Era antes de dormir que vinha a vontade de escrever. Tudo parecia estar dominado pelo sol, mas a qualquer momento tudo pode mudar em Campo Grande (MS). Tudo o que posso fazer é torcer para que não haja outros prejuízos e pessoas machucadas pela tempestade. Tudo indica que venha vento, mas por enquanto nada é 100% certo. Era na ventania que percebia o humor mudar. E se lembrava da importância da calma. Uma crise precisava ter mais do que alguns ventos para ser chamada assim. Ia deitar consciente de que não queria chuva, mas que poderia acontecer. Que o sol estava ajudando na regulação do humor, mas que era mais difícil quando tudo era imprevisível. Escrevia para se despedir do sol. Para lembrar que embora houvesse risco, não necessariamente significava que iria acontecer. E de todo modo, com os alertas feitos pelos jornais de Campo Grande (MS), que as pessoas saberiam o que fazer. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror Escrita Maldita , p ublicad...
Os livros salvaram sua vida, então, você quis retribuir. Eu deveria saber desde o início o que nos aguardava. Mãos que sangram suas sombras estão fadadas a se afastar da luz.
Eu queria acreditar no seu melhor, mesmo você repetindo tantas vezes: “Você não pode me salvar. Ninguém pode”. No fundo, eu sabia que nós dois não seríamos capazes de sair dessa lama.
Dentro de sua mente, você criou um sistema para reforçar suas crenças nos fantasmas do passado. O que é real ou imaginário? A história por si só é uma ficção. Quantas fábulas contamos para nós mesmos ao longo da vida? Aprendemos a encontrar conforto nas narrativas; fragmentos que nos dão energia para seguir em frente diante de tudo aquilo que nunca foi, é ou será.
As escolhas te levariam ao fracasso ou você morreria se não tentasse? Agora, tanto faz. Te observo com a lucidez escapando entre os dedos. A realidade pode ser tão esmagadora que tentamos nos reinventar. Você saboreia a própria loucura em uma xícara de café. Por um instante, é como se bebesse sangue; em desespero, busca a bebida que tapeia sua apatia.
A primeira crise de pânico você nunca esquece. Deitado no chão gelado, aquele sentimento duplo te invade: estou ficando louco e vou morrer. Qual das duas estradas te parece mais acertada? Entre lágrimas afogando o espírito e a garganta asfixiada, reza – ainda que não acredite em Deus –, para que o fim seja rápido.
Um filme passa na cabeça. O inferno é a repetição e o som da sirene é capaz de fazê-lo espremer os ouvidos. Preso na própria mente, sente-se paradoxalmente fora de si e ancorado em seu lago sombrio. Quem vai te salvar?
Você ri do próprio destino. Loucura seria ficar indiferente. Parte sua sempre soube que finais felizes não faziam parte do seu livro. Abre as mãos e é quando abandona a necessidade de controle que o espírito, o corpo e a mente se fundem de novo. Quando sua mente é um parque de diversões, a aventura está só começando.