domingo, 1 de junho de 2014

Resenha: Bem-te-vi – Marli Porto

Bem-te-vi, da escritora Marli Porto, é um livro infantojuvenil publicado em 2014, pela Editora Orgástica. Com 88 páginas de história, mais recomendações de leitura relacionadas à sexualidade, a obra narra a história de Daniel, um adolescente que se descobre diferente dos outros meninos do colégio e acaba se apaixonando por Matheus.

O livro aborda um assunto polêmico, mas necessário de se comentar, a descoberta da homossexualidade no período turbulento da adolescência. A sensação que eu tive ao ler Bem-te-vi foi parecida com: “Como não existiam livros assim na minha época do colégio? Teria me poupado muitos sofrimentos e dores de cabeça.”. Imagine as inúmeras pressões internas e externas suportadas pelos adolescentes e multiplique por dez se o rapaz ou a garota começa a perceber que sente atração por pessoas do mesmo sexo.

Marli Porto faz um retrato fiel das emoções daquele período da vida. Daniel é chamado de diferente, é visto como diferente, sente-se diferente. Que gay, independente do período da vida, nunca se sentiu assim? Aliás, se eu pudesse definir minha própria existência em uma palavra seria “diferente”. Logo, o leitor homossexual adulto entra em contato com o seu passado ou de seus amigos no livro e o leitor heterossexual mergulha num lugar desconhecido, onde ele, muitas vezes, é responsável pelo bullying homofóbico.

Apesar de no Brasil não existirem muitos livros infantis que abordem a homossexualidade, Marli Porto escreve com a sensibilidade de quem sabe que a obra vem para acrescentar na vida dos jovens leitores, pais e educadores. A paixão é vista através da ótica da pureza, sensação marcante neste período da vida. Um amor sem malícias. Uma atração entre almas, de sutis contatos entre os personagens, para não aumentar a confusão nas mentes dos jovens – pelo contrário, acredito que a proposta é lançar luz e dizer: “Está tudo bem ser diferente. Você não é anormal e não precisa sofrer”.

Levando em conta que muitos adolescentes gays se suicidam por não aguentarem as pressões, acredito que Bem-Te-Vi veio em boa hora. Às vezes, tudo o que esses jovens precisam saber é que tudo vai ficar bem, independente de suas orientações sexuais. O livro aborda os estereótipos do adolescente masculino de duas formas: através da ótica do protagonista e através do personagem por quem Daniel se apaixona. Daniel não gosta de jogar futebol e sofre pressão de todos os lados, dos colegas, da família, dos professores. Além da pressão por conseguir uma namoradinha. Por outro lado, o rapaz por quem ele se apaixona se encaixa no padrão dos colegas e não sofre preconceito.

Um dos meus trechos favoritos do livro foi:

“Não importa o que somos. A verdade é que, no final, o que queremos é ser aceitos e amados. Então, que cada um possa lutar pelo direito de ser o que é”.

Enfim, não vou me prolongar no texto falando sobre a história do livro para quem não tire a surpresa do leitor. Apesar de não ser nenhum vidente, algo me diz que pessoas mais conservadoras terão receio ao ler o livro, aliás, muitas delas que deveriam na verdade receber a mensagem da obra, pois propositalmente ou não, muitos jovens sofrem de depressão pela falta de aceitação dos outros e dificuldade em se posicionarem diante do mundo. O bullying homofóbico acontece não somente através das agressões físicas, que muitas vezes levam à morte, mas das palavras que repetidas tantas vezes para a vítima, acaba internalizando informações distorcidas. É um ciclo que precisa ser entendido para poder ser quebrado.

Lindo marcador de página do livro Bem-Te-Vi.

Bem-te-vi tem um final feliz. O que é importante ao leitor, para que perceba que também pode se sentir bem, independente de ser chamado de diferente pelos outros. No entanto, nem todas as histórias terminam assim – principalmente, as do mundo real e cruel em que vivemos.

