segunda-feira, 6 de julho de 2015

Yoga da Escrita: Quando o impossível se torna leve

Quando se fala em Yoga, muitas pessoas associam a imagem a diversas posições de alongamento do corpo e tiram uma série de preconceitos, antes mesmo de tentarem, como “é fácil”, “é muito difícil”, “não vou conseguir”, “prefiro um exercício mais pesado e que gaste mais calorias”, entre tantos outras. A escrita, como o Yoga, também é superestimada, subestimada e, no final das contas, exige disciplina, paciência, prática, propósito e entrega.


Mas o que o yoga tem a ver com a escrita? Alguns diriam que escritores são artistas, e como muitos deles, são loucos, excêntricos e vivem sempre em busca de inspirações, novas experiências e personagens para criar. Para outros, sem a musa, o escritor jamais conseguiria escrever nada e por esta razão, seria impossível escrever qualquer coisa que tivesse a magia suficiente para contar uma boa história e transformar o leitor.

Ao escrever, ainda que o escritor possa divagar diante do papel, da máquina de escrever ou do computador (aqui pouco importa qual será o suporte), ele precisa estar consciente de suas intenções. Há momentos em que a escrita flui com mais facilidade e os dedos dançam pelo teclado, mas também há tempos em que o criador enfrenta uma batalha contra si mesmo, contra suas criaturas, até que eventualmente ele prossiga em sua jornada ou caia no abismo do bloqueio criativo.

"A paz vem de dentro. Não a procure à sua volta" – Buda

Como em toda prática, a escrita exige o bem-estar. Mesmo quando o escritor explora seus próprios demônios, conta onde está doendo e/ou lida com memórias difíceis, se ele não estiver em equilíbrio, todo o trabalho pode vir a desmoronar. Escrever pode ser uma ótima forma de estar presente: aqui e agora – como acreditam os escritores zen –, mas nem sempre só a escrita o salvará de si mesmo.

Escrever é um ato solitário. É preciso deixar a mente pensar, respirar, voltar para dentro de si mesmo. Mesmo em uma aula de yoga, o praticante terá que aprender a se entregar ao momento, devotar um tempo para se desconectar com os elementos exteriores e permanecer conectado consigo mesmo, de forma que ele fique em uma espécie de entre-lugar. O escritor, como o yogi, sabe que é impossível viver indiferente ao mundo ao seu redor, afinal, é da vida que nos alimentamos, movimentamos e interagimos.

O yoga, como a escrita, vai além do mero conhecimento técnico. Não basta saber quais são as posições, seus nomes e variações, não basta ter uma boa flexibilidade, ter força suficiente para elevar o seu corpo, ter boa coordenação motora, se você não dedicar aquele tempo para o seu propósito. No yoga, os pensamentos e ações são voltados para o presente: ao se sentar de pernas cruzadas no tapetinho e se focar na respiração, o ar entrando e saindo, as preocupações devem ficar para trás. Nada de pensar no passado nem no futuro.


O escritor que ainda nem começou a escrever seu novo projeto de livro e começa a pensar obsessivamente em seu destino final, dificilmente consegue terminá-lo. A arte exige criatividade e entrega. É neste movimento de ondas, de se aproximar e afastar do que deseja e tenta surfar em sua crista, que a escrita vai se transformando. Nem sempre a escrita flui como você gostaria e está tudo bem. Precisamos aceitar os dias satisfatórios e outros não tão alegres. Levando em conta nossos limites: do corpo e da mente. O importante é nunca desistir, caso contrário, tudo se perde.

Ao ver meia-dúzia, dezenas e uma centena de livros publicados por determinados autores, o escritor iniciante acaba entrando em pânico. Como ele pode obter sucesso? Como ser reconhecido, quando seu autor favorito até hoje é destruído pela crítica? O praticante de yoga que acabou de iniciar a atividade e ainda não está familiarizado com as posições (com os vários nomes em sânscrito e até mesmo em português), que não tem uma flexibilidade tão boa e domínio da própria respiração, do corpo e da mente, imagina que dificilmente conseguirá chegar ao mesmo nível do seu mestre – e, realmente, pode ser que nunca tenha o mesmo desenvolvimento, mas assim como na escrita, gradualmente, com o tempo da prática e entrega, há uma expansão que ele jamais teria observado caso não tivesse dado o primeiro passo. Portanto, é essencial começar por algum lugar, sem se prender ao excesso de expectativas, sem julgar a si mesmo ou ao outro, simplesmente, deixando as coisas acontecerem.

