quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Editora Escândalo começa 2014 com mudanças e novidades

Autor: Ben Oliveira

No final de 2013, a Editora Escândalo passou por algumas mudanças. O escritor Roberto Muniz Dias deixou o cargo de editor, porém continua como colaborador e autor, enquanto entram em cena os novos sócios e editores, os escritores Alexandre Willer Melo e Luciano Cilindro de Souza. A fundadora Giselle Jacques continua na empresa e assume o cargo de Editora-Chefe.

Na frente na foto os novos sócios e editores da Escândalo: Luciano (vermelho) e Alexandre
ao lado da editora-chefe Giselle e do ex-editor Roberto. Foto: Rafael Chapani.

Literatura Gay no Brasil sem preconceitos com autores

Quando se pensa em literatura gay no Brasil, é impossível não pensar na Editora Escândalo. Fundada em 2011 e voltada para a publicação de livros de ficção e não ficção sobre o universo gay, a editora tem como missão promover autores e suas obras sobre a temática. De agosto de 2011 até dezembro de 2013, foram publicados 20 títulos, entre romances, coletâneas de contos e pesquisas acadêmicas.

Fundadora da Editora Escândalo, Giselle Jacques. Foto: Divulgação.
Giselle Jacques contou que foi com o seu manuscrito do romance A Casa da Montanha em mãos que acabou procurando outros autores do gênero e encontrou escritores como Roberto Muniz Dias, seu primeiro sócio e co-criador da Editora Escândalo. “Foi numa troca de originais entre nós, em 2010, que aconteceu a ideia maluca de abrir uma editora focada na literatura gay. Em um ano, tudo aconteceu, os autores começaram a chegar, a mídia na internet apareceu antes mesmo do lançamento do primeiro livro. Assumimos os postos de editores quase que do dia para a noite e tratamos de dar vazão à demanda de originais que chegavam às pencas por e-mail”, comenta.

Roberto Muniz Dias tinha um original escrito à época, Adeus a Aleto. O escritor foi encontrado na internet por Giselle, que ficou impressionada com o material e quis publicá-lo. “Nesse meio tempo em que discutíamos alguns acertos, outro membro da sociedade da Editora desistiu da empreitada. E como eu estava excitado de ver meu livro publicado e estava cansado de trabalhar como escritor independente, juntei uma coisa à outra”, explica. O ex-editor contou que o nome Escândalo nasceu de uma frase do escritor baiano Paulo D’Bram, que brincou dizendo que a editora seria um escândalo, que seria uma ‘editora escândalo’. “Então, surgiu o nome forte e expressivo”, justifica.

Ex-editor da Escândalo, o escritor Roberto Muniz Dias saiu do cargo
para se dedicar à escrita. Foto: Divulgação.

Com o desafio de criar uma editora voltada para o público gay, Giselle Jacques e Roberto Muniz Dias foram os primeiros editores e falam um pouco de sua experiência. Além de ser uma forma de ver o seu trabalho publicado, como editor Roberto assumiu o desafio de publicar outros escritores, que tinham seus trabalhos guardados dentro de gavetas ou debaixo de camas. O escritor contou que sua experiência foi marcada por reuniões e lançamentos, principalmente em São Paulo, onde se sentia cheio de vida e de orgulho. “Entramos em contato com tantas pessoas talentosas e abnegadas pela arte da literatura. Foi um período de intercâmbios exitosos e de experiências enriquecedoras. Sentirei muita falta disso!”, compartilha.

Segundo Giselle Jacques, a dificuldade de conseguir publicar histórias com temática gay em editoras convencionais foi um dos motivos que impulsionou a criação da Editora Escândalo. “Nós e muitos outros autores éramos barrados já à porta das editoras, rotulados e descartados sem nem mesmo a possibilidade de apresentação dos manuscritos. Não porque eram ruins ou mal escritos, mas porque eram LGBT”, declara. Apesar de ter uma seleção rígida dos originais para publicação – seleção necessária –, a editora afirma que não há restrição de autores de forma alguma. “Não há essa reação de censura que existe nas editoras convencionais”, declara.

Editora consolida-se com novos sócios e editores

Questionado sobre o motivo que o levou a deixar o cargo de editor, Roberto Muniz Dias contou sobre sua necessidade de produzir com frequência, publicar suas obras e continuar escrevendo. Com quatro livros publicados pela Editora Escândalo e outros em produção, a função estava tomando o seu tempo de escrita. “Num certo ponto, me pareceu que minha vida imitava a de Virginia Wolf, que se casara com um editor apenas para publicar seus livros. Eu tive essa sensação. Preferi dar uma pausa nestas publicações e continuar o trabalho de editor, o qual consome muito. Além disso, sou parecerista, resenhista, tradutor e professor, então ficou um fardo muito grande para cuidar porque eu também assumi como relações públicas da Editora. Então, era muito trabalho. Resolvi dar uma parada e oportunizar que a equipe da Giselle se diversifique e novas pessoas possam participar desse processo tão gostoso que é editar. Mas, antes de tudo, sou um escritor e quero me permitir sê-lo com mais dedicação”.

