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Destaques

Sorte

Às vezes, ser otimista era como um golpe de sorte. Nada como a sensação de se surpreender e poder confiar que sua intuição estava certa, ainda que para os outros parecesse errado. Então, assim, a vida surpreendia e os pensamentos positivos se tornavam realidade. Dia após dia, a espera havia chegado ao fim e tudo o que poderia fazer era acreditar que em determinadas situações manter a calma era o melhor que poderia fazer. Por pouco, se entregara ao pânico e era como mergulhar em um rio de águas escuras. Mas assim que se dera conta de que estava tudo bem em apostar em si mesmo, se permitira respirar novamente. Quando a sorte daria as caras novamente, não sabia. Sabia que uma vez por ano era o suficiente para fazê-lo acreditar no lado bom da vida novamente. Até quando estaria protegido pela sorte? Não fazia ideia. Tudo o que conseguia pensar era no agora. Agora, tudo ficaria bem. Agora, poderia ficar em paz com suas escolhas. Agora. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Autor ...

Nostalgia: Entre flores de ipês amarelos e cerejeiras

Com uma lágrima no rosto, enquanto observava as flores de ipê amarelo dançando até o chão, tudo o que ele conseguia pensar era na delicadeza das flores de cerejeira, se deixando dominar por um sentimento de nostalgia agridoce: lembranças de um amor que se fora.

Amarelo e rosa. Rosa e amarelo. Assim eram os dois, bem diferentes, mas quando desabrochavam eram capazes de despertar emoções antes adormecidas no peito. Queria fotografar as flores amarelas caindo, mas nada substituía a sensação de ver ao vivo e era desse mesmo jeito que ele pensava sobre as flores de cerejeira – e sobre ela.

Não sabia se era por obra do destino ou mera coincidência, tudo o que sabia era que quando estava perto dela era como se os seus universos se fundissem e se tornavam uma só pessoa. Era uma das melhores sensações que poderia ter vivido. Tudo o que conseguia pensar era na Primavera.

Primavera era sua época favorita do ano, não importa onde estivesse. Não imaginava que bastava uma estação do ano ao lado dela, para que todas vezes se lembrasse dela. A ausência que ela fazia, quase era capaz de enlouquecê-lo.

As árvores cheias de flores eram como uma promessa de amor. Ele queria congelar o momento, queria que os ipês e as cerejeiras sempre continuassem com os seus espetáculos, caindo sem parar. 

Sabia que tentava transformar algo efêmero no impossível, queria que o momento durasse uma eternidade, mas talvez era o modo que ele enxergava as coisas, como infinitos dentro de infinitos.

Caminhava sem rumo pelas ruas. Tinha vezes em que evitava ver os ipês, pois não sabia se daria conta das emoções. Tinha vezes em que sua mente fixava a imagem da cerejeira. Tudo parecia confuso longe dela, como se sozinho fosse incapaz de tomar uma simples decisão. Havia escondido os sentimentos tão bem, que mesmo se tentasse se conectar com ela, tudo o que levaria era um balde de água fria.

Se o inferno era repetição, ele estava preso em meio ao inferno e ao paraíso ao mesmo tempo – era assim que se sentia sem ela. Os dias de sol pareciam cinzentos, os dias de chuva pareciam sem fim e os dias de ventania pareciam uma série de lamentações.

Quando se reencontrariam? Se se reencontrariam? Tinha tantas perguntas sem respostas. Era como se o universo estivesse mantendo os dois conectados e separados ao mesmo tempo. Seja quando haviam se escorado no ipê ou na cerejeira, tudo o que ele queria era aquele momento mágico de volta.

Sabia e já havia ouvido de tantas pessoas que as coisas seriam mais fáceis se ele simplesmente se desapegasse, mas não estava disposto a deixar todas aquelas memórias para trás – eram parte de quem ele era.

Parte dele se sentia impotente pela distância que separava os dois, enquanto outra parte mais sonhadora e romântica sabia que bastava pegar um voo e tudo voltaria a ser como antes.

Era alimentando uma fantasia, uma versão perfeita de quem os dois tinham sido juntos que ele ficava preso na teia de nostalgia. Será que um dia conseguiria enxergar os ipês-amarelos e cerejeiras de outra maneira? Não fazia ideia. Parte dele sabia que a memória sempre permaneceria viva, outra parte pensava que talvez estivesse na hora de deixar para trás.

Foi, então, se desprendendo como as flores que caiam, dançando em círculos e se permitindo sentir a leveza da corrente de ar que lentamente foi se puxando para o agora. As memórias agora eram só como flores que caiam e se acumulavam no chão, esvaziando o peito e deixando a mente a mais leve. Não sabia quando encontraria de novo com ipês amarelos e cerejeiras pelo caminho, mas agora nada mais importava, só o momento presente.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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