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Destaques

Série documental da Netflix explora caso em aberto de assassinato de francesa na Irlanda

Para quem gosta de histórias criminais internacionais e investigações problemáticas, o documentário Sophie: A Murder in West Cork apresenta o caso intrigante de Sophie Toscan du Plantier , uma francesa que foi assassinada em uma região da Irlanda e devido a inúmeras situações, pairam dúvidas sobre omissões e responsabilização do culpado pelo crime. A série documental está disponível na Netflix e foi lançada em 2021. Dependendo do país de onde vive o telespectador, a princípio não fica tão perceptível como as diferenças culturais dos envolvidos em um crime, dos comportamentos regionais das testemunhas, da polícia e do sistema judiciário podem influenciar na resolução de um caso, mas vai se tornando mais evidente ao longo dos episódios da série documental. De 1996, ano em que Sophie foi assassinada em West Cork, até 2021, ano em que foi lançada a série documental, muita coisa mudou, mas outras permaneceram iguais. Ao longo dos três episódios, é impossível não gerar ansiedade de que al

Resenha: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

É preciso ter estômago forte para ler o livro Holocausto Brasileiro que narra a história de um hospital psiquiátrico na região de Minas Gerais em que mais de 60 mil pessoas morreram e milhares viveram em condições degradantes. Além da reportagem escrita pela jornalista Daniela Arbex, a obra também traz várias fotografias que captam a atmosfera insalubre e das violações. Esta edição lida foi lançada em 2019 pela Editora Intrínseca, mas a obra jornalística já foi publicada pela Geração Editorial.

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O prefácio do livro foi escrito pela jornalista Eliane Brum, que consegue tocar a alma do leitor em poucas páginas lembrando do papel do jornalismo de reviver histórias, lutando contra o esquecimento. À primeira vista, o título causa muito estranhamento, especialmente para quem está familiarizado com o holocausto pela diferença de dimensão dos eventos.

Existem horrores que assombram nossas mentes e nos fazem questionar como milhões de pessoas foram testemunhas disso e nada aconteceu para impedir. Como alguém que já visitou o Museu de Auschwitz-Birkenau na Polônia, quando o livro Holocausto Brasileiro foi lançado pela primeira vez em 2013, lembro de ter sentido um profundo incômodo com o título e também de ter notado que houve uma perturbação geral daqueles que gostariam de ter deixado a história enterrada.

Jornalistas e escritores sabem do risco de banalização de palavras. “Holocausto é uma palavra assim. Em geral, soa como exagero quando aplicada a algo além do assassinato em massa dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra. Neste livro, porém, seu uso é preciso. Terrivelmente preciso. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Colônia. Tinham sido, a maioria, enfiadas nos vagões de um trem, internadas à força. Quando elas chegaram ao Colônia, suas cabeças foram raspadas, e as roupas, arrancadas. Perderam o nome, foram rebatizadas pelos funcionários, começaram e terminaram ali”, argumentou Eliane Brum.

Ainda no prefácio, a jornalista Eliane Brum também lembra que a analogia feita entre o Centro Hospital Psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais, e os horrores cometidos nos tempos de nazismo não surgiram por acaso ou ideia da jornalista Daniela Arbex, mas foi dita pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia, em 1979. Pioneiro na luta pelo fim dos manicômios, após visitar o hospital brasileiro, o médico fez a declaração: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo presenciei uma tragédia como essa”.

A importância de mais pessoas lerem livros como Holocausto Brasileiro se deve à necessidade de discutir direitos humanos, saúde mental, ética e enclausuramento. O caso chocante contado no livro revela um período sombrio da história do Brasil, a qual tentavam esconder do resto da sociedade ou pela ausência de preocupação com o que acontecia fora dos círculos sociais, milhares de pessoas morreram. Engana-se quem imaginava que todos tinha transtornos mentais. A jornalista Daniela Arbex lembrou que mais da metade dos que lá viveram era mandada até o Colônia por questões morais e dificuldade que as pessoas têm de ligar com a diversidade, em uma tentativa de higienização social.

“Os deserdados sociais chegavam a Barbacena de vários cantos do Brasil. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra Mundial, para os campos de concentração nazistas de Auschwitz. A expressão “trem de doido” surgiu ali. Criada pelo escritor Guimarães Rosa, ela foi incorporada ao vocabulário dos mineiros para definir algo positivo, mas, à época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno” – Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro

Os anos passaram, mas a mentalidade de muitos ainda não mudou. Por mais que a história seja dolorosa e trágica, ignorá-la pode atormentar e servir como base para que se repita no futuro. Holocausto Brasileiro nos faz pensar em como alguns lugares ainda são usados como uma espécie de ‘depósito humano’, onde pessoas são enviadas por inúmeros motivos e precisam seguir as regras do lugar, bem como sobre a preocupante falta de transparência, comportamentos antiéticos e violações dos direitos humanos.