Luciano Cilindro de Souza é um dos novos editores da Escândalo.
Foto: Divulgação.
Com a saída de Roberto Muniz Dias, o escritor Alexandre Willer Melo e Luciano Cilindro de Souza tornaram-se os novos sócios e editores da Escândalo. “A ideia já vinha sendo maturada há algum tempo em conversas com Giselle e Roberto. Havia um interesse comum de ter mais uma pessoa para ajudar a tocar a editora e, como nos últimos tempos os laços haviam se estreitado muito, o convite foi algo natural”, comenta Alexandre. De acordo com Alexandre, a decisão importante havia sido aceita e assim que soube sobre a saída de Roberto, oficializaram o “noivado”, já que informalmente ele já estava dentro. “As coisas transcorreram naturalmente, como resultado de minha amizade com os sócios anteriores. A oportunidade coincidiu com a preparação, e eu tive muita sorte!”, compartilha Luciano.

Alexandre Willer Melo entra para a equipe da Escândalo.
Foto: Divulgação.
Neste cenário de transformações, Giselle Jacques assumiu o cargo de Editora-Chefe da Editora Escândalo.“Agora que a editoria se dividiu em três cabeças, cada um pode efetivamente gerir uma parte bem definida do processo editorial. Eu sempre fui a parte operacional e a centralização administrativa, o que se altera um pouco com a entrada dos sócios novos, mas minhas obrigações originais se mantêm quanto à editoria. Então, o nome Editora-Chefe é só um título chique – do qual eu gosto muito, admito!”, descreve Giselle.

Novidades e expectativas

O ano novo e as mudanças da editora trazem expectativas e novidades. “As expectativas são boas, uma vez que o trabalho se une com a paixão pela literatura. Não deixam de ser desafiadoras, pois, para mim, essa é uma experiência inédita. Nunca me imaginei empresariar na arte, nem fui editor. Tampouco posso imaginar o momento em que terei de selecionar o que será publicado pela Escândalo. Deve ser a coisa mais difícil dizer não a um autor. Espero ser justo e competente o suficiente de modo que a Editora Escândalo seja um bom veículo para quem quiser ter seu sonho realizado e publicar seu livro com um selo confiável”, diz Luciano.

Para Alexandre Willer Melo, a ideia de se tornar editor deu certo medo, pois sendo autor bastaria escrever e submeter o material para edição e publicação, uma responsabilidade dele consigo mesmo e sua escrita, já como editor é preciso julgar o trabalho dos outros. “É algo muito delicado, cirúrgico. É difícil decidir o que vai ou não ser publicado, afinal, o que está nas mãos é o 'filho' de alguém, que demandou esforço e dedicação e ninguém gosta de ouvir 'não'”. Porém, já havia julgado alguns dos materiais de algumas publicações e acho que deu certo. Quando o assunto é meu material, prefiro deixar o editor de lado e passar a bola para meus dois amigos de casa, ainda que você, no final das contas, seja seu maior crítico, você sabe quando fez algo bom ou não”, acredita Alexandre.

Além dos clássicos concursos de contos promovidos pela Editora Escândalo – Homossilábicas e Loveless – haverá algumas mudanças. “A principal novidade, e isso é dito aqui em primeira mão, é que a Editora Escândalo passará a ser Grupo Editorial Escândalo, mantendo o selo principal LGBT e agregando um segundo selo que se chama Senda Literária. Na Senda, abrimos espaço para literatura em geral, mas nosso foco será principalmente ficção fantástica, pesquisa acadêmica e as linhas exotéricas”, conta Giselle Jacques. No início de 2014, a Escândalo receberá originais para ambos os selos editoriais.

Palavras-chave: Literatura Gay, Literatura LGBT, Editora Gay, Livros Gays, Romances Gays

Leia também: Literatura Gay no Brasil ainda enfrenta preconceitos

Escritores Talentosos Revelados da Literatura LGBT

4 comentários:

  1. Vida longa à Escândalo e que os novos editores tenham sucesso nessa empreitada. Parabéns a todos.

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    1. Valdeck, muito obrigado pela visita e pelo comentário!

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  2. A Escândalo acabou, infelizmente.
    Felizmente, nossos irmãos portugueses estão cada vez com mais títulos: http://www.indexebooks.com/sobre-noacutes.html

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    1. Oi, Eduardo! É bom saber que outras editoras continuam se esforçando para publicar obras com temática LGBT. É uma pena que a Editora Escândalo tenha acabado. Tive a oportunidade de conhecer bons colegas escritores publicados por eles.
      Abraços!

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