terça-feira, 14 de abril de 2015

Resenha: Sangrantes – Ricardo Bellissimo

Sangrantes é o quarto romance do escritor Ricardo Bellissimo que eu tive a oportunidade de ler. O livro, de 164 páginas, foi lançado pela Editora Via Lettera, em 2015, na capital paulista, onde o autor mora. Depois de ler Sombras e Nefastos, Sufoco e Negro Amor, respectivamente, fiquei com um vazio... O qual foi preenchido rapidamente pela nova obra, mas já me deixou com vontade de mais!


Ricardo Bellissimo tem um estilo bem ácido e reflexivo. Seus personagens são reais, intensos e parecem não ter medo de buscarem as coisas que movem suas almas – independente de fugirem do ‘padrão’ do que é esperado pela sociedade. Com Sangrantes não é diferente. O amor, não aquele superficial e estereotipado, mas aquele que causa febres e envenena. Pelos títulos de seus livros é possível ver o diálogo entre eles e seu principal ponto em comum: amores sombrios.

Em Sangrantes, o leitor conhece Josuel, um homem que se vê diante da necessidade de fugir de casa, para sair de perto de sua mulher, Luiza, uma artista que tenta o assassinar. Quais seriam as motivações dela? Depois de enfrentar o silêncio, ele sente que não há alternativa senão cair na estrada. O leitor embarcar junto nesta jornada, nesta fuga de si mesmo, de um amor problemático e do surto de sua esposa.

Logo no primeiro parágrafo do livro, o autor prende o leitor com um gancho, só um aperitivo do que vem pela frente e que contém sua essência. Longe de usar fórmulas prontas para compor suas narrativas, Ricardo Bellissimo é um artesão das palavras e um profundo conhecedor da natureza humana, de forma que não há como não se envolver.

“O sexo selvagem é como me vingo da vida, ela disse, depois se virou exausta para o lado e dormiu agarrada à sua boneca de pano, sem um olho, e escurecida pela sujeira dos anos perdidos de sua infância”.

Para quem gosta de psicanálise, não há como não ficar curioso para descobrir quem é essa personagem, o que teria acontecido a ela quando era criança e qual é a sua relação com o protagonista. O destino de Josuel se entrelaça com o de outras personagens, como a enigmática e letárgica Junia, a qual é brevemente descrita nesta primeira passagem do romance, transcrita acima.

Narrado em terceira pessoa no presente, ao longo de todo o romance Josuel se vê mergulhado nas suas próprias memórias. Além das lembranças, Josuel recorre a um diário escrito por Luiza para reviver seus momentos juntos. Com a esperança de que a leitura irá ajudá-lo a entender melhor o que aconteceu, ele sente nostalgia e dor. Cada palavra é como um rasgo nas suas idealizações românticas sobre o seu casamento. Como toda artista intensa, Luiza escreve com seu sangue, com sua bile negra e sua ferocidade.

“No fundo, a leitura daquele diário é que lhe proporcionava tamanha confusão com o tempo. Era como se, entre as palavras ácidas de Luiza, existisse alguma dobra separando o tempo do espaço. Um portal que o projetava misteriosamente para uma outra dimensão. Enquanto o lia, a energia obscura por trás de cada substantivo, especialmente a dos adjetivos, vinha-lhe apartando de toda e qualquer materialidade que estivesse ao seu redor”.

Embora o romance seja narrado através do ponto de vista de Josuel durante a maior parte do tempo, são as quebras de Luiza que nos seduzem e nos prendem nas suas teias. Junia também tem sua dose de obscuridade, mas são níveis contrastantes de explosões emocionais. Ainda que Luiza seja pintora, sua expressão artística também pode ser sentida através de sua escrita no diário íntimo. Aliás, esta mistura de gêneros literários torna a leitura de Sangrantes ainda mais prazerosa – Ricardo Bellissimo já experimentou com a narrativa epistolar em Sombras e Nefastos, os múltiplos personagens pontos de vista em Sufoco e o fluxo de consciência em Negro Amor.
 “Josuel, com sua vida incolor e apagada, tentou voltar ao mundo através da minha pintura. Ele nunca teve coragem de pedir para que eu o pintasse”.

A aventura de Josuel o leva para lugares misteriosos e a conhecer pessoas tão obscuras quanto sua mulher. Com o hábito de ler o diário, carregando-o como um amuleto – a força das palavras de Luiza está no seu poder de criação e destruição, uma bela metáfora sobre a produção artística e a relação com a escrita literária. A força do mito é presente em Sangrantes, seja numa região próxima ao mar em que ele visita, seja durante uma das reviravoltas na qual ele se vê diante do desconhecido. Os contatos entre diferentes culturas, personalidades e visões sobre a vida e o amor movimentam a narrativa e transformam o protagonista e, consequentemente, provocam identificação e estranhamento no leitor.

