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Destaques

Desconhecer

 “Vamos nos Desconhecer”. Você respondia não e dizia que era uma ideia ruim. Mas o tempo foi mais forte e quando menos nos demos conta, estávamos em um processo de afastamento e encerramento de ciclo. Não responder também era uma reposta. Não perguntar sobre como o outro estava. Não aceitar os limites do outro. Não entender que estava tudo bem discordar e continuar conversando. A verdade é que a permanência de ninguém está em nossas mãos. Não temos controle sobre quem vai, quem fica, mas podemos lembrar de ao menos termos tentado e as coisas não darem certas. Olhando assim, talvez até parecia que só havia uma tragédia. Mas a verdade era que aprendera com o outro, coisas úteis e também aprendera como não queria ser. Escrevia como uma forma de colocar o luto para fora. Escrevia como quem sabia desde o começo: um dia iríamos nos desconhecer, e não seria uma questão só de escolher, e sim de como a vida era. Havia me deixado mal acostumado. Sempre achando que estaria disponível. Até que...

Resenha: Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong – Hwang Bo-reum

Com o sonho de abrir uma livraria e tocar outras pessoas em um espaço acolhedor e repleto de livros, Yeongju se aventura nesta jornada. Assim é a história do livro Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong, escrito por Hwang Bo-reum, com tradução de Jae hyung Woo, publicado no Brasil pela editora Intrínseca, em 2023.

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O livro que se passa na Coreia do Sul conquistou leitores em diferentes partes do mundo e tem uma linguagem fácil de ler, sem floreios, tornando uma boa opção de leitura até mesmo para aqueles que não têm o hábito de ler. Porém, mesmo para os que gostam de literatura, há inúmeras referências nas entrelinhas sobre o mundo dos leitores, autores e livrarias.

“É preciso tentar, então em vez de ficar me questionando se eu tinha talento ou não, só comecei a escrever. Eu queria sentir isso pelo menos uma vez na vida” – Hwang Bo-reum, Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong

A ideia da livraria surge como uma forma de preencher não só o próprio vazio, mas também o de outras pessoas que possam se interessar pelo espaço e buscam alguma indicação de livro. Logo no início do livro, ela contrata um funcionário que a ajuda com as outras funções da livraria, como preparar café, Minjun, um homem que se adapta com o trabalho e a presença de sua chefe.

A interação entre os dois, às vezes, por menor que seja, dá à história um toque único, mostrando os bastidores de uma livraria. Em meio ao trabalho, Yeongju compartilha algumas de suas leituras e postagens no Instagram, relacionadas ao que está fazendo, despertando o interesse por outros livros citados pelos personagens.

“Talvez as minhas boas intenções tenham soado como dizer “Eu estou do seu lado” para alguém? Todos nós somos inadequados, fracos e comuns. Mas se somos capazes de ser gentis – mesmo que por um brevíssimo momento –, podemos ser extraordinários” – Hwang Bo-reum, Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong

Mesmo deprimida, Yeongju tenta fazer o melhor que pode para que a livraria não pare. Ela reflete, por exemplo, sobre a importância de repor determinados títulos e explica que a demanda pode subir quando o livro é citado em algum drama coreano ou por famosos e celebridades. Apesar de gostar de vender o que se interessava, ela também tentava suprir os interesses, levando em conta de que seu trabalho era uma livraria de bairro.

O livro também explora a relação que as pessoas constroem com o trabalho, seja da ótica da própria livraria, na qual Yeongju luta para que ela permaneça aberta, enquanto outras fecham, seja pela questão dos membros do clube do livro, compartilhando suas próprias alegrias e tristezas sobre suas jornadas de trabalho.

“Talvez o modelo de negócio de uma livraria de bairro seja baseado em sonhos – do passado ou não. Todas as pessoas que abrem uma livraria tomam essa decisão porque sonharam com isso um dia. Mas então, um ou dois anos depois, elas acordam desse sonho e finalizam esse capítulo de sua vida. Quanto mais livrarias abrem, mais sonhadores surgem. Mesmo sendo difícil de encontrar livrarias de bairro que permaneceram abertas por mais de dez, vinte anos, elas sempre vão existir” – Hwang Bo-reum, Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong 

Mesmo em poucas palavras, o livro nos leva a refletir sobre várias coisas, como a importância de se libertar da sensação de sufoco, mesmo que em um curto período de tempo, para ter energia para continuar fazendo o que deseja. Uma ótima leitura para quem deseja experimentar como é passar determinada parte do tempo em uma livraria e conferir os perrengues e a parte boa de estar por trás de um espaço tão importante para a sociedade.

Yeongju mostra como uma simples livraria de bairro pode se tornar um espaço para conexão entre pessoas, sonhos, desejos e o amor em comum pelos livros, independente do gênero ou temática. Uma boa leitura para quem desejava que em seu bairro tivesse um espaço assim e apreciar aquelas livrarias que resistem ao tempo, mesmo que não sejam tão lucrativas. 

Para quem não está familiarizado com obras coreanas, o livro me lembrou um pouco os dramas coreanos mais leves e reflexivos, hoje em dia disponíveis em várias plataformas de streaming, como na Netflix. Também lembrou outras obras cujas histórias se passam ao redor de livrarias, mostrando a importância da biblioterapia e das trocas humanas em relação à literatura. 

Um livro repleto de nostalgia desde as pequenas coisas como beber um café bem preparado, ler e escrever, passando pelo prazer dos livros impressos e até mesmo o papel dos blogs no incentivo à leitura.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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