segunda-feira, 6 de março de 2017

Resenha: Espíritos de Gelo – Raphael Draccon

O livro Espíritos de Gelo foi o meu primeiro contato com a escrita do autor Raphael Draccon, que conquistou milhares de leitores no Brasil com suas séries de fantasia Dragões de Éter e Legado Ranger. Publicado pela Editora Leya, em 2011, o romance de terror traz uma atmosfera sombria com um protagonista anti-herói daqueles bem difícil de simpatizar e acaba selando o seu destino com sua ambição.


Enquanto lia Espíritos de Gelo, não conseguia deixar de pensar em outro personagem que também era marcado pela luxúria, o Frank Cotton (Hellraiser). Aliás, o romance do Draccon possibilita uma bela intertextualidade com a obra do Clive Barker, já que também se aventura pelo universo da magia, criaturas de outros planos, inferno e demais elementos que se revelar demais estraga toda a graça do leitor.

"Ele respirou pesado próximo do próprio reflexo e não se reconheceu. Parecia um homem cuja alma havia sido vendida. Por ele próprio. Talvez até pela internet. As pupilas pareciam vermelhas, os dentes pareciam exibir caninos, a testa parecia possuir uma protuberância como se a pele escondesse algo afiado por baixo” – Raphael Draccon, Espíritos de Gelo

Narrado em primeira pessoa, a história está cheia de quebras temporais. Como o protagonista e os personagens que estão o interrogando, o leitor vai juntando os pedaços da memória ao longo do romance. Torturadores estão tentando trazer a verdade à tona, mas independente de resistir, o narrador vai nos mantendo preso em suas digressões, tentando nos manter curiosos para saber como foi que ele chegou aquele cativeiro, quem são aqueles seres e o que eles querem com ele.

"Lá dentro daquela sala se escutavam gritos que vinham de fora e, por mais longe que as outras salas estivessem, pareciam vir de dentro; porque pareciam vir de nós mesmos" – Raphael Draccon, Espíritos de Gelo

Raphael Draccon criou uma narrativa perturbadora, que provoca ansiedade e nos movimenta em um jogo de prazeres e aflições. Qualquer semelhança com a lenda urbana de Boa Noite, Cinderela não é coincidência. No romance, acompanhamos um homem tentando refazer seus passos após ter sido encontrado em uma banheira de gelo, após ter o seu rim removido. Segundo informações divulgadas no blog do Raphael Draccon, o livro Espíritos de Gelo foi publicado inicialmente pela Gailivro, uma editora portuguesa, como parte de uma coleção de obras de terror inspiradas em lendas urbanas.

“O Mago não tem direito algum que não seja realizar a sua própria Vontade. Todos os verdadeiros atos de Magia são atos de Vontade, e todos os atos de Vontade são atos de Amor […] A Magia Negra é contrária aos Caminhos do Amor; ela é uma falsa tentativa de uso indevido das leis da natureza” – Raphael Draccon, Espíritos de Gelo

O romance é bem enxuto. Li algumas resenhas e vi que alguns leitores não gostaram de algumas repetições, mas acredito que foi intencional, para dar aquela sensação de inércia, principalmente levando em conta o contexto do personagem e a agonia de ter que reviver algumas cenas que nem sempre gostaríamos de lembrar.

Espíritos de Gelo brinca com os limites entre as lendas urbanas e o horror/fantasia sombria, transportando o leitor para um mundo oculto de magos, hedonistas e almas atormentadas. Viver em amnésia ou despertar? Há mistérios que, uma vez revelados, não podem ser ser esquecidos facilmente. Uma história sobre círculos do inferno.


Sobre o autor – Raphael Draccon é romancista, roteirista e editor. Com a marca de 200 mil exemplares, é o autor mais jovem a assinar com os braços nacionais de duas das maiores holdings editoriais do mundo. Além de integrante do RapaduraCast, é roteirista premiado pela American Screenwriter Association e chegou ao quarto lugar dos mais vendidos no México pela Random House.

Responsável pela indicação da obra de George R.R. Martin, "Crônicas de Gelo & Fogo", é hoje autor da editora Rocco, estreando o novo selo de fantasia da empresa. Para mais informações sobre o autor: http://www.raphaeldraccon.com/



E você, já leu Espíritos de Gelo? Ficou curioso para ler? 

2 comentários:

  1. O que me incomodou demais foi o excesso de referências pop. Toda página praticamente tinha uma, o que me desconcentrava da leitura. Beirou o pedantismo. Mas é um livro bem tenso, que curti bastante na época.

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    1. Oi, Ronaldo! Também percebi essas referências. No início me incomodou, mas depois me lembrei de ouvir falar que nas outras obras do escritor ele também abusa – acredito que ele utiliza como uma técnica para se conectar com leitores com afinidades parecidas. Tentei deixar de lado ao longo da leitura, para não atrapalhar minha imersão na parte sombria da narrativa.
      Bom te ver por aqui!
      Abraços

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