Durante a escrita e/ou o yoga, alcançamos um nível de concentração de forma que os barulhos deixam de nos incomodar, as preocupações diárias são silenciadas temporariamente e as coisas fluem de maneiras inesperadas. De repente, antes de começar a escrever ou a praticar, você achava que não ia conseguir, por causa do cansaço e depois, se sente revigorado. Percebe que conseguiu escrever mais e/ou material mais aproveitável do que os das outras vezes – que aquela posição invertida sobre a cabeça, que você imaginava que nunca conseguiria fazer, não é tão impossível como você esperava. Passa a aceitar os dias de boa produção, os dias de pouca produção e, até mesmo, os dias em que você precisa de uma pausa. Aprende o óbvio, mas que muitas vezes é esquecido: ao respirar, respire; ao viver, viva; ao escrever, escreva!

"Ninguém nos salva, mas nós mesmos. Ninguém pode e ninguém vai. Nós mesmos devemos andar o caminho [...] Nós somos moldados por nossos pensamentos; Nós nos tornamos o que pensamos".Buda

Tempos de fadiga, bloqueios e demais dificuldades vão aparecer. Mas ao aceitar suas próprias limitações, viver um dia de cada vez e entender que por mais que existam coisas exteriores que fogem ao nosso controle, ao menos internamente é possível intermediar como você irá reagir diante delas e não só explodir e jogar tudo para o ar. Esses intervalos entre o que acontece e como você vai responder, essa consciência sobre as ações e reações, essa aceitação de si mesmo e compreensão de que o que hoje pode parecer difícil e/ou impossível, em uma próxima vez será mais fácil, mais leve e demais atitudes que começam a ser incorporadas naturalmente quando se pratica o yoga (não só como um exercício físico, mas uma filosofia) ajudam a deixar a vida mais presente.

O escritor que pensa em todas as dificuldades que estão por vir, dificilmente começará a escrever. Assim como no yoga, não basta saber quais são os diferentes elementos literários, os diferentes gêneros literários, quais técnicas você vai utilizar para alcançar seus objetivos e fazer o seu texto se conectar com o leitor. Não existe um livro de receita para escrita. Existem receitas para o fracasso: o excesso de expectativas e a concentração em todas as pedras pelo caminho podem te causar um belo bloqueio criativo. Dentro do escritor, vive também o autor, o editor, o revisor, o crítico e demais personas. Se ao escrever, você deixar a sua autocrítica te massacrar, você corre o risco de entrar em pânico, sentir raiva de si mesmo (e dos outros), sentir que nada do que escreve é bom o suficiente. Se quem assume são as facetas que estão preocupadas somente com os leitores e com as possíveis vendas, você acaba sufocando sua própria voz, escrevendo algo com um bom potencial para o sucesso ou desistindo por imaginar que ninguém comprará, mas que não te move – e como esperar que o leitor se delicie com algo que nem mesmo você consegue apreciar? Aceitação. Identidade. Persistência.

"Se você está depressivo, você está vivendo no passado. Se você está ansioso, você está vivendo no futuro. Se você está em paz, você está vivendo no presente" – Lao Tzu

Construímos nossas identidades com a diferenciação. Sou quem eu sou porque os outros não são como eu. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. Na ânsia de querer melhorar – o que é discutível, pois pode ser que o seu melhor não seja o daqui de alguns anos, mas é o suficiente para o hoje e é o que importa – podemos trilhar o caminho da autodestruição. Viver é um eterno construir, destruir, desconstruir e reconstruir. Nossa bagagem só vem a aumentar com o passar dos dias. Desde que você persista em seus objetivos, mesmo que a jornada seja difícil, ela te levará para onde você deseja.

