segunda-feira, 26 de maio de 2014

Entrevista: Paulo Sérgio Moraes, autor do livro Condicional

Com experiência na escrita e produção de curtas e peças publicitárias e no teatro, Paulo Sérgio Moraes publicou em 2013 o seu primeiro romance, Condicional. A história tem feito tanto sucesso, que por causa do desejo dos leitores, o escritor está planejamento escrever e publicar alguns spin-offs, para abordar a vida dos outros personagens.

Tive a oportunidade de ler Condicional e resenhar para o blog. Para quem ainda não leu, o livro conta a história de Lucas, um protagonista anti-herói, egoísta e problemático que se envolve em uma série de problemas, sem se preocupar com quem está pela frente e com suas consequências. Lucas é responsável por um acontecimento que marcou a vida dele e dos amigos. E quando você acha que o protagonista vai melhorar, os conflitos crescem mais e mais, prendendo o leitor da primeira até a última página.

Sobre o autor entrevistado – Nascido em Juiz de Fora (MG), Paulo Sérgio Moraes mora em São Paulo. Formado em Cinema e TV e especializado em Marketing, com foco na área de Relacionamentos.

Leia a sinopse de Condicional: “São Paulo, 1997. Lucas comemorava com os amigos o término do curso de administração. Jota, em mais uma noite como outra qualquer, deixava a periferia tentando levantar algum dinheiro fácil. Um era refém de sua própria autoestima e gabava-se de ser capaz de não se levar pelos sentimentos, e o outro não sabia exatamente quem era. Ambos viram a noite terminar fora do planejado… Condicional retrata uma turbulenta relação que surgiu à sombra de desejo, descobertas, medo e crime. Momento em que o amor deixou de ser um sentimento e virou uma condenação. Uma história imprevisível que promete emocionar e surpreender o leitor”.

Confira abaixo a entrevista com o escritor Paulo Sérgio Moraes, autor do livro Condicional: 

Ben Oliveira: Desde quando você escreve literatura?

Paulo Sérgio Moraes: Era bem moleque! Apaixonado pelos livros do Pedro Bandeira, comprei um caderno e comecei a escrever inspirado nele. A partir daí, foram vários cadernos, até que minha tia teve dó de mim e me deu uma máquina de escrever.  Meus primeiros romances, escrevia nesta máquina e levava pro pessoal da escola. Depois que formei em cinema, estava mais focado em escrever roteiros para curtas e trabalhos publicitários. Escrevia pra alguns grupos de teatro também. Só agora pude me dedicar sério em um romance para publicar.


Ben Oliveira: Paulo, de onde surgiu inspiração para escrever Condicional?

Paulo Sérgio Moraes: Eu li algumas coisas sobre pessoas que se apaixonaram por criminosos famosos. No filme Monster (excelente, aliás), também fala sobre uma garota que se apaixona pela serial killer e é uma história real. A princípio, era pra ser uma peça sobre isso e ia mandar para um grupo de MG, mas percebi que os conflitos que eu bolei dariam um livro. A partir daí, fui amarrando fatos e trazendo elementos como a homofobia, o movimento neonazista, intolerância religiosa, a noite de São Paulo no fim dos anos 90...

Ben Oliveira: Como decidiu pelo título "Condicional"?

Paulo Sérgio Moraes: O livro fala sobre amor bandido e queria um nome que remetesse a este universo. Liberdade condicional é um direito concedido a alguns presos. Eles saem da prisão com condições impostas. Daí, pensei numa forma subjetiva: O personagem principal nunca se apaixonou e, de repente, ele resolve libertar um sentimento novo e ele acredita ter o controle da situação. Assim, surgiu o título.

 "Bem que eu tentei ! O amor é amor quando a gente o sente, e não quando ele resolve ter vida própria e ser sentimento por si só. Talvez fosse mais prudente ter imposto certas condições para me manter a uma distância segura e menos vulnerável ao que senti. É que se não era para ser incondicional, eu ia poder mesmo chamar aquilo de amor?"

Ben Oliveira: Lucas, o protagonista de Condicional é um anti-herói. Por que optou por um personagem cheio de conflitos e não um mocinho clichê?

Paulo Sérgio Moraes: Era a base do meu conflito. Pensei: “E se o fato do personagem estar apaixonado pelo bandido não fizer dele uma vítima?”. Um cara egocêntrico, individualista e que não se importa com os sentimentos de ninguém. Pensava se seria possível que uma paixão o tornaria alguém melhor. Além disso, não tenho paciência com mocinhos! Gosto de protagonistas com personalidade mais próxima do que nós somos de verdade: com virtudes e defeitos.

"Completamente bêbado, farejei todas as gavetas e móveis do apartamento. Queria encontrar a metade de um doce que guardei ainda do Réveillon. O ácido ajudaria a me refugiar em meus próprios sentidos. Precisava me sentir feliz e me restabelecer.

