segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Entrevista: Escritoras Kelly Shimohiro e Dany Fran, Irmãs de Palavra

Irmãs de Palavra. É assim que se denominam as escritoras Kelly Shimohiro e Dany Fran, ambas nascidas em Maringá, no Paraná. Kelly é psicóloga e autora do livro de ficção young-adult O Estranho Contato e Dany é jornalista e autora do romance Dias Nublados, inspirado no acidente de carro que tirou a vida de sua irmã mais velha. Apaixonadas por literatura, as duas escrevem para o seu site literário, além de participarem de outros projetos culturais relacionados à leitura, como o Clube Amigos de Palavra, em Londrina (PR) e em Maringá (PR). As obras das autoras foram publicadas pela Editora Empíreo.


Confira abaixo a entrevista com Kelly Shimohiro e Dany Fran, Irmãs de Palavra:


Ben Oliveira: De onde surgiu a ideia de criar o site literário Irmãs de Palavra?

Kelly Shimohiro: De um bate-papo entre nós duas. Tínhamos acabado de escrever nossos livros e pensamos: o que fazer agora? Mandamos para editoras e todo esse caminho, mas a internet e sua visibilidade estão à mão de todos nós. Então, acabamos concordando: vamos montar um site, um blog para divulgar nossas obras. E surgiu o Irmãs de Palavra (foi uma diversão escolher o nome, bem, na verdade, parece que o nome nos escolheu). E agora estamos nessa, cheias de histórias, ideias, desejos para o ‘Irmãs de Palavra’, como uma ferramenta de ir até o leitor, de ser um veículo para o que amamos: palavras (e todos os mundos que se constrói com elas).

Dany Fran: E o que nasceu para mostrar nossas primeiras obras ampliou-se, como tudo que é ‘vivo’. Continua com book trailer das histórias, acesso à loja de venda dos livros; mas muito mais. Textos. Devaneios. Palavras em movimento contínuo, um projeto literário que expande as (nossas) histórias! Bora nessa!

Ben Oliveira: Qual é a importância da leitura e da escrita para vocês?

Kelly Shimohiro: A palavra é a cor da vida. A palavra escrita, dita. A palavra pensada. Ler expande todos esses mundos. É uma troca profunda com o autor, que faz você pensar além de si mesmo. Diverte, desperta sua criatividade, oferece a chance de você compreender algumas questões e até discordar de muita coisa que está escrita, fazendo você pensar a respeito. Você conhece diferentes mundos através da leitura. E, para mim, é o maior entretenimento de todos. Amo ler. Amo demais ler! E escrever é compartilhar suas ideias, suas contribuições com o mundo. Além de ser exercício de compreensão e expansão do uso da sua própria língua. Ler e escrever é comunicação (e esse não é o segredo da vida?). Leia, escreva, converse.

Dany Fran: Fico pensando que se é possível ter uma vida sem ler. É (surreal para mim, mas é!). Agora, quem lê... putz, tem muitas, infinitas em uma mesma life. E isso é mesmo fabuloso! A leitura me transporta para outras possibilidades e alarga meu olhar pro mundo. Mais do que um contato com as histórias ao nosso redor, é um canal para criação de novas histórias. E quando escrevo me sinto ouvida, como não seria capaz por alguém que escuta minha fala. Porque é na escrita que traduzo de forma mais livre o que ‘pensa’ meu coração.

Ben Oliveira: Kelly, como sua formação em psicologia influencia o seu processo de criação literária?

