segunda-feira, 5 de junho de 2017

Mulher-Maravilha: Motivos para comemorar o sucesso do filme

O sucesso do filme Mulher-Maravilha (Wonder Woman) nos cinemas de diferentes países do mundo é motivo para se comemorar. Quando a escolha da atriz Gal Gadot foi anunciada para o papel da super-heroína, inúmeras pessoas reagiram negativamente, tentando dizer que ela não seria boa o suficiente. A atriz israelense não só se saiu muito bem, como junto com a diretora Patty Jenkins, ambas conseguiram se destacar em um universo desafiador repleto de estereótipos e ainda cheio de desigualdades, embora as mulheres tenham tanto talento quanto os homens. Vale lembrar que todo preconceito nem sempre vem só do polo oposto, como muitas vezes é interno, independente do grupo social.


A ficção em diferentes formatos não tem como premissa levantar bandeiras, mas acaba nos proporcionando inúmeras reflexões. Em tempos de extremismo, xenofobia, machismo e diferentes formas de disseminação de preconceitos e ódios, o filme Wonder Woman proporciona uma bela dose de catarse e levanta discussões pertinentes nos dias atuais.

A visão de Diana sobre a vida não é só fruto da convivência em uma sociedade matriarcal, mas também do olhar ingênuo de quem se aventura em outro mundo, outra cultura – ponto fundamental, já que a obra explora a guerra entre nações. Como uma criança inquieta, ela não hesita em questionar: uma das melhores mensagens do filme. Patty Jenkins conseguiu balancear o lado comercial do filme, sem abrir mão das sutilezas nas entrelinhas. Quando a secretária de Steve, por exemplo, revela qual é o ofício dela de fazer tudo o que o chefe manda, Diana revela que de onde ela veio isto é chamado de escravidão.

Diana se compromete com a humanidade. Mesmo estreitando laços com Steve, o amor da protagonista está mais para amor universal do que para o amor romântico – ponto que incomodou alguns que esperavam a completa independência emocional da heroína, sem se dar conta de que a ideia foi a de mostrar justamente o contrário: a de que o ego, em suas diferentes manifestações, pode levar a escolhas erradas. Mulher-Maravilha dá um show de empatia e nos lembra da importância de lutar pelas coisas que acreditamos, mesmo que muitos decidem ser coniventes e omissos. Em tempos de guerra, Diana não escolhe lados de acordo com bandeiras, mas mede as consequências por trás das ações – não se trata da figura da super-heroína que defende os ingleses só por defender, o que fica bem claro até o final do filme. Mesmo sendo aconselhada de que ela não pode salvar todos, ela resiste e não desiste de sua missão. Em nenhum momento ela se posiciona como alguém melhor do que os outros, seja por ser filha de Hipólita, a rainha das amazonas em Temiscira, por se destacar nos treinamentos ou durante a convivência com personagens que carregam diferentes cicatrizes.

"É sobre o que você acredita. Eu acredito em amor. Somente o amor pode salvar o mundo" – Diana, Wonder Woman

Diferente de super-heróis elogiados pela personalidade sarcástica, egocentrismo, poderes e posses, a principal ideia por trás da Diana do filme, confirmada pela própria diretora Patty Jenkins, é a de apresentar uma heroína que acredita no poder do amor, das mudanças e no aperfeiçoamento do ser humano. Jenkins revelou em entrevista ao New York Times a importância da arte de levar beleza para o mundo. O filme explora a importância do equilíbrio e do discernimento em diferentes aspectos da vida: não se trata da Mulher-Maravilha se sentir superior aos outros, seja por ser mulher ou por ter superpoderes, mas de lutar pela justiça, pela verdade e se manter fiel ao seu juramento de proteger aqueles que são vítimas de Ares, o Deus da Guerra. A humildade e abnegação de Diana servem como lembretes de que mesmo com privilégios, é importante respeitar os outros.

As cenas de ação do filme não deixam a desejar, mas a personalidade de Diana é o diferencial de Mulher-Maravilha. Ela poderia ser uma anti-heroína diante do seu passado, mas a personagem se transforma em um símbolo de resistência, imagem poderosa levando em conta os problemas mundiais que estamos enfrentando, como as possibilidades de guerra diante de políticos egocêntricos e mimados, que acham que o dinheiro pode comprar o mundo e que promovem o ódio àqueles que são diferentes. Diana simboliza a paz e por mais utópico que pareça, talvez seja exatamente o que precisamos em tempos que parecemos viver em uma trama de distopia. O roteiro não explora somente o silenciamento e opressão das mulheres, como de homens em posições mais baixas de poder e de como guerras matam milhares de inocentes, independente de como eles se sentem em relação aos governos. Aliás, apesar de mostrar a força feminina, uma antagonista ajuda a aplacar os egos frágeis que poderiam dizer que a mensagem do filme é a de mostrar uma mulher com virtudes e homens com seus vícios: a natureza da corrupção humana, da violência e do ódio é inerente a qualquer um, independente do sexo, identidade ou nacionalidade.

Assim como Anthony Burges em Laranja Mecânica questiona a liberdade e a capacidade do homem de escolher, condição que se anulada significaria também o fim de sua humanidade, Diana não só entende que os homens não são perfeitos e carregam suas próprias dualidades, muitas vezes, pendendo mais para a escuridão, como ela reconhece – o que não significa que ela aceita cegamente. As tentativas de dominação do ego e de superioridade nacionalista são responsáveis pelas guerras e se Diana acolhesse a ideia de Ares, ela seria tão ruim quanto ele. Se nem mesmo os deuses são perfeitos, por que esperar a perfeição do ser humano? O que não significa que precisamos manter o silêncio, assim como os artistas não temem se posicionar diante dos últimos anos caóticos, especialmente quando nossos destinos estão nas mãos de tolos que podem colocar tudo a perder a qualquer minuto. O mundo precisa de mais mulheres-maravilhas e de homens-maravilhas, não só nas telinhas, mas fora delas também – de pessoas que percebam que o mundo não gira ao redor de seus umbigos e que cada um de nós pode fazer sua parte para tornar o planeta um lugar melhor habitável. Mulher-Maravilha valeu cada minuto e cada centavo!



*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

2 comentários:

  1. Simplesmente perfeito esse seu texto! Eu AMEI o filme!! A personalidade dela realmente é o que se destaca. Acho que foi a primeira vez que gostei mais dos "mocinhos" do que dos "vilões", na verdade, ficou claro que essas duas coisas são muito relativas, são apenas rótulos, pois todas as pessoas tem ambas opções dentro de si. Eu chorei quando ela fala essa frase: "É sobre o que você acredita. Eu acredito em amor. Somente o amor pode salvar o mundo", pois eu também acredito nisso. Gostei demais, valeu mesmo cada centavo! <3

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    Respostas
    1. Oi, Michele! Muito obrigado pelo comentário. Com tantos super-heróis que se destacam pelos seus egos inflados, gostei de como a Mulher-Maravilha é bem humana no filme. Essa frase do filme é maravilhosa e define bem a identidade dela na história.
      Gratidão pelo comentário! ♥

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