terça-feira, 17 de novembro de 2015

Crônica: Pintura Borrada

Enquadramento. Você e eu, uma moldura. Me pergunto se mesmo com toda sua habilidade, a câmera seria capaz de captar a magia do momento.


Quantos pixels são necessários para que nossos retratos sejam fieis ao que estamos sentindo? Você me olha como se eu fosse maluco e começa a sorrir sem jeito – são estes movimentos rápidos e quase invisíveis que eu gostaria de registrar. Minha câmera é a caneta e as palavras nunca seriam justas com o que se passa. Minha memória tampouco é boa o suficiente para se lembrar dos detalhes.

Eu poderia divagar sobre o pôr do sol alaranjado, o céu azulado e o verde das árvores, mas no nosso quadro o fundo está borrado. Sua lente se encontrava com a minha e criávamos uma imagem dentro de outra. Quem ficava com as cópias das fotos? Quem poderia afirmar que tudo foi real, que não se passou da minha imaginação? Ninguém além de nós dois.

Minhas mãos seguram as suas. Noto como apesar de pequenas, elas são responsáveis por toda a beleza de seus registros. Imagino todos os lugares do mundo que o seu talento vai te levar e sinto um aperto no peito, até me lembrar que eu também estou prestes a partir. Nenhuma edição seria capaz de impedir o desastre que viria dali em diante, caso tivéssemos continuado juntos. Nenhuma cola poderia manter nossos pedaços juntos.

O texto fica incompleto. As palavras se recusam a me deixar usá-las. A escrita exige coragem, elas me dizem. Sua covardia se disfarça de compaixão. A arte, às vezes, consegue nos virar do avesso e nos joga contra a parede, nos arrancando o que não queríamos admitir. Um toque, uma explosão de retratos. Momentos que eu vi acontecer, mas nunca vão se concretizar. Momentos que nós dois imaginamos e nos entregamos ao universo durante alguns minutos, até que a realidade pegasse cada um deles, amassasse e jogasse em nossos rostos.

Era para ser um texto alegre, minha mente sussurra. Era para ser o registro de uma tarde maravilhosa. A escritura perde o propósito. A caixa de esperanças é tacada no fogo e o único instante que se salva é aquele concreto não tão concreto assim – tão frágil e efêmero, que basta um sopro para ele se desfazer pelo ar. Não existirão mais beijos, abraços ou apertos de mãos. Não existirão conversas ao longo do dia, sorrisos soltos, perguntas repetidas, sussurros nem convites para encontros.

A tarde se transforma numa crônica que não deveria ser escrita, lida ou relembrada. É preciso sacrifício para alimentar os fantasmas. Escrevi este texto para acalmar os espíritos de quem fomos aquele dia; aquelas duas pessoas ingênuas que acreditavam ter encontrado algo real e especial, duas pessoas que já não são as mesmas. Escrevi porque precisava concluir o texto ou ele me assombraria durante o mês inteiro. Escrevi para me lembrar de você, mas também para deixar minha memória descansar em paz. Escrevi.

O começo, o meio e o fim se misturam nesta massa gélida que tranca a minha garganta. Nosso relacionamento foi breve e impactante como um conto, capaz de provocar inúmeras reações em apenas uma tarde de leitura. O fio não se perde; ele foi achado e foi queimado, para que a história não tivesse pontas soltas. Nossos protagonistas já não sabem se são heróis, anti-heróis ou vilões, eles simplesmente são. O querer bem e o não-querer se confundem; nossas lentes já não miram a mesma direção. Já entendi. Não precisa mais explicar, você me diz. As lágrimas borram o papel, as palavras ficam salpicadas de visões que imaginamos para nós dois. O texto já não é mais o mesmo, nem o autor ou o leitor. Algo se rompe, se dilui, se confunde.

Veja bem, se a arte, muitas vezes, precisa da dor para tocar os outros; O que dirá daqueles que os seduzem com seus cantos de alegria? Foi preciso inundar ao menos um dos dois, para que ambos não tivessem o mesmo destino. Foi preciso abrir mão, quando tudo o que os meus dedos queriam era nunca largarem os seus. Agora, a imprecisão. Com o tempo, a benção.

Há quem veja um coração puro e se sinta tentado a estraçalhá-lo, a adicioná-lo para o rol de conquistas e a tocá-lo com os dedos impuros. Há quem prefira contemplar sua beleza e torça para que independente de quem você esteja e de qual caminho siga, que seja feliz. Você precisava de alguém que ficasse. E tudo o que eu poderia te oferecer eram cartas. Minhas malas já estão prontas. Carrego nas mãos a foto que nunca tiramos; nos lábios, o beijo que jamais pensamos que seria o último... Diante de todo esse maremoto, me agarro a uma pedra e acho o meu equilíbrio – assim mesmo, meio sem jeito, de cabeça para baixo, prestes a ser arrastado pelas ondas e a arrebentar contra as rochas a qualquer momento.

Menos um coração quebrado. Menos uma fogueira para ser jogado. Sei que é só questão de tempo até o foco voltar. Até lá, deixo tudo borrado. Há algo mágico mesmo diante da falta de magia, em deixar tudo acontecer e não saber para onde seguir, desde que se encontre a paz dentro de si e saiba que fez o certo. Fiz? Não sei. Um dia vou saber. Até lá, se você olhar para aquele dia, vai encontrar uma pintura aberta a múltiplas interpretações. Sabe como é? O universo sabe como ninguém como brincar de escritor, de fotógrafo, de artista. E ele ainda é o mestre das reviravoltas. Quem sabe o mar não leve meus rabiscos? Quem sabe o sol não seque nossas lentes? A obra não se perde, ela se transforma. Entrego-a não para ti nem para mim. Ela já não é nossa e talvez nunca tenha sido.

*Pintura Borrada e as demais crônicas podem ser lidas aqui no blog ou no Wattpad, na coletânea Fragmentário: https://www.wattpad.com/myworks/52578703-fragmentrio

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