A brincadeira com as palavras e suas significações, as surpreendentes reviravoltas e a reflexão sobre os relacionamentos e o amor, entre o intenso e o morno, aquilo que faz a alma vibrar e a adormece... São tantos paradoxos presentes em Sangrantes que não dá para ficar indiferente. Ao espionar o diário de Luiza e ao acompanhar os sofrimentos e prazeres de Josuel, ao encarar o diferente, o exótico, todas as metamorfoses da narrativa também acontecem em nossos interiores. Se toda leitura é também uma reescrita, ao ressignificar as coisas, reviver o passado e buscar a compreensão, durante o clímax final, somos arrebatados pelo efeito catártico. Esta não é só a história de Josuel, Luiza e Junia, mas a história de nós mesmos.

Sangrantes traz um drama com uma pegada de suspense. Fica a minha indicação de leitura para quem gosta de uma boa dose de entretenimento, com reflexão e uma visão realista e tentativa de desconstruir o amor idealizado, mostrando que mesmo os anos de convivência, as expectativas e imagens marcantes não estão imunes ao amor sombrio. Deixar a carne corroer e a alma sangrar são algumas das obsessões dos personagens que povoam os romances de Ricardo Bellissimo, com os quais desenvolvi uma forte conexão devido à temática e os devoro para absorver suas nuances. Com uma rica intertextualidade e conhecimentos introjetados em sua escrita, afinal, separar integralmente o sujeito escritor da obra é algo impossível de acontecer, Sangrantes mostra que a pós-modernidade merece um olhar mais atento e que existem muitas obras literárias que devem ser apreciadas além dos seus conteúdos imaginativos e nos fazem sangrar.

Sobre o autor – Ricardo Bellissimo é escritor, jornalista e historiador. Publicou a novela Libido Siamesa, premiada no I Festival de Literatura Universitário, 1998. De sua autoria, a Editora Via Lettera publicou os romances Sombras e Nefastos (2003), Sufoco (2008) e Negro Amor (2011).

O livro Sangrantes pode ser encontrado na loja virtual da Editora Via Lettera.

*Deixo aqui a minha gratidão ao escritor Ricardo Bellissimo por ter me enviado um exemplar do livro Sangrantes para ler e resenhar para os leitores do Blog do Ben Oliveira, uma parceria que deu certo. É tão bom recomendar com naturalidade uma leitura. Aliás, como já deixei claro várias vezes, embora seja bom relembrar, mesmo quando recebo cortesia, procuro não deixar afetar a minha leitura nem produção da resenha.

Sangrantes agora está cadastrado no Skoob – a maior rede social de leitores brasileiros! 

Espero que tenham gostado! Estou na correria, mas não podia fazer uma pausa para recomendar Sangrantes. Abraços!

4 comentários:

  1. Pela sua resenha, vi que o livro tem tudo aquilo que me fascina: profundos retratos psicológicos, personagens bem construídos, relações conturbadas. Legal ver essa radiografia de um relacionamento. E ler o diário de um amante, como eu já comentei antes, deve dar um frio na barriga. Resenha inspirada essa hein, gostei muito. Que bom vê-lo alimentando o blog, mesmo com toda a correria. Abraços.

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    1. Oi, Ronaldo! Sua visita me dá mais gás ainda! Sou suspeito quando se trata do Ricardo Bellissimo... Gosto muito das narrativas sombrias dele, embora possa incomodar pessoas mais 'sensíveis', acostumadas com histórias clichês. Acho fascinante a maneira que Ricardo desconstrói algumas visões sobre a sociedade, amor e relacionamentos. Personagens de carne e osso, com um diferencial: sem medo de abraçarem suas loucuras.
      Abraços!

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  2. Ben, esse livro é a só a minha cara né? "Amores sombrios"? Loucura? Gente, eu quero o meu exemplar agora! Eu simplesmente adoro ler qualquer livro que seja diferente de qualquer coisa. Vou adicionar a minha lista de desejados. =)

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    1. Oi, Michele! Sou suspeito, gosto de todos os livros do Ricardo. Todos têm essa pegada sombria, contemporânea, amores descontrolados.
      Super recomendo! Aliás, gosto de narrativas que incomodam, provocam estranhamento. Não gosto daquelas óbvias que a partir das primeiras páginas, você já sabe como a história vai terminar.
      Abraços

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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