sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Literatura Gay no Brasil ainda enfrenta preconceitos

Autor: Ben Oliveira

Desde a criação da Editora Escândalo, autores encontraram mais uma maneira de publicar suas obras, sejam narrativas de ficção ou pesquisas acadêmicas. Apesar de muitos escritores serem homossexuais, ainda existe preconceito em editoras convencionais na publicação de livros sobre o universo LGBT e novas editoras voltadas para o público gay surgem com o passar dos anos.

Livros com temática gay publicados pela Editora Escândalo. Foto: Rafael Chapani.

Quando se trata de literatura gay no Brasil, ainda é um desafio tanto para as editoras voltadas para este público, como para os autores e os consumidores. Segundo o escritor Alexandre Willer Melo, mesmo com os avanços, dentro das livrarias dificilmente existe uma seção LGBT, pois o espaço para esta literatura ainda é mínimo. “Quando há, está em algum canto escondido e a variedade de títulos é pífia, o mercado não está preparado para nos atender como consumidores, quem dirá como leitores?”, reflete Alexandre.

Editora-Chefe da Escândalo, a escritora Giselle Jacques afirma que ao fundar a editora foi possível perceber uma sede do público e dos autores pelas obras. “A quantidade de originais que recebemos, de todos os gêneros, é enorme. Essa é uma fatia tolhida pelo mercado, pouco divulgada, quase escondida. Então, acho que o surgimento de editoras ao longo dos últimos anos, e com tantas publicações de qualidade, vem mostrar que os autores têm algo a dizer e este espaço era muitíssimo necessário”, declara Giselle.

O escritor Luciano Cilindro de Souza acredita que é preciso pintar o rosto oculto LGBT e torná-lo mais visível, o que vem sendo negado sistematicamente por causa do preconceito. “Os escritores de temática homossexual encontrarão, em selos como a Escândalo, uma garantia de espaço e oportunidade para publicar seus livros sem ter que passar pelo filtro homofóbico, podendo estar mais confiantes em seu talento natural”, compartilha Luciano.

Roberto Muniz Dias, Marli Porto, Giselle Jacques e Alexandre Melo.
Foto: Rafael Chapani.

Com diversas obras com temática LGBT publicadas, Roberto Muniz Dias contou que a importância da editora está em visibilizar o trabalho de novos e talentosos escritores que não conseguiam publicar seus trabalhos por conta de uma homotextualidade, sem que sua qualidade literária fosse avaliada. “Este era, e ainda é, nosso trabalho na Editora Escândalo: promover literatura de qualidade para escritores LGBTTT. Mesmo com muitos autores homossexuais, por que ainda existe preconceito das editoras em publicar obras desta temática? Visa-se hoje o comércio, a venda. Muitas obras de temática LGBTTT passeiam pelo memorialístico ou autobiográfico. São histórias que ajudam outros LGBTTT a se reconhecerem como protagonistas e cidadãos comuns. Mas, o mercado que compra é o heterossexual e que compra histórias que lhes são afins; o que um grande suporte de marketing “sugere” comprar. Sem falar das estratégias de divulgação, de promoção que grandes editoras têm. Assim como algumas autoras e editoras lésbicas afirmam: enquanto não houver uma justa distribuição de histórias homoafetivas com o grande mercado tradicional, acho melhor visibilizarmos em prateleiras específicas para que se promova o nosso trabalho”.

Entre os desafios enfrentados pelos autores, Giselle Jacques comenta que existe um velho preconceito de que a literatura de temática LGBT é sinônimo de vulgaridade e pornografia. “Muitas editoras clássicas se assustam com o tema, que pode trazer conteúdo bastante explícito, dependendo da proposta. Não é o caso da Escândalo, que prima por uma linha de alto nível tanto cultural quanto literário. Mesmo os livros que carregam sua dose de erotismo estão longe desse cunho pornográfico e amedrontador, editorialmente falando. O desafio primordial da Escândalo – e acredito que de todas as outras editoras dessa corrente – é fazer chegar o livro ao leitor. É vencer a barreira da livraria e pôr o livro na estante. É convencer e educar a massa leitora e, principalmente, o mercado livreiro a respeito da seriedade das publicação LGBT, sejam elas ficção ou não-ficção, acadêmicas, quadrinhos etc”. Segundo Luciano Cilindro de Souza, o preconceito homofóbico impede que aconteçam mudanças benéficas necessárias.

Novo editor da Escândalo, Alexandre Willer Melo falou que uma editora gay tem dificuldade de conseguir parceria com pessoas e empresas. “Há quem creia que não deveríamos lutar por ter um espaço único, que se é literatura tem de estar junto com os demais títulos. Eu discordo, ao menos nesse momento, acho que precisamos mesmo ter um espaço nosso, com a nossa cara, com o nosso jeito”, justifica Alexandre. Também novo sócio da Escândalo, Luciano diz que os desafios da editora de temática LGBT são o de demonstrar que a literatura gay é universal, tem valor e merece ser lida para que complete o saber e o deleite humanos. “Uma editora de temática LGBT tem uma missão paralela ao proporcionar entretenimento - e sobreviver disso: ela tem um caráter humanitário ao devolver à humanidade aquilo que tabus hediondos vêm lhe subtraindo na arte literária”, acredita Luciano.

Leia também: Editora Escândalo começa 2014 com mudanças e novidades

Escritores Talentosos Revelados da Literatura LGBT

2 comentários:

  1. Gostei do seu blog. Difícil encontrar blogs de tema G com conteúdo mais sério.
    Só encontrei o seu e mais um por enquanto http://queermrfg.blogspot.com.br/
    Se tiver mais algum para me indicar eu agradeço, continuarei acompanhando o seu.

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    1. Olá, Juan! Muito obrigado pela visita e comentário.
      Fico feliz que tenha gostado do conteúdo... Espero que volte mais vezes! Não deixe de conferir as recomendações de livros gays nacionais.
      Abraços

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