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Destaques

Espectro Autista: Reflexão sobre conscientização do autismo

Vez ou outra eu recebo mensagens de pessoas pedindo ajuda sobre como trazer mais conscientização em lugares nos quais pouco se sabe sobre autismo. Nem toda cidade tem especialista em autismo, isso é um fato que todo mundo que já precisou de um, sabe como é. Minha dica é: compre/arrecade livros ATUALIZADOS sobre o assunto e/ou livros de ficção (com personagens autistas) e/ou livros escritos por autistas. Recomendo firmemente a literatura, já que a leitura trabalha a empatia e fica mais fácil dos neurotípicos entenderem como é estar 'na nossa pele', mesmo que por alguns minutos.


Não vai dar livro desatualizado, que é um desserviço. Já tem muita desinformação no Brasil. Eu poderia fazer uma lista sobre todos absurdos que leio, mas não vou.

Enfim, não dá para fugir da leitura. Infelizmente, muitos conteúdos brasileiros estão defasados, outros logo vão estar por causa das alterações do CID11 do Espectro Autista [só entra em vigor em 2022]. Tem muita coisa boa produzida pela comunid…

Resenha: Delírio - Lauren Oliver

Imagine como viveríamos se o amor fosse considerado uma doença fatal? Delírio, nome do livro escrito por Lauren Oliver, lançado no Brasil em 2012, pela Editora Intrínseca, conta a história de uma jovem chamada Lena e de como ela sobrevive em um mundo após terem encontrado a cura para a delíria nervosa – doença contraída pela paixão e amor.

Por trás da narrativa é possível notar a semelhança entre alguns cenários relacionados à higienização social, por exemplo, lembrando como os doentes e loucos eram excluídos da sociedade em outros tempos. Estas pessoas deveriam morar em regiões distantes, próximas aos cemitérios e pressões, sendo esta população, muitas vezes, vista como descartável, desnecessária, espécie de lixo social, que deve ser condenado e evitar o convívio social com as pessoas saudáveis.

Em Delírio, as pessoas que moram nos Estados Unidos, em regiões tomadas pelo governo devem seguir as leis e regras estabelecidas. Um manual de saneamento básico orienta os cidadãos a lidarem com a doença, considerada perigosa por alterar os pensamentos, decisões e a ordem, entre uma série de efeitos colaterais causados pela paixão e pelo amor.

Se no mundo em que vivemos as pessoas cada vez mais recorrem a pílulas e buscam soluções instantâneas para seus problemas, o livro traz uma realidade que poderia facilmente acontecer. Só de pensar no isolamento, tratamento obrigatório, repressão, manipulação, violência, entre outros temas mostrados no livro Delírio, imagens do nazismo, dos leprosos, relatadas na Bíblia e até mesmo da guerra, vêm à minha cabeça. Todavia, se formos analisar melhore, observaremos cada um dessas atitudes diluídas em nossa sociedade quando se trata, por exemplo, das diferenças sociais.

A mensagem por trás do livro é bem interessante, proporcionando ao leitor a possibilidade de pensar, imaginar e refletir diversas situações. Lauren Oliver escreveu uma obra que poderia ser adaptado para o cinema hollywoodiano por tratar do amor e relacionamento impossível. Mas, acredito que se assim acontecer, o fundo que merece mais atenção pela sua importância perderia o destaque necessário. Por retratar uma sociedade onde as pessoas são forçadas a andarem na linha, caso contrário podem ser eliminadas, o livro também me lembrou da série literária Jogos Vorazes, escrita por Suzanne Collins.

Ser tratado ou não? No sofrimento também encontramos a felicidade. Ao mostrar que o amor é perigoso e pode até mesmo matar alguém, na trama os cidadãos são incentivados a buscarem uma falsa liberdade, principalmente, em relação aos sentimentos. A cura não promete só fazer desaparecer a dor de um relacionamento amoroso que não deu certo, mas também todas as frustrações e alegrias. O vazio, a falta de escolhas próprias, a indiferença, os casamentos arranjados são algumas das consequências do tratamento da delíria.