Quando se trata de bullying, a adolescência é um dos piores períodos da vida, pois o jovem agressor e a vítima são produtos do meio em que vivem. “E o que eu tenho a ver com isso?”, você me pergunta. A vítima de hoje pode ser o agressor de amanhã. Aliás, mesmo não tendo sido abordado no livro, sabe-se que a homofobia não surge só da reprodução de discursos ouvidos dentro da própria família, do território escolar e da sociedade em geral. Muitos ataques e crimes homofóbicos acontecem devido à negação da própria homossexualidade, como explica o escritor Fabrício Viana, em seu livro O Armário. Neste caso, o “machão” agride o outro porque se enxerga nele e não quer aceitar que é igual, é como lutar com o próprio reflexo.

A ilustração de capa de Bem-Te-Vi foi feita por Carmen Thiago e acredito que represente bem a essência do livro – um jovem que queria ser livre como o pássaro, voar sem medo, ser feliz. As ilustrações ao longo das páginas foram desenhadas por Hokin Bear, um atrativo a mais aos jovens leitores, que podem imaginar melhor os personagens.

Em uma sociedade em que os jovens descobrem a própria sexualidade cada vez mais cedo, Bem-te-vi pode auxiliar no processo de entendimento e aceitação de si mesmo e do próximo. O livro tem apoio da Coordenação de Política para a Diversidade Sexual, Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo e do Governo do Estado de São Paulo. Independente da orientação sexual, a leitura de Bem-te-vi deve ser incentivada para ajudar na luta contra o preconceito e desenvolvimento de tolerância à diversidade humana. Acredito que muitos professores devem ler a obra, bem como pais e jovens. A homossexualidade ainda é tratada como um tabu e tristemente como uma doença por algumas pessoas. Se o adolescente homossexual não se sente confortável dentro da própria casa, é tratada mal dentro do colégio, não tem orientação dos professores, como é que ele pode se desenvolver saudável?

Se em muitos livros os personagens gays ainda são excluídos, como se não existissem no mundo real e no ficcional, ou tratados como personagens secundários, sem muito destaque, atualmente, temos a oportunidade de desfrutar da boa literatura, em que independente do protagonista ser gay ou não, obtemos uma boa dose de entretenimento, reflexão e conhecimento. Afinal, o papel da literatura é o de transformar o leitor, colocá-lo na pele dos personagens, enfrentar os mesmos conflitos, para no final, assim como o protagonista, se obtenha experiências, novas visões sobre a vida e derrota dos nossos medos. Aliás, não obrigatoriamente todos esses fatores estão disponíveis em todos os gêneros literários, mas uma coisa é certa: da primeira até a última página do livro passamos por uma transformação.

Parabéns à escritora Marli Porto por essa contribuição ao Brasil e à Editora Orgástica (editor Fabrício Viana) por se envolver em um projeto tão bacana, que pode ajudar a melhorar e salvar várias vidas, através de mais uma forma de combater o preconceito, o bullying e a violência e a sensação de que ser gay é errado – como citado no texto acima, que pelo excesso de pressão pode levar muitos jovens a cometerem suicídio.

2 comentários:

  1. Minhas ações voltadas à literatura valorizam a identidade e autoestima e promove a cultura de tolerância e de respeito. Desse modo, Bem-te-vi, contribui para eliminar o Bullying homofóbico, tão experimentado durante a adolescência, e que afeta com agressividade, quer seja física ou emocional, causando marcas irreversíveis. Bem-te-vi levará mensagens positivas aos jovens que são alvos dessa conduta de preconceito.
    Obrigada Ben, por acreditar em mim e na minha literatura.
    (Marli Porto)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Marli! Só agora vi o seu comentário, que o blogger marcou como spam! Fico muto feliz que tenha gostado da resenha e mais feliz ainda pelo seu feedback. É importante valorizar essa literatura que promove o respeito e a tolerância, principalmente neste período conturbado, a entrada na adolescência.

      Abraços e volte sempre!

      Excluir

Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Comentários Recentes

Me acompanhe no Instagram