quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Conto: A Carta do Escritor – Ben Oliveira

Matar nunca é fácil. E ele sabia bem disso. Perdera a conta de quantas vezes precisara colocar o fim na vida de alguém. Às vezes, as mãos tremiam, os olhos ficavam vermelhos e se enchiam de lágrimas e a respiração ficava ofegante, como se tivesse correndo de si mesmo. Preferia as mortes violentas – eram menos dolorosas do que aquelas que aconteciam no silêncio da noite e o faziam perder o sono, pensando se aquela alma estaria perdida.

Escrever aquela carta nunca pareceu tão difícil. Ele sabia que as palavras que salvavam eram as mesmas que eram afiadas e mortais, como flechas envenenadas disparadas contra o peito. Depois de tanto assassinar, chegara a hora de escrever a última história dele.


As lágrimas se misturavam com a tinta e borravam as palavras, mas ainda era possível entender o que estava escrito.

“Eu já não aguento mais. Espero que você entenda. Alguns dias são mais pesados do que os outros. Eu levei uma existência fadada à escuridão, deixando meus desejos de lado para viver uma mentira. Eu odeio o meu trabalho, eu odeio meus vizinhos e odeio mais ainda o fato de que nunca consegui deixar ninguém se aproximar o suficiente. Seja lá quem é você que está lendo isso agora, quando encontrar esta carta, não se sinta culpado.

Algumas pessoas passam a vida inteira lutando para se encaixar. Alguns têm a sorte de encontrarem amigos e colegas e formam suas próprias tribos, outros percebem que sua identidade é fragmentada demais para que alguém possa entender.

Entenda, alguns vazamentos não podem ser contidos; não quando as rachaduras são demais e a pressão é tão alta, que sentimos o vazio nos engolir e nos jogar contra o escuro. Somos obrigados a encarar a nós mesmos e acredite, não há piores inimigos do que nossas sombras. Perdi a conta de quantas vezes eu lutei...

Agora, o que eu quero mesmo é simplesmente fechar os olhos e sentir o sopro gelado subindo pelas minhas veias, até a minha mente possa silenciar as vozes na minha cabeça, vozes que você jamais queria escutar. Elas me dizem para matar. Mate, mate, mate...

Fui chamado de assassino tantas vezes. Uma vez me perguntaram se eu achava que era Deus e quem tinha me dado o direito de acabar com tantas existências. Nos fizeram acreditar que era um sonho. Eu mesmo achei que era. No início, eu podia dar vozes, inventar histórias e viajar para tantos lugares que jamais imaginaria ter condições de ir antes. Até que as contas se acumulam sobre a mesa e você vê que precisa fazer o que é preciso para sobreviver. Este não é um até logo, tampouco um adeus. O fim é só o fim e nada mais”.

A palidez que subira no seu rosto não mentia. Era como ver o seu próprio fantasma. Sentiu o chão tremendo sob os seus pés e respirou bem fundo, para não deixar o peso derrubá-lo. Faltava pouco.

Era isso... Estava tudo ali. Não restava mais nada. As palavras certamente estariam imperfeitas – perdeu a conta de quantas vezes precisou lidar com a autocrítica para não deixar tudo incompleto. Agora, não importava, não necessitava de início, meio ou fim, não precisava de coerência ou coesão, aquele era o último fragmento de tantos outros que foram quebrando pelo caminho. Nada de pontas soltas. Nada.

Havia algo triste na despedida, especialmente quando se estava sozinho. Quem se importaria? Quem veria as dores que ele passava trancado naquela quarto, cercado pelos livros que testemunhavam sua solidão, com os quais ele ouvia e ouvia, mas nem sempre o escutavam? Os personagens tinham seus próprios desejos, assim como sementes que se deixavam levar pelo vento até encontrar um lugar para germinar.

Os gemidos e choros foram se acalmando. Era sempre tudo muito intenso. As barreiras nem sempre eram claras. Quando alguém morria, às vezes, ele sentia os fios rompendo com a realidade.

Colocou a jaqueta, apagou a luz e saiu dali. Precisava respirar. Ao escrever a morte de um personagem com o qual ele se identificava tanto, era como se a ideia do seu próprio fim não parecesse tão maluca. O vento balançou seus cabelos e um frio percorreu sua espinha. Era como se o outro estivesse ali, tentando tocá-lo, tentando sussurrar para segurar suas mãos e dizer adeus sem olhar pra trás.

Matar outro escritor, ainda que na ficção, nunca era fácil. Correu pelo parque, na ânsia de esquecer tudo aquilo e se perguntando até quando ia conseguir continuar desistindo de desistir. Sua sina era tentar viver fora das páginas... Até que alguém possa escutar a história dele novamente, só lhe restava o amargo e escuro vazio e a fantasmagórica carta sobre a mesa, a qual ele evitava olhar por muito tempo depois que escrevia, temendo que personagem e autor se tornassem um só.
***
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"Para um escritor, abrir mão de um romance é tão doloroso quanto perder alguém que ama" – Ben Oliveira 
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6 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá!
      Muito obrigado pela leitura. Fico feliz que tenha gostado.

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  2. Respostas
    1. Gratidão pela leitura e pelo comentário!
      Abraços

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  3. Quanto tempo eu não venho aqui... =) Eu gostei muito do texto porque me identifiquei - pra variar - em tudo, mesmo, em tudo. Parece que você descreveu algo que aconteceu comigo. Me emocionei.
    "Eu odeio o meu trabalho, eu odeio meus vizinhos e odeio mais ainda o fato de que nunca consegui deixar ninguém se aproximar o suficiente. (...)Correu pelo parque, na ânsia de esquecer tudo aquilo e se perguntando até quando ia conseguir continuar desistindo de desistir." Parabéns!!! Excelente como sempre!

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    Respostas
    1. Uauu! Seus comentários sempre me dão alegria.
      Gosto muito quando um leitor se identifica com meus textos, ainda que muitas vezes não sejam alegres, afinal, gostamos de nos ver no que estamos lendo e de certa forma sermos 'representados'. Escrevi esse texto pensando no protagonista de Escrita Maldita, que não deixa de ter uma dose minha.
      Gratidão pelo apoio de sempre. Sei que já leu isso várias vezes, mas vou repetir: faz toda diferença!
      Sinta-se abraçada

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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