Ben Oliveira: É verdade que Condicional terá um spin-off? Conte mais sobre isso.

Paulo Sérgio Moraes: Sim. Atualmente, os leitores estão habituados com trilogias. É uma onda da literatura internacional. Eu não via isso pro meu livro, mas muitos me escrevem pedindo continuação e  imaginam o que aconteceu com alguns personagens. Então, vai sair algo que não será exatamente uma sequência, mas de grande impacto em Condicional. Ainda não tenho como dar muitos detalhes disso.

Ben Oliveira: Apesar de Condicional ter personagens gays, muitos de seus leitores são heterossexuais, o que nem sempre acontece quando se tratam de livros com temática gay. Como explica o sucesso do livro, independente da orientação sexual?

Paulo Sérgio Moraes: Acredito que um dos fatores tenha sido por conta das minhas relações pessoais. Eu tenho vários amigos heterossexuais e que gostam de ler, compraram o livro e divulgaram por aí. Outra questão é que eu sempre dizia que queria uma história que não estivesse focada na orientação sexual dos personagens, mas nos sentimentos. E sentimento é universal! Eu escrevi pensando em que gosta de literatura, seja a pessoa gay ou não.

Ben Oliveira: Como suas experiências em teatro e cinema ajudaram na escrita do romance?

Paulo Sérgio Moraes: O exercício de roteiros para curtas-metragens me ensinou a contar uma história com poucos diálogos ou nenhum. Tenho um curta de 3 minutos chamado Feliz Aniversário que mostra bem isso. Quanto ao teatro, é preciso ter um bom conflito para prender a atenção do público. Levei essa carga de experiência para o livro, pois não queria uma história arrastada e nem diálogos desnecessários.

"— Você fica lindo fingindo ter vendido a alma pro diabo, mas deveria dar um tempo nessa mania de afogar seus bons sentimentos no tanque."

Ben Oliveira: Por que optou pela autopublicação? Quais são as vantagens e desvantagens?

Paulo Sérgio Moraes: Estava ansioso para vê-lo publicado. Não ia conseguir esperar resposta de editoras. A vantagem da autopublicação é que ele saiu exatamente como eu queria e eu tenho liberdade para fazer qualquer ação para divulgar e vendê-lo, além do retorno financeiro ser todo meu. A desvantagem é muito relativa... Se for considerar editoras pequenas, elas não me oferecem nada que eu não possa fazer sozinho, mas as editoras grandes tem um ótimo trabalho de marketing e distribuição, ou seja, o alcance é maior. Ainda quero passar por essa experiência também.

Paulo Sérgio Moraes autografando Condicional. Foto: Divulgação.
Ben Oliveira: Recentemente, a versão digital de Condicional foi disponibilizada na Amazon. Qual é a importância do autor contemporâneo se adaptar ao meio eletrônico?

Paulo Sérgio Moraes: Alcance e baixo custo. Assim, posso vender o livro para qualquer lugar do mundo e por um preço acessível, pois não tenho gastos além da mão de obra de um editor específico para fazer a publicação. São milhões de pessoas que preferem ao ebook e a tendência virou uma realidade de mercado. O autor que se adapta, se torna inserido nesta evolução natural.

Ben Oliveira: Durante 5 dias o e-book estava grátis e ficou entre os livros digitais gratuitos mais baixados. Qual foi o feedback dos leitores?

Paulo Sérgio Moraes: Isso de estar entre os gratuitos mais baixados, em 3 categorias, durante os 5 dias me pegou de surpresa.  Quanto aos feedbacks, recebo muitos e-mails e 100% deles vem de pessoas que gostaram e me incentivam a continuar. Alguns se apegaram aos personagens coadjuvantes e cobram um final melhor elaborado para eles, mas como a história é narrada pelo protagonista, precisei pensar como ele e só contar o que era relevante do ponto de vista dele, para ser coerente. Eu pensei o final de cada personagem como uma consequência de suas escolhas e isso é possível perceber para todos os envolvidos na trama. Qual é o destino de quem se anula demais pelos outros? Qual o destino de quem se arrisca? Qual o fim de quem não pensa nas consequências do que faz? Por aí vai...

Ben Oliveira: Autores nacionais, principalmente de literatura LGBT, não têm muito espaço nas livrarias. Este ano, você participou da Feira Cultural LGBT, vendeu seus livros e teve contato direto com os leitores. Como foi a experiência? 

Paulo Sérgio Moraes: Eu não sou muito de reclamar de falta de espaço em livrarias, o meu está em algumas, mas sei que não ganho destaque por eu não ser autor conhecido. O importante é poder participar de feiras como essas. É um prazer indescritível! Ficava quietinho observando os leitores olhando os livros, pegando o meu para ler a sinopse. Aí eu percebia o perfil do leitor que se interessava pelo estilo de Condicional. Foram 12 horas de uma experiência muito boa, que não vejo a hora de repetir.

