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Destaques

Seis meses sem cigarro

Seis meses sem cigarro. Há um tempo parecia algo impossível de alcançar e aqui estava ele: estaria mentindo se dissesse que ainda não tinha fissura, mas havia conseguido controlar bem mais como nunca imaginara antes. Seis meses davam uma sensação boa. Seis meses sem fumar um cigarro, mesmo passando por inúmeras situações de estresse e de ansiedade. Seis meses aprendendo a regular as emoções de forma a não descontar no vício. Os meses iam passando. Datas que antes pareciam impossíveis se tornam reais. Já imaginara quando seria quando completasse um ano sem cigarro. Ia escrevendo para comemorar e lembrar que os pequenos dias também importavam. Escrevia para lembrar que o difícil não era impossível e qualquer um poderia conseguir se livrar do cigarro, por mais difícil que parecesse no início. Escrevia para agradecer a si mesmo por ter se libertado de algo que fazia tão mal e muita gente ainda acreditava que fazia bem. Escrevia para deixar claro que não queria voltar atrás e mesmo nos dias...

Um teste de confiança

Embora sua natureza fosse calma, quando entrava em crise se tornava uma bomba. Um profissional que ajudasse a evitar que a bomba explodisse, era isso o que buscava. Como confiar no presente quando já tinham errado no passado? Talvez se reunisse em pontos em comum, ajudaria ao psicólogo conseguir identificar uma crise antes de acontecer.

Não queria o impossível. Sabia que era impossível todos profissionais se especializarem em tudo. Mas gostaria de continuar mantendo seu recorde de tempo sem crises, consciente de que era um trabalho em equipe e sozinho pela própria natureza do transtorno, não era capaz de identificar por conta própria: ter um olhar externo fazia toda diferença.

Então, ia pensando em como já tinham errado no passado com seu diagnóstico, independente da empatia. A empatia era o mínimo que buscava num processo terapêutico, mas também a consciência de que se o profissional não será capaz de lidar com a demanda, que tenha a ideia de indicar outro profissional.

Ainda que sentisse o vínculo terapêutico, algumas questões da realidade poderiam abalar a confiança. Sabia que todos precisavam começar de algum lugar, mas também sabia da complexidade do próprio caso.

Era verdade que o outro talvez não tivesse toda experiência que esperava. Mas também era verdade que estava dando conta da demanda. Talvez fugir da rigidez cognitiva era o que precisava fazer e aceitar que o outro estava dando o melhor de si. Mas como não se incomodar com a ideia de um profissional mais especializado? Como não se preocupar com o tempo de experiência em clínica?

Muitas perguntas que ainda não tinha a resposta. Talvez aceitar que era a ansiedade tomando conta de si, especialmente quando queria ter o controle de tudo. Não seria capaz de prever sempre que iria explodir, embora tivessem situações em que era possível evitar a explosão. No entanto, talvez acolher o outro, fosse como acolher a si mesmo, sabendo dos riscos e aceitando o processo. Talvez o contraste entre um olhar mais maduro e um olhar mais fresco fosse o que precisasse para encontrar certo equilíbrio no tratamento e se permitir se encontrar no meio, sem excesso de rigidez, sem excesso de viés.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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