Por trás dos interesses em ajudar uma parcela da população, fica difícil entender o que o hospital e os profissionais que trabalhavam lá ganhavam com isso. A jornalista narra as trajetórias de ex-funcionários e sobreviventes. As revelações são gravíssimas, especialmente porque na época, diante da falta de médicos e profissionais de saúde, qualquer pessoa poderia trabalhar no hospital e questões éticas não eram levadas em conta, proporcionando um episódio criminal de desastre e tragédia para a história do Brasil.

Daniela Arbex faz um levantamento dos horrores cometidos no Colônia, mas a impressão que fica é que podem ter acontecido muito mais coisas que não foram documentadas, foram silenciadas e milhares morreram antes da oportunidade de contarem suas histórias. As violações aos direitos humanos são tantas, que é difícil saber por onde começar: desde crianças em berços apertados para seus tamanhos, pacientes que foram abusadas sexualmente, engravidaram e tiveram filhos, profissionais que não eram da área de saúde e torturavam e/ou matavam acidentalmente os pacientes com eletrochoque, as centenas de corpos que eram vendidos para cursos de medicina do Brasil, pacientes usados como mão de obra gratuita, além do escândalo do hospital ser usado como um depósito, como já foi dito acima.

Algumas das vítimas chegaram ao hospital na infância e adolescência e conseguiram sair quando já eram idosos, mas há aqueles que não tiveram a mesma sorte e morreram lá. Vítimas de maus-tratos, alguns passaram por um processo de ressocialização por meio de uma abordagem humanizada, que ajudou a reconstruir as singularidades das pessoas que tiveram suas identidades apagadas do período em que foram internadas no hospital psiquiátrico.

Em uma época em que muitos comportamentos abusivos eram normalizados ou acobertados, milhares foram vítimas de um sistema cruel, mas que tentava se apresentar como benevolente aos olhos da sociedade. Histórias de filhos que foram afastados de suas mães e nunca descobriram suas origens, bem daqueles que quando tentaram se reencontrar, ou já estavam mais velhos ou era tarde demais.

“Milhares de mulheres e homens sujos, de cabelos desgrenhados e corpos esquálidos cercaram os jornalistas. A primeira imagem que veio à cabeça de José Franco foi a do inferno de Dante. Difícil disfarçar o choque […] Já Luiz Alfredo, protegido pela sua Leica, decidiu registrar tudo que a lente da sua câmera fosse capaz de captar […] A loucura que desfilava diante dos seus olhos não o impressionava, e sim as cenas de um Brasil que reproduzia, menos de duas décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o modelo dos campos de concentração nazistas” – Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro

Além das histórias de pessoas que passaram pelo Colônia ou eram familiares de ex-internos, uma das partes mais interessantes do livro é sobre o fotojornalista Luiz Alfredo, da extinta revista O Cruzeiro, que em 1961 fez vários registros fotográficos da situação precária e chocante do hospital psiquiátrico, como pessoas vivas cobertas por moscas. A reportagem da época de José Franco descrevia o Hospício de Barbacena como a Sucursal do Inferno

As fotografias de Luiz Alfredo revelam os horrores das condições sanitárias, da desumanidade de pacientes que eram tratados como prisioneiros e até mesmo ficavam em celas, alguns nem mesmo tinham roupas ou só vestiam trapos e o ambiente aglomerado e sem fiscalização facilitavam os episódios de violências física, psicológica e sexual.

Além dessa reportagem, que embora tenha chocado a sociedade, depois caiu em esquecimento e próprios médicos divergiram sobre institucionalização e humanização de pacientes com transtornos mentais, outro jornalista ajudou a trazer à tona novamente os horrores de Barbacena (MG), desta vez Hiram Firmino, do jornal Estado de Minas, em 1979 (18 anos após a reportagem da revista O Cruzeiro), depois disso o local se tornou tema de um documentário que também ajudou a mostrar não só para o Brasil, como para outros países a realidade assombrosa que escondia ali.

“O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertas a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final” – Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro

O livro que já teve mais de 20 edições e foi reeditado faz sucesso não só entre aqueles que se interessam por esse período assombroso da história brasileira, mas um público leitor de estudantes e profissionais de diferentes áreas de conhecimento. A obra serve tanto para levantar reflexões sobre o que motiva a manutenção de espaços institucionalizados, como as questões financeiras e licitações, assim como discute a desumanização gradativa e como embora deixe marcas e sequelas, há casos em que os pacientes conseguem reescrever suas narrativas.

Holocausto Brasileiro é um lembrete de que transformações aconteceram na sociedade serviram para que as vidas de milhares pudessem ser melhores. O sistema não é perfeito, mas o enclausuramento e ambientes sem fiscalizações e condutas apropriadas podem causar danos que atravessam gerações, mesmo quando há uma tentativa intencional de parte dos envolvidos tentar apagar esses laços e identidades. As histórias de encontros e reencontros, descobertas e redescobertas, que Daniela Arbex conta no livro-reportagem servem uma dose de afeto e esperança de memórias que vieram de um espaço insalubre, mergulhadas na escuridão e sofrimento.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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