Como muitos tabus, os moradores da cidade em que Lena mora morrem de medo de serem infectados. A jovem que perdeu a mãe para a doença teme que possa ficar vulnerável. Após sua melhor amiga Hana chama-la de covarde, Lena se aventura pela cidade, descobrindo que existem jovens com ousadia para desrespeitarem as sugestões do governo, como o toque de recolher, escutar músicas proibidas, participa de eventos clandestinos e conviver entre garotos e garotos no mesmo ambiente, sem nenhuma supervisão.

Faltando poucos dias para ser curada, Lena não vê a hora de se proteger contra a doença do amor. Assim como as outras jovens da cidade, ela passa por entrevistas e exames para ser vacinada e o próprio governo dirá com quem Lena se casará. Temendo envergonhar sua família, como sua mãe fez ao contrair a doença e não desistir dos seus sentimentos pelo marido falecido, Lena acredita que tudo ficará bem quando não precisar lidar com as doenças e a loucura até o dia em que conhece Alex.

Alex trabalha ajudando na fiscalização, quando, na verdade é um rapaz infiltrado, vindo da Selva – região onde ficam as pessoas que não foram curadas e não obedecem ao governo. O óbvio acontece, Lena e Alex se apaixonam, porém não podem ser vistos juntos e por mais que consigam se encontrarem escondidos, todas aquelas emoções se transformariam em meras lembranças distantes após a jovem receber o tratamento.

Lena descobre mais coisas do que deveria ao lado de Alex, fazendo sua visão sobre a vida mudar totalmente. De sentimentos congelados e precaução constante, a jovem aprende mais sobre o amor e liberdade, lutando com os seus próprios pensamentos confusos. Ao saber sobre as mentiras contadas pelo governo e sentir o desejo de continuar queimando de paixão, toda vez em que encontra Alex, os dois precisam encontrar uma maneira de sobreviverem naquela sociedade frígida, alienada, onde as pessoas são observadas e controladas a todo instante.

Não cheguei a delirar pela protagonista a ponto de me colocar no lugar dela, sentir suas dores e alegrias e torcer por um final feliz, como acontece quando nos identificamos com um personagem. No entanto, por abordar o amor como algo ruim, num século, como o nosso, onde as pessoas e seus sentimentos são tão descartáveis e desvalorizados, não é difícil imaginar pesquisas sendo realizadas e soluções para evitar o sofrimento. Junto com a lavagem cerebral, abolir o amor deve ser o próximo passo para alimentar nossos medos e inseguranças, nos transformando em robôs, insensíveis, gelados e programados. O caminho mais curto e mais fácil é sempre o mais procurado, mesmo quando não é a melhor opção.

Quando ouvi que o contrário do amor não era o ódio e sim o medo, a frase nunca fez tanto sentido como pude vivenciar ao ler Delírio. Mais forte do que fechar os olhos para o outro, não tentar escutar ou entender, no livro, o amor pode fazer as pessoas enlouquecerem, morrerem, ficarem doentes, sofrerem e se isolarem, literalmente. Valores perdidos, como a preocupação com o outro e a ética, são lembretes do que pode acontecer se continuarmos nos comportando como máquinas. Ainda não chegamos a este ponto, porém algum dia pode ser que estejamos tão obcecados pelo trabalho, dinheiro, entre outros aspectos materiais que os sentimentos e o amor sejam temidos. Enquanto algumas pessoas evitam o convívio e preferem obter suas doses dos livros, filmes e seriados, se as coisas continuarem neste ritmo, pode ser que algum dia nem mesmo na ficção e literatura encontraremos o mais mágico, delicioso, doloroso e enlouquecedor dos sentimentos, o amor. Talvez tudo não passe de um delírio. Talvez eu tenha contraído delíria nervosa e prefira morrer a ter que esquecer cada uma das sensações, boas ou ruins, experimentadas ao longo da minha vida.

Comentários

  1. Wowww, resenha interessantíssima! Uma das melhores que já li, hein.
    Confesso que nunca ouvi falar do livro antes, mas lendo sobre ele aqui, fiquei super curiosa, Ben!!
    Assim que tiver a oportunidade, vou começar a ler.
    "O caminho mais curto e mais fácil é sempre o mais procurado, mesmo quando não é a melhor opção." Exatamente...

    umtoquepravoce.blogspot.com

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    1. Obrigado! Fico grato pela visita, leitura e comentário. Espero que o livro te interesse.
      Abraço

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