quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Resenha: Dias Nublados – Dany Fran

Após publicar contos e crônicas, a jornalista Dany Fran estreou como romancista este ano com o seu livro Dias Nublados, de 276 páginas, publicado pela Editora Empíreo. O romance se foca na vida de Izadora Morgan Luchetta, uma artista plástica brasileira que logo participaria de uma exposição em Florença, mas vê o rumo das coisas por causa de um acidente.


A história se passa entre 2004 e 2012, narrada em primeira pessoa por Iza, divida em 24 capítulos. Como a autora e a personagem vivem no Paraná, pode-se supor que há uma forte influência do material biográfico para construir a ficção, tornando a narrativa mais verossímil, principalmente em relação aos sentimentos de perda, levando em conta que assim como a irmã da personagem principal, Dany Fran começou a escrever o livro após o acidente de carro que tirou a vida de sua irmã.

Antes mesmo de iniciar a leitura, temos a informação de que a irmã mais velha de Izadora, Mary e dois amigos estavam indo para a praia, mas nunca chegam até lá por causa da tragédia. A protagonista fica desnorteada com a morte de alguém tão próximo e são essas transformações que Iza sofre após o evento que são o ponto principal da trama, como desistir de retornar para a Itália. Como já havia expectativa sobre o que viria a acontecer – ainda que não se saiba exatamente quando –, um pouco da emoção acaba se perdendo. Uma sinopse que revela demais, ainda que o foco seja outro, pode tirar um pouco do prazer da surpresa do leitor de descobrir sozinho algumas coisas.

“Dizem que em qualquer história a vida tem cheiro e som. Eu acho que a morte também. Pelo menos o cheiro. É, definitivamente, a morte tem cheiro. Quando tudo acaba, a gente ouve o silêncio, quase ensurdecedor, mas ainda sente o que ficou no ar...”

Todavia, não deixa de ser interessante acompanhar os diferentes estágios pelos quais Izadora passa. A autora consegue trabalhar bem as emoções da personagem. Da calorosa e alegre Florença, a artista que era cheia de criatividade e inspiração começa a se afastar de si mesma e se torna tão nublada quanto alguns dos seus dias em Curitiba. Como o trabalho artístico ajuda e muito com a catarse, quanto mais Iza foge de retomar suas atividades, mais ela perde a magia que tornava os seus dias mais leves e cheios de cor.

Ainda na Itália, quando as oportunidades estavam aparecendo para Iza e ela estava tão empolgada com a ideia de participar de uma exposição internacional na Europa, parecia difícil para ela entender como a morte tocava as pessoas ao seu redor. Artistas podem ser intensos, mas quando estão no auge de suas criações e vitórias, depois de muitos desafios, eles podem acabar se fechando para o mundo. Ao longo do romance, Izadora começa a receber vários sinais, lembrando-a de que também é humana e está suscetível a ser balançada pelas coisas boas ou ruins, mas ela não escuta os sinais, até que seja tarde demais.

“O que quero dizer é que as obras que explodem emoção na gente são resultado de técnica, de alma, trabalho e o coração do artista”

Na ficção, assim como na vida, há sempre tempo para mudar. A literatura, como as experiências, nos faz enxergar diferentes perspectivas. Nada é estático e os movimentos invisíveis e visíveis possibilitam ações acontecerem em nossos interiores. A dor não é toda ruim quando nos ajuda a amadurecer, por exemplo. Izadora não muda completamente de personalidade, porque nossa essência sempre permanece a mesma, mas ao menos ela vai se abrindo mais não só para a dor, mas para aproveitar os pequenos momentos.

Não sou o tipo de pessoa que fica analisando capas de livro, mas gostei como a de Dias Nublados conseguiu captar a essência e acaba se relacionando com o romance, já que a personagem principal é uma artista, explorando as cores e contrastando com um céu cinzento.

“Pare pra ouvir. Assim como gostaria que as pessoas parassem para ver sua arte. Uma vez na vida não queira dizer o que a vida tem que fazer, perceba o que ela quer que você faça”.

Dany Fran escreveu um livro sobre recomeços. Izadora e sua família não são os únicos personagens do romance que aprendem a seguir em frente, como outros também passaram por tragédias e experiências traumáticas. No final de contas, temos que acreditar que vamos ser resilientes o suficiente. Assim como Iza, a autora conseguiu escrever sobre um romance com uma dose de autoficção que, imagino nem sempre ter sido fácil pensar em algumas coisas, mas de certa forma acaba sendo libertador não só para a artista, mas para o leitor.

A mensagem não é nova, mas não custa relembrar que somos seres humanos e todos estamos aqui temporariamente, e que apesar de não termos controle sobre o tempo de vida, podemos aproveitá-lo bem com quem amamos. No fim, até as mágoas secam e dão espaço para a luz, as cores, outras paixões e amores.

Sobre a autora – Dany Fran nasceu em Maringá, no Paraná. Jornalista, atualmente é editora do programa Caminhos do Campo, da RPC. A notícia edita suas horas e a literatura pulsa seus dias. Tem crônicas e contos publicados em antologias e e-books. Em 2015, lançou, com sua irmã do meio, o site literário www.irmasdepalavra.com.br. Dias Nublados é seu primeiro romance, que começou a ser escrito depois da morte de sua irmã mais velha, em um acidente de carro.

Se interessou pelo livro? Dias Nublados pode ser comprado através do site das Irmãs de Palavra, na Livraria Saraiva e na loja virtual da Editora Empíreo!

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