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Destaques

Uma pausa dentro da pausa

Uma pausa dentro da pausa, às vezes, é tudo o que precisamos para recarregar as energias. Estava aproveitando de forma consciente maneiras de reduzir a quantidade de estímulos e relaxar. Relaxava não só por relaxar, mas por saber que isso ajudaria mesmo nos estudos. Tirar um tempo para si mesmo e não fazer nada, em alguns casos, é tudo o que a gente precisa. E está tudo bem estranhar no começo. Pensar que deveria estar fazendo alguma coisa. Mas não fazer alguma coisa também é fazer algo e, às vezes, para ajudar com o esgotamento, era necessário.  Dias de silêncio também eram importantes. Às vezes, o corpo e a mente pedem. Às vezes, o que você mais precisa é saber separar um tempo do seu dia para se focar em relaxar e evitar uma sobrecarga mental. Ia escrevendo pensando nos dias de silêncio. Ia escrevendo para se lembrar de que era importante este tempo para si mesmo. Ia escrevendo para lembrar que estava tudo bem e a diferença que tirar um tempo para si fazia melhor do que esperava...

Resenha: A Menina Que Tinha Dons – M. R. Carey

Um cenário pós-apocalíptico em que poucos sobreviveram a uma infecção que os cientistas não descobriram completamente como funciona e uma garota que tem a mesma fome dessas criaturas que agem como zumbis, mas em determinadas condições é autoconsciente e capaz de se controlar. Assim é a trama do livro A Menina Que Tinha Dons, do autor M. R. Carey, publicado no Brasil pela Editora Rocco através do selo Fábrica231, em 2014, com tradução de Ryta Vinagre.


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Para quem gosta de histórias de zumbis, A Menina Que Tinha Dons talvez não apresente tantas novidades. Um dos diferenciais deste romance é o foco que o escritor deu para a personagem Melanie e outras crianças que foram mantidas em uma base do exército para análise dos seus comportamentos e também de suas alterações biológicas.

“Algo se abre dentro dela, como uma boca se escancarando cada vez mais e gritando o tempo todo – não de medo, mas de carência. Melanie pensa que tem uma palavra para isso agora, embora ainda não seja nada que tenha sentido na vida. É fome. Quando as crianças comem, a fome não entra no cálculo. As larvas são servidas em uma tigela, você as apanha e põe na boca. Mas, nas histórias que ela ouve, é diferente. As pessoas nas histórias querem e precisam comer, e quando comem sentem-se preenchidas de alguma coisa. Isso lhes dá uma satisfação que nada mais pode gerar” – M. R. Carey, A Menina Que Tinha Dons

Os personagens principais do livro são Melanie, a garota infectada pela doença responsável pela destruição de pessoas; o sargento Parks, um homem encarregado de cuidar de uma das bases militares e que acaba se responsabilizando pela sobrevivência diante dos perigos do mundo exterior e a professora Helen Justineau que ministra aulas para as crianças e acaba se afeiçoando por uma de suas estudantes favoritas, Melanie.

Ao mesmo tempo em que nos entretém com as descobertas dos personagens relacionadas aos organismos e de que forma eles influenciam as pessoas infectadas e o ambiente, o livro nos faz refletir sobre as questões humanas diante de um cenário de tragédia, medo do desconhecido e segurança. Assim como as outras crianças, Melanie está aprisionada e é somente ao desenrolar da trama que ela vai começar a entender porque é diferente das outras pessoas e de que forma sua existência é vista como uma ameaça para os outros.

“A sensação – a fome torturante e aguda – dura muito tempo. Mas não é tão forte quanto a que Melanie teve quando sentiu o cheiro da própria Srta. J, bem perto dela, sem spray químico nenhum. Ainda é de dar medo – uma rebelião de seu corpo contra a mente, como se ela fosse Pandora querendo abrir a caixa e, sem importar quantas vezes disseram para não fazer, ela simplesmente foi feita assim e tem de abrir, não pode se conter” – M. R. Carey, A Menina Que Tinha Dons

É somente quando o equilíbrio da base militar é quebrado e Melanie é exposta à confusão que se transformou o mundo, que ela se dá conta de que ela e os seus colegas são usados como objetos de pesquisa, em uma tentativa desesperada de entender sobre como agem os fungos no corpo humano e uma possível cura. Tudo acontece de forma tão rápida, que à medida que a protagonista digere sua utilidade e o que teria acontecido aos outros infectados, ela é levada para uma jornada de vida e morte ao enfrentar as pessoas de fora e perceber que o mundo real no contexto atual é bem diferente dos livros e informações que ela aprendeu na escola.

Entre conflitos internos no grupo, especialmente com uma cientista obcecada por analisar Melanie e o caos externo de violência e disseminação da infecção mortal, os personagens passam por dilemas morais, tentando manter viva a humanidade que não foi engolida pelo autoritarismo e pela ansiedade de não entregar os pontos em um cenário cada vez mais sem esperança.

“O choque daquele primeiro gosto de sangue e da carne quente é tão intenso que quase faz Melanie desmaiar. Nada em sua vida foi tão bom. Nem mesmo ter o cabelo acariciado pela Srta. Justineau! A onda de prazer é maior do que ela. A parte dela que consegue pensar curva-se nessa catarata, tenta resistir, e se agarra ao que pode para não ser levada” – M. R. Carey, A Menina Que Tinha Dons

M. R. Carey mostra como a dinâmica dos personagens – ou estar perto de alguém confiável quando as estruturas se colapsam  – pode fazer toda diferença. Do início ao final do livro, o leitor torce para que os personagens encontrem um modo de seguir em frente, ainda que o destino pareça ser o desmoronamento de tudo que se manteve. Os dramas humanos, as reviravoltas e as revelações da doença mostram o quanto a sociedade é frágil e assim como os personagens, nos colocamos no papel e ficamos andando em círculos, na esperança de que Melanie possa usar sua consciência para salvá-la de si mesma, dos seus iguais e de tudo aquilo que representa o seu fim.

Sobre o autor – Nascido em Liverpool, em 1949, M. R. Carey é roteirista e romancista de horror e fantasia. Escreve para as duas maiores editoras de quadrinhos norte-americanas, Marvel e DC, incluindo passagens pelas séries X-Men, Quarteto Fantástico e Batman. Para o selo Vertigo, foi responsável pelas séries Lúcifer (baseado no personagem criado por Neil Gaiman em Sandman) e Hellblazer, protagonizada pelo mago inglês John Constantine. Seus trabalhos aparecem regularmente na lista de graphic novels mais vendidas do New York Times.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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