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Destaques

Sobre rabiscos e telas brancas

A tela branca pode ser um convite à explosão criativa ou uma tortura ao artista que sente seu espírito definhando diante da pesada realidade. Em tempos de crise e ódio, a arte fica esquecida e é vista como desimportante; ironicamente, é quando mais precisamos dela, de algo que nos faça sentir vivo e toque as partes atordoadas.


O som dos dedos se movendo pelo teclado era como fantasmas de uma vida distante. É incrível perceber quantas vezes nós deixamos algumas partes nossas morrerem ao longo de nossas existências; as máscaras, antes tão confortáveis, agora incomodam e não nos servem mais. Leva tempo até ficarmos satisfeitos e ajustados à nova realidade. Viver é admitir que sabemos pouco sobre nós mesmos e há sempre algo novo que pode nos transformar, seja para o bem ou para o mal.

O artista encara a tinta respingando pela tela. Para o espectador sem intimidade, nada faz sentido, a desconexão de ideias é tormentosa; para ele, o lembrete de que sua arte nunca o abandonaria. Como poderia…

Resenha: A Arte de Escutar – Carla Four

Foi no Carrefour de Campo Grande (MS) onde encontrei o livro A Arte de Escutar: Histórias que revelam a beleza de ouvir e ser ouvido, escrito pela atriz, autora e diretora teatral Carla Four e publicado em 2009 pela Agir Editora.

O livro estava sendo vendido por R$ 9,90 e quem me conhece sabe que adoro promoções, se for literária, melhor ainda. Quando a grana está curta as promoções e os sebos são uma ótima maneira de alimentar o meu vício.

A Arte de Escutar me chamou a atenção pelo título, por causa da capa onde é possível ver dois bonecos de madeira – um falando e o outro escutando – e pelo o texto da contracapa. “Escutar é mais do que ouvir. É mais do que estar parada em frente a alguém, dividindo o mesmo metro quadrado. Escuta-se por todas as células do corpo...” – diz o trecho. Fiquei intrigado. Dei algumas voltas pelo shopping, olhei outros livros, mas sabia que levaria aquele para casa.

O que a princípio pode parecer um título de um livro de autoajuda sobre como as pessoas podem melhorar seus relacionamentos através de um bom diálogo ou um livro técnico com dicas para escutar melhor os outros, na verdade traz diversas histórias de uma protagonista que aprendeu a beleza de ouvir os outros.

Narrado em primeira pessoa, o texto foi originalmente uma peça de teatro que estreou em 2008, sucesso de público e crítica, indicado aos prêmios Shell, APTR e Contigo na categoria melhor autor.

No livro, o leitor acompanha as experiências da narradora em ouvir os outros, um hábito que ela tem desde pequena. Para a protagonista-coadjuvante, como ela mesma se denomina, escutar é o que nos torna humanos, pois neste ato nos conhecemos e aprendemos sobre o outro, já quando falamos ou interrompemos a escuta, ouvimos somente aquilo que gostaríamos.

A cada história o leitor se delicia com as saias justas e descobertas da protagonista. Por exemplo, na fila do banco, quando uma senhora conversa com a protagonista e ela só escuta, enquanto as outras pessoas do banco a ignoram. A mulher fala sobre como eram as coisas na sua época, a música, os relacionamentos e sobre a filha que não aceita o seu jeito doidinho.

Já em Noite de Natal, a protagonista se lembra de quando era criança e dos segredos compartilhados por seus tios. Em todas as narrativas, a protagonista se limita a ficar em silêncio escutando, deixando que o corpo e as expressões faciais deem continuidade à conversa. Ela descobre, por exemplo, quem arranhou o carro do outro tio no natal passado, as frustração da tia e como ela odeia passar a data comemorativa com a família da menina.

Em Academia de Ginástica, o leitor acompanha a protagonista em sua luta contra o sedentarismo, mas o que mais chama a atenção é uma mulher sarada do banheiro que começa a desabafar. A protagonista descobre que ela tinha um caso, mas depois de perceber que o marido também tinha, acabou valorizando mais ele.

E neste ritmo, a protagonista vai passando ao leitor o que escutou, sem julgamentos e opiniões, assim como ela faz quando está escutando os outros. Depois de ler todas as páginas é possível reconhecer como a arte de escutar pode ajudar a conhecer boas histórias e também a contá-las.

Da mesma forma que a protagonista sabe o momento certo de falar ou não, de simplesmente ouvir sem inibir quem está contando sua vida, acredito que tanto como jornalista quanto como escritor, aprendi que não se trata somente de entrevistar e escrever, mas saber se conectar com quem está falando. Toda essa arte de ficar imóvel e se dispor a ouvir, no final pode te trazer mais conhecimento do que um diálogo, onde um fala o que quer e o outro escuta e responde o que convém.

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