Pular para o conteúdo principal

Destaques

Bem-vindo, outubro

 Outubro enfim chegou. Tem sido bom conferir como a previsão do tempo tem errado e não tem chovido. É um alívio poder voltar a tomar minha dose diária de sol. A verdade era que os dias de sol ajudavam a manter o humor estável. Desta vez, sentia-se levemente acelerado, mas com esperança de que tudo fosse voltar ao normal.  Escrevia como uma forma de ajudar a regular o humor. Escrevia para organizar os pensamentos. Escrevia para extravasar as emoções. Escrevia. Nos últimos tempos tinha pensado em como conseguira abrir mão do cigarro, mas também em como tinha dias em que sentia falta. Mas não, não ia voltar atrás.  Ia seguindo outubro, torcendo para que a previsão do tempo continuasse errando e pudesse desfrutar da dose de sol. De repente, percebia que estava cada vez mais distante de quem tinha sido há um ano. De repente, ser diferente não era algo tão ruim assim.  *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor do livro de terror  Escrita Maldita , p ubli...

Outra página em branco

Reescrever a história que havia reescrito na mente. Era isso o que precisava fazer. Deixar de lado uma visão idealizada do outro e voltar a enxergar as coisas como eram. Por mero acaso, seus caminhos tinham se encontrado de novo anos atrás e as memórias tinham voltado editadas. Seu consciente sabia que tudo seria diferente se tal coisa não tivesse acontecido, se ele não estivesse lá, mas seu subconsciente se prendia a algo que já não existia há anos, como um fantasma que o seguia para onde quer que fosse e vice-versa.

Diferente do que fizera anos atrás, quando supostamente tentara apagar suas memórias e se distanciou completamente – as quais voltaram mais fortes do que nunca –, precisava encontrar um modo saudável de lidar com o desconforto e a noção de que se não fosse por mero acidente, suas emoções não teriam voltado, nada disso teria acontecido. Sabia que era uma espécie de bug do cérebro, mas não sabia como consertar.

Por que era tão difícil entender que já não tinha importância para o outro? Por que continuava reescrevendo a história, torcendo para que o final fosse diferente? As coisas eram como eram e tudo o que precisava fazer era aceitar e continuar seguindo em frente. Quanto mais tempo preenchesse o espaço com uma presença fantasma, mais se distanciava do momento presente e também de possibilidades que estavam por vir.

Em vez de evitar a dor, desta vez estava sentindo no peito, da cabeça aos pés: tanto para se lembrar, como para poder esquecer. Não havia motivos para tentar se fazer presente na vida de quem tinha deixado bem claro sobre sua desimportância. Nem por isso as coisas não doíam menos. Mesmo sabendo que sem aquele encontro, talvez nada disso estivesse acontecendo.

Cansado de se lamentar, foi ensaiando uma nova coreografia, sem coordenação, se distanciando lentamente e abrindo espaço para a cura. A dor algum dia seria esquecida, mas o que fizera dela seria lembrado. E quando menos se dera conta, outra página em branco havia sido escrita.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

Mais lidas da semana