Ben Oliveira: Condicional tem muitos conflitos emocionais e diálogos marcantes. Há alguma possibilidade do romance ser adaptado para o teatro ou cinema?

Paulo Sérgio Moraes: Não sei... Tudo é possível!

Ben Oliveira: Como foi participar da coletânea de contos eróticos Ursos Perversos?

Paulo Sérgio Moraes: Um desafio pessoal. Não é meu estilo literário, mas o convite foi feito com carinho e eu queria ver como me sairia. Em relação aos outros, o meu conto não ficou tão legal, pra falar a verdade. Tive convite de outro amigo, mas não pretendo repetir.

Ben Oliveira: Qual/quais são seus próximos projetos literários?

Paulo Sérgio Moraes: Além do projeto envolvendo Condicional, também estou no processo de pesquisa e desenvolvimento de conflitos do novo romance. Vai ter muita influência dos clássicos da literatura e também vai manter a mesma personalidade presente no primeiro. Tirando isso, fiz um blog com meu parceiro para escrever contos inspirado em notícias, mas tá difícil ter tempo pra colocar coisas legais lá: www.umfatoeumconto.blogspot.com.br

Ben Oliveira: Quais são os desafios de ser escritor no Brasil?

Paulo Sérgio Moraes: O primeiro desafio do escritor pode ser ele mesmo. Tem escritor que mais reclama do que produz, mais tem idéia do que conclui um projeto e mais procura defeito nos outros do que em si. Escrever e publicar é muito simples hoje em dia. Se não tiver verba para o impresso, basta lançar em ebook. O desafio é ter qualidade, encontrar um bom revisor, agir com profissionalismo e ética e buscar soluções novas o tempo todo. Sim, as editoras grandes valorizam mais os autores conhecidos, estamos num momento em que obras estrangeiras conquistaram de vez  a juventude e a literatura também parece perder a guerra para a internet e televisão. Eu faço a minha parte! Quero ter responsabilidade com o meu trabalho e fazer algo relevante. Não importa se eu só tenho mil leitores, mas que sejam mil leitores que leram algo que valeu à pena.

Ben Oliveira: O escritor contemporâneo não pode simplesmente saber escrever, mas ter noções de marketing para promover suas obras. Como você avalia esse cenário? 

Paulo Sérgio Moraes: Precário. Parece um açougue! O intuito é vender, custe o que custar. Vale tudo... As ideias são apelativas e de muito mau gosto. Alguns escritores querem aparecer mais que o próprio livro. Perdem grandes oportunidades de dialogar com o público de uma maneira construtiva. Tudo bem que, às vezes funciona, mas tudo depende do objetivo de cada autor. Eu, por exemplo, nunca estive preocupado apenas em vender, mas saber como o leitor foi afetado pela história. O marketing não deve ser só venda, mas um aprendizado e oportunidade de desenvolvimento para não cometer os mesmos erros sempre.

Ben Oliveira: Para o autor independente, marketing é muito importante. Quais ações você tem realizado para divulgar Condicional? Tem dado resultado?

Paulo Sérgio Moraes: Eu tenho um planejamento em mente sobre o que falar e quando divulgar. Aconteceram muitos ajustes ao longo do processo. Algumas coisas saem, são adiadas ou adiantadas. Em todas as ações, o objetivo principal é agregar valor ao livro. Sim, dão resultados. A meta para este ano era o retorno do investimento. Isso veio muito antes do previsto, então, preciso repensar tudo o que havia planejado.

Ben Oliveira: Que conselhos você deixaria para quem sonha em se tornar escritor? 

Paulo Sérgio Moraes: Não pense em lucro, pense em alcance! Leia muito antes de escrever e refaça sempre que necessário. É importante ler sobre tudo, de autores contemporâneos aos clássicos. É a melhor forma de ter referências e saber qual o caminho seguir. Ter personalidade é fundamental, tanto para escrever como para se relacionar com os outros. Pensar que uma história deve ter conflito bem definido e bons personagens. Se permitir errar e aprender com isso.. A partir daí, a coisa flui.

Ben Oliveira: Quais autores são sua inspiração?

Paulo Sérgio Moraes: Caio Fernando Abreu, Nelson Rodrigues, Aluísio de Azevedo, Pedro Bandeira, Anne Rice e Clarice Lispector.

Ben Oliveira: Onde é possível encontrar Condicional?

Paulo Sérgio Moraes: Só entrar no site www.paulosergiomoraes.com.br ou buscar na Amazon! Tem um grupo de leitores no facebook também. Só procurar por Livro Condicional.

Ben, foi um prazer responder essas perguntas para o seu blog. Te desejo muito sucesso.

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