Kelly Shimohiro: O mundo psíquico é a realidade que mais me atrai. Os sentimentos e as diferentes verdades que inventamos ou criamos sobre os mesmos acontecimentos. A psicologia se debruça sobre esse panorama, estuda como o homem organiza seu mundo interno, a troca e a influência disso com o mundo externo. Obras literárias também fazem isso, em diferentes graus, é claro. Mas estão sempre traçando perfis psicológicos das personagens. Esse fio me conduz na construção de uma história. Adoro mundos fantásticos e paralelos, porque sei que vivemos em mundos fantásticos e paralelos na realidade que carregamos dentro das nossas cabeças. Todo conhecimento e vivência que somei até aqui estão na ponta dos meus dedos quando escrevo. É quem eu sou. O escritor escreve a partir de quem é. Não de quem gostaria de ser, nem de quem admira. O escritor usa as palavras que conhece, aborda os sentimentos na profundidade que é capaz de vivê-los. Agradeço todo o conhecimento de Psicologia que me foi passado, que me foi instigado. Está tudo traduzido nas linhas que invento.

Ben Oliveira: Dany, como foi escrever um romance inspirado em um acontecimento tão marcante de sua vida? Relembrar pode ser doloroso, mas também pode ser catártico?

Dany Fran: Foi um mergulho profundo, difícil. Visceral. Tentei transferir para as palavras toda objetividade da minha dor. Mas dessa vez não consegui. Noticiar ou editar o real, pela primeira vez não foi suficiente. Eu queria outros capítulos, encontros, personagens. Foi aí que começar uma ficção foi completamente catártico. Uma dessas loucuras incríveis que você se permite e ela abre caminhos preciosos. Não quero mais parar de seguir e mudar esse rumo.


Ben Oliveira: Quais foram os desafios de escrever um romance, ainda que inspirado em fatos, levando em conta que o jornalismo tem uma linguagem diferente?

Dany Fran: A realidade talvez seja sempre pauta da minha inspiração. Noticiar histórias, como jornalista edita muito da minha comunicação. Agora confabular não apenas outras versões, mas literalmente novas histórias, amplifica minha fala de um jeito tão plural que eu me apaixonei. Escrever ‘Dias Nublados’ surgiu em um momento difícil, se tornou uma aventura às vezes complicada e desafiante até pelos percalços da própria linguagem do romance tão distinta do que eu estava acostumada a produzir, a notícia. E foi nesse processo que a coisa toda aconteceu e eu descobri, de verdade, a pluralidade não apenas das histórias, mas do jeito de escrevê-las.

Ben Oliveira: No Brasil, o índice de leitura ainda é baixo e ainda existe um preconceito forte com autores nacionais. Por que vocês acreditam que isto ainda acontece? E como vocês fazem para lidar com a situação?

Kelly Shimohiro: A base do preconceito é o desconhecimento. Se você só tem acesso a determinados autores, se eles são aclamados pela indústria da cultura, acaba-se achando que só eles são bons. Quando você conhece alguém novo, tem contato com textos bons e poucos explorados na mídia, começa a descortinar seus próprios preconceitos. Nós, escritores nacionais, temos que fazer isso. Temos que trabalhar por isso. Sermos uma rede contra a colonização que estamos tão acostumados no Brasil, onde o que é de “fora” é sempre melhor. E acho que esse quadro está mudando. Nós escritores estamos trabalhando para isso. Não adianta mais nos lamentarmos, temos que seguir e mudar, se quisermos um novo quadro. Reclamar nunca resolveu um problema.

Dany Fran: Perfeito o que minha irmã de palavra acabou de nos dizer. Comungo e digo mais. Além dos clássicos que devoramos, tem muitos escritores contemporâneos que estão aí, escancarando uma produção nacional literária preciosa. É preciso botar na vitrine, ler, comentar, multiplicar o conhecimento dessa literatura. E vale muitas ações. Clube de livros, bora ler livros nacionais também. Fóruns, festas literárias, saraus e todo tipo de encontro que festeje a arte da escrita, bora incluir no repertório produções nacionais. São passos que ajudam a desmistificar bobagens como alta e baixa literatura, ou autores internacionais são melhores que os nacionais. Posso ficar aqui enumerando razões pra você não ter essa opinião turba. Agora crie a sua, leia... experimente autor nacional. Você corre o risco de descobrir uma porrada de novos autores pra entrar no seu círculo de ‘prediletos’!