Assim como no yoga, não é preciso nem lembrar que você jamais vai tentar fazer alguma posição com a qual não está familiarizado e pode machucá-lo, o escritor que se prende ao futuro, quando nem mesmo devotou energia para a criação no presente, irá provocar injúrias, bloqueios e desistências. O praticante iniciante de yoga que viu uma imagem de uma posição invertida de elevação do corpo se maravilha, mas não percebe que o equilíbrio não é final: cada uma das etapas exigiu um nível de controle da força, da respiração, da base – como uma coreografia, em que cada um dos passos são aprendidos e misturados ao final. Que o escritor tenha consciência de que para tal autor favorito escrever cada um dos seus livros, ele também começou por algum lugar, passou por tantas dificuldades e, em algum momento, ele não desistiu, conquistou seu equilíbrio e obteve pequenas vitórias. Juntando essas aceitações de derrotas e tendo persistência para um dia colher o sucesso, qualquer um pode reunir uma série de presentes para ter um bom futuro-presente. Mas, se escritor iniciante se prender ao passado e ao futuro, e esquecer que para ser escritor é preciso – óbvio, mas necessário lembrar – escrever, sua jornada pode levá-lo a qualquer lugar, menos ao que ele deseja.

É muito fácil se perder nas preocupações, deixar a escrita sempre para depois em busca da inspiração que pode não vir a chegar tão cedo e se acomodar com o bloqueio criativo, afinal, ainda há tempo para aquele deadline. É incrivelmente fácil desistir quando você parece ser o único a acreditar em seus sonhos, quando os desafios são maiores do que as recompensas e o grande dia de sua libertação parece que nunca vai chegar. É mais fácil ainda se torturar, comparar o ofício do escritor com o de qualquer outra carreira que pode vir a ser mais bem-sucedida, num país onde os livros e a Literatura são desvalorizados e embarcar num oceano de tormentos. Mas se por um instante, você deixar os pensamentos se dissiparem e escrever, sua intenção o levará de volta à jornada. Três palavras-chave para levar para a vida: propósito, aqui e agora.

2 comentários:

  1. Nossa, que texto lindo! Eu sofro de um super medo de escrever meu livro, infelizmente, também por causa do meu transtorno mental eu não consigo terminar um projeto e fico pensando que tudo vai dar errado - obsessivamente. Ás vezes, eu choro em cima do teclado de raiva de mim mesma por não conseguir terminar meu livro... é uma coisa que eu desejo muito, mas minha mente não tem foco suficiente para isso - ainda. Estou fazendo uma nova terapia e além dela, a yoga me ajuda muito a não me perder nesses pensamentos autodestrutivos. Eu não entendo porque tem que ser assim, porque isso acontece com a mente das pessoas, e não entendo pra quê tanto sofrimento emocional...mas a yoga me possibilitou aceitar que é assim que é. E eu posso mudar isso através da disciplina e a partir do momento em que eu aceito a ajuda das pessoas certas. Seu texto me deu ânimo para não desistir - e olha que muitas, muitas vezes eu penso em desistir... Eu custo um pouco mais que as pessoas sem transtorno para aprender um novo comportamento, mas sei que um dia eu vou conseguir atingir meu objetivo! Obrigada por escrever esse texto, me fez pensar!

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    1. Oi, Michele! A Yoga tem me ajudado bastante a me reencontrar. É muito fácil se perder nesta jornada da escrita: se você só escutar a voz da crítica, nada parecerá bom o suficiente; se você pensar na questão financeira, o desânimo é maior ainda... Por outro lado, se você enxergar a escrita como algo que pode te curar, que pode ajudar outras pessoas e como aquilo que você sabe fazer, fica mais fácil se manter animado. Assim como na Yoga, é preciso aceitar a limitação do corpo e da mente e deixar que gradualmente esses espaços sejam liberados. Escreva todos os dias, mesmo que só para si mesma, mesmo que não seja aproveitável para publicação, desta forma você vai se condicionando. E quando não estiver se sentindo muito bem, não coloque pressão em si mesma: é preciso escutar o corpo, a mente, até que as coisas voltem ao normal. O que não podemos fazer é ficar esperando pela inspiração: ela é escorregadia, como a felicidade constante. Vivendo e escrevendo um dia de cada vez.
      Muito obrigado pelo seu comentário! Você me anima a continuar escrevendo.
      Beijos e muita paz.

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