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Destaques

Resenha: Esta e Todas as Vidas – Anne Marck

Dizem que algumas leituras são como uma viagem sem sair do lugar. No livro Esta e Todas as Vidas, a autora Anne Marck leva o leitor para um passeio místico por São Tomé das Letras, município localizado em Minas Gerais. A obra foi publicada pela editora Astral Cultural, em 2019.


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“Memórias têm um poder muito forte dentro de nós. Elas podem nos levar para o momento mais feliz de nossas vidas ou para o pior que já tivemos. E, no meu caso, os dois extremos estavam ligados à mesma pessoa” – Anne Marck, Esta e Todas as Vidas
Narrado em primeira pessoa por dois personagens principais da história, um deles Antares Letícia, uma jovem que trabalha como guia turística e em uma lojinha junto com sua melhor amiga, Flor de Lis, o romance traz uma pitada de fantasia e misticismo que combinam bastante com o cenário da narrativa.

Esse diálogo entre ficção e turismo acabam gerando uma experiência prazerosa de leitura e até mesmo se…

Resenha: O Que Terá Acontecido a Baby Jane? – Henry Farrell

Quando comecei a ler O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?), de Henry Farrell, pensei que com tantas narrativas de suspense nos dias atuais, a obra teria perdido um pouco do impacto. Eu estava errado: o livro permanece intrigante e consegue prender o leitor do início ao final. No Brasil, a edição mais recente foi publicada pela editora DarkSide Books, em 2019, com tradução de Mariana Moreira e colaboração de Alexandre Matias.


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Publicado originalmente em 1960, o romance de suspense narra a história de duas velhas irmãs ex-artistas com um passado mal resolvido. A atmosfera pesada dentro da casa de Baby Jane Hudson e sua irmã Blanche provoca uma sensação cada vez mais angustiante conforme vamos conhecendo o passado delas e de que forma elas acabaram naquela situação.

Uma mulher na cadeira de rodas e uma cuidadora. Uma relação que nas aparências deveria ser harmoniosa entre duas irmãs, se transforma em um terror psicológico diário. Por trás de cada ação de Jane, há uma intenção que Blanche nem sempre consegue perceber – ou que ela prefere entrar em modo de negação, pela difícil realidade de aceitar que ela é uma pessoa com deficiência que depende de um familiar nada confiável.

“Nada podia realmente ser capturado e mantido – nem possuído. Às vezes, você achava que tinha uma coisa, mas depois parte dela – ou tudo – sempre escapava. A vida em si não poderia ser possuída, nem mesmo um minuto dela. Via isso com uma clareza repentina... como a vida estava sempre escapando, sempre se alterando e mudando, como as luzes dançantes nas pedras falsas, se alterando, mudando e se lançando nas sombras sem você. Tudo era apenas um reflexo. As pessoas eram apenas reflexos” – Henry Farrell, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

Com uma rivalidade alimentada pela fama e pela diferença de tratamento dos pais, da indústria cultural e do público, enquanto uma das irmãs caiu no esquecimento, a outra se tornou uma estrela. Entre sentimentos de nostalgia e rancor, de admiração e raiva, o relacionamento tóxico das duas mulheres parece despertar o pior de Jane, sempre cutucando feridas do seu ego, de tudo o que poderia ter sido e nunca foi.

Embora a intenção do livro não seja necessariamente levar a essa reflexão sobre a violência invisível e não tão invisível contra pessoas com deficiência, sem dúvidas, a história de Jane e Blanche nos leva a pensar em como dentro de uma casa, ninguém sabe o que realmente acontece nem a dinâmica entre os familiares, independente das aparências. 

“Deficiente havia mais de vinte anos, odiando cada vez mais a velha desamparada e arruinada que se tornara, começava a acreditar na lenda do que fora na tela. Passou a acreditar no glamour, no entanto, na magia que diziam ter sido dela. Há muito tempo vinha conseguindo aquecer-se com essa imagem brilhante, abraçá-la bem forte para que seu brilho pudesse alcançar o frio que se espalhava por dentro” – Henry Farrell, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

Loucura ou maldade? Jane ultrapassa vários limites. Desde as primeiras descrições de Jane, sua personalidade é descrita como a de alguém difícil de se lidar. Há momentos em que o leitor tem dificuldade de distinguir o que é uma memória ou o que faz parte de algum delírio de grandeza da personagem que insiste em culpar a própria irmã por não ter tido as mesmas oportunidades. Esse jogo duplo de comparações e perspectivas é trabalhado até o final, no qual a face problemática da antagonista revela um pouco de suas percepções distorcidas que confundem ela própria e eventualmente fazem o leitor duvidar do que foi narrado.

Mesmo narrado em terceira pessoa, o leitor do romance consegue mergulhar nos devaneios das personagens. Embora os outros personagens não tenham tanto peso, são eles que ajudam a furar a bolha e servem como espelhos do mundo externo para revelar que algo não vai tão bem, seja de forma intencional ou por acaso. O próprio relacionamento disfuncional de um terceiro personagem revela a tensão familiar e como é tênue a linha entre o conflito saudável e o destrutivo, a ponto de fazer um caminho sem volta.

“Os contornos do rosto, ressaltados pelas sombras, pareciam não tão suavizados pela idade, mas sim inchados, de modo que a pele flácida ameaçava, com avidez, engolir os traços antigamente infantis embutidos em suas dobras. Mas também havia mais ali, mais do que a mera idade e algum novo pensamento obscuro. Havia febre nos olhos estreitos e vigilantes, e no rosto, uma espécie de justificativa raivosa” – Henry Farrell, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

É incrível como em 1960, Henry Farrell conseguiu dissecar as mentes das personagens e escrever uma história assombradoramente realista, que embora não tão comum por causa das singularidades, poderia muito bem ser a trágica biografia de algum artista ou reportagens de jornais. Baby Jane representa a perversidade patológica e narcisista, o tipo de pessoa capaz de qualquer coisa para brilhar mais uma vez, mesmo que ela esteja dançando sozinha – o tipo de personagem problemático que nos faz refletir sobre como as questões biológicas junto com as circunstâncias sociais erradas podem criar uma bomba-relógio.


O romance O Que Terá Acontecido a Baby Jane? segue até a página 230. Dali em diante estão disponíveis os seguintes contos de Henry Farrell: O Que Terá Acontecido a Prima Charlotte?; A Estreia de Larry Richards e Primeiro, o Ovo.

O Que Terá Acontecido a Baby Jane? foi adaptado para o cinema em 1962, dirigido por Robert Aldrich, com a participação das atrizes Bette Davis e Joan Crawford. O filme foi um sucesso de bilheteria e acabou inspirando a produção de outras obras cinematográficas e literárias com personagens mais velhas em narrativas de terror psicológico.

Sobre o autor – Henry Farrell (1920–2006) foi escritor e roteirista. Sua obra mais conhecida foi o aclamado romance de horror gótico O que terá acontecido a Baby Jane?, publicado originalmente em 1960 e adaptado dois anos depois para o cinema. Seu conto “O que terá acontecido à prima Charlotte?” também ganhou as telas de cinema, em 1964. Este é seu primeiro livro publicado no Brasil.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro, jornalista por formação e Asperger. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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