quarta-feira, 27 de junho de 2018

Identidade aspie: Não dá para fugir de si mesmo

O Facebook me lembrou que esta foi a foto mais comentada de 2015. Subir em um palco com uma iluminação na minha cara (Alguém mais lembrou do início de Escrita Maldita ou foi só eu?). Na época, eu nem sabia do Asperger. Eu quase tive uma crise lá em cima. As palavras foram sumindo. Branco. Quase repeti o meu discurso. Quem não conhece um autista, acha que tudo o que ele passa é fingimento ou exagero. Mas os sons, a luz, cheiro, toque, tudo isso pode nos distrair e sobrecarregar (no caso dos autistas que têm Transtorno do Processamento Sensorial).


As pessoas acham que é timidez ou sociofobia, mas é mais complexo do que isso. É algo invisível, especialmente em Aspergers que temos menos stims (movimentos repetitivos que servem para nos acalmar e autorregular). Fingir ser 'normal' para não ser julgado o tempo inteiro quando sua mente tenta calcular cada decisão, cada forma de agir e adaptação.

Uma simples ida ao mercado pode nos deixar desorientado, especialmente se estiver lotado e barulhento. O cérebro pede pausa, quer respirar sem tantos estímulos sensoriais em todos cantos. As emoções podem ficar confusas; podemos chorar, gritar ou simplesmente entrar em modo de 'mutismo seletivo', ficamos tão cansados que perdemos as palavras. Por isso, muitas vezes, parecemos apressados, a vontade é de cumprir seu papel, antes da crise explodir.

Na época da foto, fui premiado por contribuir na luta para diminuição da homofobia através da literatura (minha escrita e meu blog). Sigo na minha luta. Acredito que a principal forma de resistência é ser você mesmo. Identidade é algo que ninguém pode tirar de você.

Sempre tive o apoio da minha mãe nos meus sonhos e como escritor, em um país de não-leitores, essa ajuda é fundamental. Se eu fosse partir para o lado lógico, desde o primeiro ano, teria desistido da escrita. Quem sabe como é a realidade do escritor no Brasil, entende que não podemos julgar quem 'mata seus sonhos'. Sigo firme, resistindo.

“Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – indiferentemente. Se vocês não estão em nenhuma dessas categorias, o mundo vai matar vocês, do mesmo modo. Apenas não terá pressa em fazer isso” —Ernest Hemingway



Curiosidades bônus:

Às vezes, aspies podem rir em horas inapropriadas. Não é algo que fazemos de propósito. Nosso cérebro processa as informações de forma diferente e, às vezes, em momentos inesperados, os estímulos sensoriais podem trazer à tona memórias ou podemos enxergar coisas que não-autistas não veem ou achar graça de algo que não faz o mínimo sentido para não-autistas.


Nosso humor e maneira de entender piadas costuma ser diferente de neurotípicos (não-autistas). Não é que nós não gostamos de piadas; nós gostamos de rir de coisas diferentes, que podem não ser engraçadas para neurotípicos.
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Pessoas com Síndrome de Asperger são hipersinceras. Elas não agem assim porque são grossas. As mentiras não soam naturais para elas e exigem um esforço bem maior do que para não-autistas. Poucas coisas me deixam tão irritado quanto alguém dizer que estou mentindo, pois é algo que eu dificilmente consigo fazer.

Mentir não é algo impossível para um autista, mas não é natural. Porém, pode ser aprendido/repetido como qualquer habilidade. Vale lembrar que existem atores que são autistas, entre eles o Anthony Hopkins.
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Quando se questionarem sobre a importância do Orgulho Autista, lembre-se que muitas pessoas querem mudar sua realidade (mesmo sendo impossível). Não tem como o autista se tornar um não-autista, isso não quer dizer que ele não possa ter uma vida digna. Infelizmente, muitos autistas recorrem ao suicídio e fora do país, tem até caso de eutanásia.


O amor próprio, a autoestima e a aceitação deveriam ser trabalhados com toda família, para que o autista aprenda se aceitar do jeito que é e possa enxergar o potencial, não só as limitações.
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Antes de julgar, entenda: Aos olhos de fora, pessoas autistas parecem egoístas, mas, na verdade, não damos conta de fazer tantas coisas e de lidar com tantos estímulos ao mesmo tempo. Um cérebro normal filtra cada estímulo. Um cérebro autista processa tudo junto, dando a impressão de que somos distraídos. Alguns livros nos pintam como distraídos propositalmente. Quando, em muitos casos, os estímulos atrapalham nosso foco. Não é algo opcional.

Ainda sobre a diferença de cérebro; pessoas 'normais' (neurotípicos) são programadas para terem vários amigos. Autistas têm dificuldade de lidar com tantas relações sociais. Coisas simples para não-autistas como 'jogar conversa fora' ou 'mentiras sociais' são bem difíceis para muitos de nós.


*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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