pela durabilidade diante do efêmero?


Sobre o autor – Alexandre Loch é paulistano, descendente de alemães e brasileiros, nascido em 1978. Após ensino médio e fundamental, optou por estudar medicina, ingressando na Faculdade de Medicina da USP em 1997. Em 2004 realizou residência médica em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, onde anos mais tarde também adquiriu seu título de doutorado, estudando o estigma das doenças mentais. Atualmente possui diversas publicações científicas na área, e é editor-associado de um periódico internacional sobre saúde mental pública.

Interessado em aprofundar seus conhecimentos sobre o mundo, entrou na Faculdade de Filosofia da USP em 2009, curso que completou em 2014.

Leitor assíduo de grandes obras da literatura desde sua infância, vertente que nunca abandonou durante todo o seu período acadêmico, Alexandre decide publicar sua primeira ficção em 2014. Entendendo ser a angústia um sentimento universal e inerente ao ser humano, faz nascer assim “Bile Negra”, obra publicada pela Novo Século Editora (Selo Talentos da Literatura Brasileira).

Gostou de Bile Negra? Espero que tenham gostado da resenha! O livro impresso pode ser encontrado no site da Americanas e da Livraria Cultura e o eBook na Amazon.  

Leia o feedback do autor Alexandre Loch sobre a resenha:

"É uma grande realização para o autor perceber que um leitor sintonizou-se exatamente com as questões que o levaram a escrever um livro. O jornalista e escritor Ben Oliveira fez uma leitura extremamente profunda e tocante de Bile Negra. Em seu bem conceituado blog, que traz resenhas muito cuidadosas e de grande valor analítico... Confira a resenha e não deixe de seguir este excelente blog!"

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