domingo, 17 de agosto de 2014

Filme: Uma Noite de Crime – Distopia sobre Violência Liberada e Purificação

O filme Uma Noite de Crime (The Purge) apresenta uma distopia assustadora. Imagine a situação, o ano é de 2022, nos Estados Unidos, e anualmente tem um dia da Purificação, no qual os cidadãos ficam liberados durante 12 horas para praticarem uma série de crimes e violências, sem que sofram nenhuma punição – os policiais, os bombeiros e os hospitais param de funcionar até o fim do prazo.

O thriller foi lançado em 2013, de 85 minutos, dirigido e escrito por James DeMonaco e é estrelado por Ethan Hawke, Lena Headey (a atriz que interpreta Cersei Lannister, em Game Of Thrones) e Max Burkholder.

James Sandin (Ethan Hawke) é um dos mais bem-sucedidos vendedores de sistemas de seguranças da cidade. Sua empresa lucrou bastante graças às noites de purificação. Na época em que ele vive com sua família, os Estados Unidos está vivendo um bom momento de economia, os índices de criminalidade e violência estão baixos, o que pode ser explicado por causa do dia em que a população pode descontar sua raiva e liberar o seu ódio.

A família Sandin acredita estar preparada para mais uma noite de violência consentida, afinal, James protegeu sua casa com o sistema de segurança. No entanto, um acontecimento inesperado coloca a vida deles em perigo. O feitiço vira contra o feiticeiro. James, sua esposa Mary (Lena Headey) e seus filhos vão pagar o preço e perceber que não estão imunes à tática criada pelo governo para manter os cidadãos sob controle durante o resto do ano.

O que é tão perturbador em Uma Noite de Crime é o realismo de sua trama. Estamos acostumados a assistir cenas de violência com criaturas da fantasia, como vampiros, lobisomens, espíritos e zumbis, porém a ideia de ver ser humano lutando contra ser humano, de forma tão cruel, não é das mais agradáveis. Quando assistiamos a um filme sobre serial-killers ou psicopatas, temos a noção de que algumas qualidades humanas estão ausentes nestas pessoas, como o remorso e a falta de controle dos impulsos, ou seja, são assassinos que matam conscientemente de seus atos, mesmo sabendo as consequências.

Uma Noite de Crime me deixou agoniado pelo fato de que essas pessoas não eram psicopatas, poderia ser eu ou você, levando a algumas reflexões sobre a agressividade. O que diferencia os humanos de outros animais é justamente esta habilidade de pensar, pesar os prós e contras e se colocar no lugar do outro (empatia). Se eu pudesse definir as pessoas em uma palavra seria “repressão”. Aprendemos a engolir sapos, reprimir nossos impulsos violentos, sexuais e a controlar nossas explosões de emoções para vivermos em sociedade, porém o que aconteceria na situação do filme, se em 12 horas tudo fosse liberado?


Não é preciso ser nenhum especialista em psicologia ou sociologia para saber que bastam poucas horas de criminalidade e violência incentivadas para que o estrago seja permanente. Do sociólogo Herbert Marcuse e do pai da psicanálise Sigmund Freud, por exemplo, é possível aprender mais sobre como a sociedade só sobrevive graças ao controle desses instintos, que nos tornam menos animais e mais humanos. As mesmas leis, regras, morais e éticas que, às vezes, nos incomodam pelas suas restrições, são essenciais para a convivência em sociedade – sem a existência das punições e da ordem, viveríamos em meio ao caos.

Transformações, emoções. Boas histórias fazem o espectador se envolver e ao terminar de assistir ao filme ter seus pensamentos transformados e sua alma purificada. A ironia do filme Uma Noite de Crime se dá quando os personagens limpam suas almas cometendo violências e mortes a sangue frio, enquanto o espectador fica agoniado e chocado. A limpeza de um é a sujeira do outro.


