sexta-feira, 26 de junho de 2015

Resenha: A Autoestrada – Stephen King

Todo escritor sente a necessidade de renovar a sua própria escrita. Com Stephen King não foi diferente. Em 1981, o autor escreveu o livro Roadwork sob o pseudônimo de Richard Bachman, como uma maneira de contar histórias de diferentes perspectivas. Logo descobriram que era do King e como os outros livros do autor, esse acabou fazendo sucesso. No Brasil, o livro, de 375 páginas, foi traduzido por Fabiano Morais e Vera Ribeiro, e publicado com o título A Autoestrada, pela Editora Objetiva, em 2013.


Para quem espera um livro cheio de terror e suspense, como costumam ser as obras do Stephen King, desde o início é melhor saber que A Autoestrada não trazem essa temática. Mesmo quando o autor tenta se desvincular, os elementos sombrios aparecem nas entrelinhas, mas este romance está mais voltado para a tragédia, o drama, ou suspense psicológico – como preferir, são rótulos que acabam caindo água abaixo, quando percebemos a complexidade da construção do romance. Aliás, o próprio Stephen King não é fã de ser chamado de O Mestre do Horror Moderno.

“Ele continuava fazendo as coisas sem se permitir pensar sobre elas. Era mais seguro assim. Era como ter um disjuntor na cabeça que era acionado sempre que parte dele tentava perguntar: Mas por que você está fazendo isso? Um pedaço da sua mente ficava escuro. Ei, Georgie, quem apagou as luzes? Ops, fui eu. Deve ser algum problema na fiação. Só um segundo. A chave é religada. As luzes voltam. Mas o pensamento desapareceu. Tudo está bem. Vamos continuar, Freddy – onde estávamos?”.

O livro está dividido em três partes e subdividido em datas. O romance é contado de forma linear, de forma que o leitor vai se familiarizando cada vez mais com o personagem principal, um homem chamado Bart Dawes, casado com Mary. Ele tem uma vida bem comum até que tem a notícia sobre a construção de uma nova autoestrada na cidade.

A história se passa em 1973, período da Guerra do Vietnã e de transformações econômicas nos Estados Unidos. Bart e Mary perderam um filho por causa de um tumor no cérebro, e embora ela pareça ter seguido em frente, o protagonista lida diariamente com o vazio deixado pela morte e uma infeliz tentativa de se reconstruir.

“Ele acordou com um espasmo que derrubou o travesseiro no chão, com medo de ter gritado. Porém, Mary ainda estava dormindo na outra cama, um relevo silencioso”.

Ainda que o livro seja narrado em terceira pessoa, temos acesso aos pensamentos do personagem através da inserção de fluxo de consciência. No início do romance não é tão evidente os problemas que Bart está lidando, mesmo com o estranhamento provocado pelos seus conflitos internos, como as vozes em sua mente de Fred e Charles e as frequentes alterações de humor.

Os conflitos principais são relacionados ao psicológico de Bart. Com decisões para tomar sobre a lavanderia em que trabalhava, a qual precisava de um novo local para ser transferida por causa da autoestrada e de sua própria casa que está prestes a ser demolida, Bart passa por uma crise existencial, levando a uma série de reviravoltas e clímax que vão mudar para sempre sua vida e a de Mary.

O estilo realista de A Autoestrada me lembrou um pouco da autora Lionel Shriver (autora norte-americana do livro Tempo é Dinheiro). Mesmo com a presença dos pesadelos, alucinações e demais sensações que provocam o terror, o livro desperta reflexões sobre o adoecimento da mente humana, quando as coisas fogem ao nosso controle. Da calmaria para a loucura, King nos leva numa jornada de autodestruição e miséria, com uma pitada de crítica ao desenvolvimento urbano que não leva em conta as consequências para seus cidadãos e à falta de resiliência diante do trauma.

Ao final do livro, há um posfácio escrito por Stephen King, que originalmente era um texto introdutório, no qual ele argumenta sobre a importância do seu alter ego Richard Bachman para sua carreira de escritor. De todos os comentários sobre como ele poderia escrever de diferentes ângulos e se reinventar, ele afirmou a importância de ter um ego para escrever sobre os horrores:

"Há na maioria de nós um lugar em que a chuva é muito constante, as sombras são sempre grandes e os bosques são repletos de monstros".

Como todos livros do Stephen King, há uma levada intertextual com o contexto histórico, social e cultural da época em que o enredo se passa e de publicação do romance, além de sua linguagem propositalmente urbana, sem floreios. Não é difícil se imaginar dentro da história, porém não tem como não sentir falta do terror sobrenatural. Recomendo A Autoestrada para quem quer se aventurar pelas outras ficções de King, afinal, nas entrelinhas sua essência permanece a mesma.

Sobre o autor – Stephen King nasceu na cidade de Portland, no Maine, no dia 21 de setembro de 1947. Hoje considerado um dos mais notórios escritores de contos de horror e ficção de sua geração, é um dos autores de maior sucesso em todo o mundo, com livros publicados e admirados em mais de 40 países. Em 2003, recebeu uma medalha da National Book Foundation por sua contribuição à literatura americana. Inúmeras de suas obras foram adaptadas para o cinema, originando filmes como Conta Comigo, À Espera de um Milagre, Um Sonho de Liberdade e O Iluminado. O autor vive em Bangor, no estado do Maine, com sua esposa, a romancista Tabitha King.

4 comentários:

  1. Adoro o lado Bachmann de Stephen King, principalmente na construção dos personagens. Apesar de que nesse caso há uma desconstrução né? Ainda não li a Autoestrada, mas certamente será uma leitura bem proveitosa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Ronaldo! Para você que é leitor voraz do King, tenho certeza de que vai identificar facilmente a essência dele. É aquela coisa: a força do subconsciente é tão forte, que mesmo quando tentamos esconder algo, acabamos revelando.
      Abraços!

      Excluir
  2. Olá Ben,
    Bela resenha! o livro me instigou, mas por sua profundidade eu acredito ainda não estar preparado para ingressar em sua leitura. Ainda sou novato com relação a ler livros do King, li apenas 2, então darei a vaga devida a esse livro quando estiver mais maduro. O que acabei de dizer pode ter sentido, mas sou tão passível a mudanças, que se me der na telha, leio ele semana que vem. hehe

    Abraços,

    Leitor Noturno e Coisas de Um Leitor

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Matheus! Tenho certeza de que você vai gostar. No início acaba estranhando um pouco, pois apesar de ter um toque do King, o pseudônimo também dá um ar diferente à narrativa. Leia sem medos! A linguagem é bem simples e não tem tanto horror quanto às outras obras dele. A Autoestrada é mais suspense. É uma delícia poder comparar com as outras obras dele e analisar o que muda entre Richard Bachman e Stephen King.

      Abraços. Grato pela visita e comentário!

      Excluir

Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Comentários Recentes

Me acompanhe no Instagram