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Destaques

Seis meses sem cigarro

Seis meses sem cigarro. Há um tempo parecia algo impossível de alcançar e aqui estava ele: estaria mentindo se dissesse que ainda não tinha fissura, mas havia conseguido controlar bem mais como nunca imaginara antes. Seis meses davam uma sensação boa. Seis meses sem fumar um cigarro, mesmo passando por inúmeras situações de estresse e de ansiedade. Seis meses aprendendo a regular as emoções de forma a não descontar no vício. Os meses iam passando. Datas que antes pareciam impossíveis se tornam reais. Já imaginara quando seria quando completasse um ano sem cigarro. Ia escrevendo para comemorar e lembrar que os pequenos dias também importavam. Escrevia para lembrar que o difícil não era impossível e qualquer um poderia conseguir se livrar do cigarro, por mais difícil que parecesse no início. Escrevia para agradecer a si mesmo por ter se libertado de algo que fazia tão mal e muita gente ainda acreditava que fazia bem. Escrevia para deixar claro que não queria voltar atrás e mesmo nos dias...

Crônica: O Blues de Natasha

Observei-a sentada, compenetrada em seu copo de vodka – pura e quente, pois tudo parecia tão frio e só uma dose de álcool poderia aquecê-la novamente, após aquela neve cinzenta que se acumulava em seu peito. Natasha, o nome da garrafa se confundia com o da personagem, com a música do Capital Inicial e com o da autora – eram todas uma e, ao mesmo tempo, eram todas diferentes.

Blues de Natasha

Perguntei se ela tinha fogo. Ela abriu um sorriso meio malicioso, meio melancólico de quem está sempre preparada para um trago. Ela faz sinal para que eu me sente ao seu lado. Sua aura fica azulada e todas as conversas paralelas dos outros clientes desaparecem. Natasha quer cantar sua dor. Eu quero escutá-la, senti-la e vivenciá-la com minha própria pele.

Ela sopra a fumaça em meus olhos, coloca o dedo nos lábios e faz sinal de silêncio. Uma dor pela outra, ela me diz. Parece-me uma troca justa, levando em conta que nossas bagagens estão ali cravadas nas marcas das canetas, em cada um de nossos rabiscos. Eu queria que nossas histórias fossem ouvidas, mas ela puxa a minha mão com força e diz: “Você parece que está precisando de uma dose de Blues Mudo”.

Então, as linhas entre Natasha e eu ficam borradas. É como se a cada trago em sua vodka, meus fragmentos fossem sorvidos um a um. Penso nas cinzas daqueles que um dia foram amados. Há quem prefira manter a urna, há quem prefira espalhar o pó pelo ar, terra e mar, mas há sempre alguém que quer se alimentar uma última vez dos seus fantasmas, como se pudessem ser um receptáculo da fragmentária essência que pouco a pouco vai perdendo seu gosto, cheiro e consistência.

Tão nova, mas com tantas experiências. Seu coração levara dentadas e a cada vez que ela reconta a mesma história, ela lambia cada um dos cortes para que nunca mais pudesse esquecer. Ela tentava... Tentava escrever textos para outras pessoas, mas as palavras se voltavam contra ela. No final, todas as narrativas pareciam ser a mesma, como um eterno exercício de reescrita e releitura, como se o universo a forçasse a engolir o café morno, sem mesmo oferecer uma colherada de açúcar para amenizar. Natasha gostava do desequilíbrio, pois se cansava fácil da monotonia.

Monomania. Ela repetia as palavras, como se estivesse em transe. Tento me lembrar de quando foi a última vez que fiquei assim, de quando a escrita me traiu ou será que fora eu que a traíra? Havia uma pureza sombria em seus textos, um grito de socorro acompanhado de um pedido de “Por favor, nunca me deixe”. Na-ta-sha. Seu nome cortava, como suas palavras ácidas, uma máscara que ela vestia para tentar afastar qualquer outra pessoa que não fosse ele. Dentro de seu coração de pedra, ela guardava o seu amor protegido.

Natasha segura minhas mãos e pede para eu não me apegar. Ela sabe que é melhor assim, que qualquer pessoa não passaria de uma sombra. Ofereço um café quente e ela se despede. Ela sopra seu beijo, enquanto vejo as luzes voltando a brilhar no ambiente, os ruídos se tornando irritantes e o vazio voltando a me assombrar. Fecho os olhos e tento me transportar para o momento em que meus fragmentos não se deixaram se magnetizar pelo seu Blues Mudo, mas é inútil, assim como contá-la que nem tudo precisa ser complicado. Deito a cabeça no travesseiro e penso quantas mais vezes aquela música vai tocar. Quando Natasha finalmente se renderá... Até lá, escuto aquela velha fita rodando sem parar. Reacendo sua bituca de cigarro, bebo o resto de sua vodka, só para manter a história viva em mim, ainda que nós dois morrêssemos lentamente.

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