Ben Oliveira: Vocês participam do Clube Amigos de Palavras em Londrina. De que forma vocês acreditam que essas experiências de leitura coletiva e discussões sobre livros podem ser positivas?

Kelly Shimohiro: Também participamos do Clube Amigos de Palavra em Maringá. São encontros deliciosos. Gente que ama história junta falando sem parar. É uma troca das melhores. As vezes acontece de lermos livros absolutamente diferentes, ou seja, a mesma obra é absorvida de maneira distinta pelas pessoas do grupo. E isso dá uma discussão quente, boa, eloquente. Todo mundo tem razão e ninguém tem A RAZÃO ao mesmo tempo. Avaliamos a nossa própria interpretação, alongamos nossos pensamentos para direções diversas – que pode ser que sozinho, você não consiga. E para quem escreve, é magnífico poder ouvir de tão perto o fascínio que uma obra gera em um leitor. Os pontos que mais interessam e os que desinteressam em uma narrativa. É um mega laboratório para o escritor. E um momento divertido, sempre rola uma risada boa.

Dany Fran: Sabe aquela história de que você não leu o mesmo livro que o outro, nem faz a mesma releitura nunca? Então, nos encontros dos dois clubes do livro isso é muito intenso! Ouvir leituras distintas da sua da mesma obra é uma experiência genial, porque possibilita uma troca não apenas com o autor, mas com os leitores. Além do estímulo para ler outros temas que talvez você, sozinha, jamais escolheria. E, claro, o baita prazer do encontro com gente que partilha o mesmo barato por ler que você!

Ben Oliveira: Kelly, como foi a experiência de escrever O Estranho Contato?

Kelly Shimohiro: Foi uma coisa louca. Porque pisei no mundo literário como autora. Debrucei na minha imaginação de uma maneira que nunca tinha feito. Minha cabeça, sozinha, inventa histórias. O Estranho Contato foi a vez de por tudo isso no papel. Simplesmente eu tinha que fazer. É isso, O Estranho Contato precisava nascer. E eu só tive que ficar ali, tendo paciência, alegria, cuidado, concentração e amor para deixar a história crescer.

Ben Oliveira: Há alguma previsão de quando será lançada a sequência de O Estranho Contato? O que os leitores podem esperar do livro?

Kelly Shimohiro: Espero que logo! Estou reescrevendo O Sombrio Chamado. É a revelação da Ágatha Guiller. Espero surpreender o leitor com o desenrolar da história, que está indo mais longe. O Estranho Contato foi a descoberta de um mundo novo. O Sombrio Chamado é a compreensão dessa realidade tão maluca. E, depois dele, vira o terceiro e último da série. Tcharannnn.

Ben Oliveira: Dany, há algum próximo projeto de livro em andamento? Algo que você possa nos adiantar?

Dany: Ben, sabe que muita gente já me fez essa pergunta e a eu respondia a verdade. “Além da notícia, agora a ficção é um jeito de contar histórias que eu quero explorar. Sim, quero escrever outro livro”. Agora, pra você já posso dizer. Estou envolvida em uma nova trama. Dessa vez ela não é inspirada em fatos reais. Mas os três protagonistas têm falado comigo como se fossem ‘reais’. Tomara que eu os torne reais!

Ben Oliveira: A literatura possibilita ao leitor conhecer diferentes vivências e culturas. Alguns estudos mostram que leitores de Harry Potter, por exemplo, costumam ser mais tolerantes com pessoas diferentes. Qual é a opinião de vocês sobre as manifestações de ódio e preconceito dos últimos tempos? Vocês acham que a literatura pode contribuir de alguma forma para ajudar a diminuir esses preconceitos ou que talvez seja esperar muito dos livros?