Ainda sobre o roteiro do filme, pretendo não estragar a surpresa de quem for assisti-lo, por isto pretendo dar o mínimo de informações possíveis que possam revelar os conflitos. Porém, não poderia deixar de comentar sobre a prepotência da elite de sempre achar que pode se manter imune aos problemas da massa. Enquanto as pessoas da classe alta supostamente têm melhores condições de se protegerem e a Purificação acaba se tornando um meio de acalmar os ânimos dos mais pobres (e violentos), a reviravolta do filme faz o espectador perceber que nem mesmo quem penhsa estar salvo, por ter mais dinheiro ou educação, está isento de sua responsabilidade neste sistema doentio criado para beneficiar uns e exterminar outros.

O protagonista do filme, por exemplo, que tanto lucrou por causa da purgação, se vê encarando os seus conflitos externos e internos, o dilema ético de deixar outra pessoa morrer ou sacrificar a sua própria família, por causa da ingenuidade do seu filho mais novo. A esposa que não concorda com o evento violento, mas nada diz por ser o ganha-pão da família, até se ver confrontada com o sangue em suas mãos.


Os conflitos principais e secundários de Uma Noite de Crime são surpreendentes, e ambos proporcionam momentos de muita emoção e sufoco aos personagens e espectadores, além da reflexão. Quem presta atenção nos detalhes do roteiro poderá desvendá-lo desde o início, todavia as cenas de violência ainda impressionam pela frieza.

Sem revelar muito do roteiro, digamos que é um desses filmes em que os personagens acabam mudando, seja para o bem ou para o mal. O ciclo da violência, mesmo que em poucas horas, acaba em fatalidade. Muitas mortes! Para quem espera alívio, ele só vem nos últimos minutos do filme, com uma incrível resolução que permite novas reflexões – as quais não irei fazer, para não acabar com a graça do roteiro. Digamos, que o roteirista consegue juntar bem as pontas soltas e dar um tapa na cara da hipocrisia, da elite que se julga melhor do que a massa e no fim, acaba se mostrando tão frágil quanto ela.


A mesma sede por violência, exibicionismo e liberdade experimentada em outras distopias, como no filme Jogos Vorazes, no qual os personagens participam de um torneio para lutarem por suas vidas, é experimentado em Uma Noite de Crime, com o diferencial de que a história é muito mais realista e sanguinária. O filme também me lembrou o livro Laranja Mecânica, do escritor Anthony Burgess, no qual o protagonista é todo violento e passa por uma lavagem cerebral para se tornar aceitável perante à sociedade, fazendo o leitor refletir o que é pior, um ser humano que não consegue controlar os seus instintos violentos ou quando o homem perde o seu poder de escolher ser bondoso ou não e "deixa de ser um homem".

Confira o trailer do filme Uma Noite de Crime: 


Para quem ficou curioso pela continuação, a sequência do filme, Uma Noite de Crime: Anarquia (The Purge: Anarchy) será lançado em setembro de 2014, no Brasil. No segundo filme, dirigido e escrito também por James DeMonaco, será contada a história de um casal que tenta sobreviver nas ruas, depois que o seu carro quebra, durante a época da purificação.

Enquanto no primeiro filme, a história se foca na casa da família Sandin, na qual eles tentam sobreviver aos ataques de um grupo descontrolado de pessoas desesperadas para matarem uma pessoa, em Uma Noite do Crime 2 a violência parece tomar proporções maiores e envolver mais vítimas do espetáculo de crimes e mortes que ganham as ruas.

2 comentários:

  1. CARA, que show. RESENHA TOP PRA CARAMBA.. CITOU ATÉ FREUD

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    Respostas
    1. Oi, Gabriel! Fico muito feliz que tenha gostado do texto...
      Grato pela visita e comentário :-)
      Quase não ando com tempo para escrever novas análises... Logo divulgo mais resenhas e críticas de filmes por aqui.
      Abraços

      Excluir

Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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