Kelly: Acho que uma obra literária não pode ter uma função didática ou colonizadora, pra nenhum lado. Acho que ela, em alguns momentos, pode ser espelho da realidade. E você pode, ao ler, olhar para isso e pensar: Putz, é uma droga tratar alguém dessa maneira!, ou Como essas pessoas (personagens) têm coragem de fazer isso?, ou Que horror esse mundo! E esse pensamento, essa conclusão ou reflexão que você tem ao ler, pode mudar você em algum ponto. Daí por diante, é efeito cascata. Você muda do seu jeito e o mundo responde, de alguma forma. A obra está ali cheia de ideias, possibilidades. O leitor entra nela, o leitor também constrói a obra quando a lê. De alguma maneira, eles se modificam. Então, o mundo também é alterado. Mas não em um processo linear e óbvio. Uma obra literária não é um manual ou cartilha para o bom ou o mau comportamento. Ela é um vislumbre da humanidade, um recorte do que somos em um dado momento, na ótica de uma pessoa (o escritor, com todas as influências presentes nele). A partir dela, podemos ir mais longe. Muito mais longe.

Dany: Assim como ler O Diário de Anne Frank, ler ‘O Rouxinol’ (Kristin Hannah), nos faz refletir e sentir os horrores do Holocausto. Porque os livros não apenas nos colocam em contato com os fatos, mas cutuca nossos sentimentos em relação à história. E isso nutre tua humanidade, alimenta suas verdades. Certas ou erradas. São suas. E são expandidas. Podem ser multiplicadas e, claro, modificadas. A partir, sim, dos livros. Porque esperar deles, nunca é demais.


Ben Oliveira: Deixe três recomendações de leitura!

Kelly Shimohiro: Para escritores: Romancista por vocação (Haruki Murakami, 2017). Para ler numa sentada, sem conseguir parar: O bebê de Rosemary (Iran Levin,1968). Para falar de uma autora da minha cidade, Londrina: Guardados (Karen Debértolis, 2003).

Dany Fran: Adoro o olhar e as palavras da jornalista e escritora Eliane Brum. Sua fala corta e atravessa o meu olhar. ‘A menina quebrada’ é uma porrada BOA no seu dia. Agora para nós escritores ou pra quem curte o universo, os bastidores da escrita, ‘Conversa Entre Escritores - Entrevistas da Believer’. E pra confirmar a valiosa experiência de clubes de leitura, vou de outro autor nacional que lemos esse ano, Daniel Galera.

Ben Oliveira: Quais conselhos você deixaria para quem deseja se tornar escritor?

Kelly Shimohiro: Siga sua intuição, seu coração. Estude a narrativa, mas extrapole. Dê ao mundo a melhor escrita que é capaz, que só você é capaz.

Dany Fran: Acho que listas ou métodos não criam escritores. Pra mim, isso não funciona. Mas também acho que dar voz a sua história exige um trabalho diário. Dedicação contínua. Escreva todos os dias. Do seu jeito. Natural e livre como tudo o que você sente e te faz pulsar. A sua escrita pode fazer outra(s) pessoa(s) pulsar(em). Cara, e isso não tem volta, só troca!

Ben Oliveira: Muito obrigado pela entrevista! Há alguma mensagem que você gostaria de deixar para seus leitores?

Kelly Shimohiro: Estamos todos conectados! E isso é o maior assombro do mundo! A melhor conexão que eu sonharia em ter. E, Ben, beijos para você pela entrevista. Você vai longe, adorei seu livro, Escrita Maldita!

Dany Fran: As histórias podem despertar nossos ‘dias’ mais fabulosos. Quando mesmo com olhares atravessados, permitimos novos encontros. Que a gente não pare de se esbarrar! Assim foi, Ben, com você e as Irmãs de Palavra. A literatura nos colocou em contato. Máximo!  Eu quem agradeço, esse dia, esse contato ‘fabuloso’!

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*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

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