quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Resenha: Despertar: Uma vida de Buda – Jack Kerouac

O livro Despertar: Uma vida de Buda, do escritor Jack Kerouac, de 176 páginas, foi publicado no Brasil pela L&PM Pocket, em 2010, com tradução de Lúcia Brito e introdução de Robert A. F. Thurman. A obra traz uma série de textos das escrituras sagradas do canône budista, embora Kerouac não mencione diretamente de onde elas foram retiradas, ele cita de forma geral na nota do autor quais foram essas fontes.

Com a proposta de orientar os leitores ocidentais sobre os conhecimentos budistas, Jack Kerouac reuniu esta colcha de retalhos de textos sagrados e conta a história de Gautama Buda, desde que abandonou sua vida de luxo, sua mulher e filho, pois ele era um príncipe, devido ao choque e reconhecimento de que as pessoas envelhecem, ficam doentes e morrem, até sua iluminação, disseminação do conhecimento para vários seguidores e sua morte.

O Professor de estudos Budistas Indo-Tibetanos, Robert A. F. Thurman faz uma bela introdução, comentando um pouco sobre a relação entre Jack Kerouac e a sua tentativa de divulgar mais os ensinamentos do Iluminado (Buda). O livro não foi escrito só para divulgar o budismo, mas também servia como um caderno de estudos para o próprio Kerouac. É interessante ressaltar que independente do escritor tentar seguir os preceitos da prática Zen, como a questão do equilíbrio, ele teve um estilo de vida radical e morreu aos 47 anos de idade devido a uma hemorragia, consequência de uma cirrose e seus problemas com o álcool.

Ainda que Kerouac não possa ter obtido um estado de buda perfeito, Thurman ressalta que dentro da literatura psicológica dos budistas existem diversos estágios de iluminação, e uma pessoa poderia estar iluminada e continuar vítima de seus defeitos humanos. “De fato, uma pessoa torna-se um bodisatva, ou herói da iluminação, ao fazer com sinceridade o voto de se tornar perfeitamente iluminada em alguma vida futura, próxima ou distante, a fim de desenvolver o conhecimento e a capacidade para libertar do sofrimento todos os seres sensíveis. Ou seja: nem todos os bodisatva são entidades celestiais ou divinas. Muitas são humanos, demasiado humanos”, afirma Robert Thurman.

Para quem esperava algum comentário do escritor Jack Kerouac sobre a própria vida e seu contato com o budismo, a decepção é certa. Se você já leu livros budistas, dificilmente vai se interessar pela ‘reescrita’ do autor. Kerouac chega a chamar de Buda, o “Jesus Cristo da Índia e de quase toda a Ásia”, devido aos seus ensinamentos, embora as diferenças entre a literatura budista e a bíblia são enormes. Como acontece com muitas pessoas que se encantam por determinados conhecimentos, a obra surgiu desta necessidade de passar adiante, de compartilhar o que se aprendeu e desejar que outros possam enxergar estas verdades.

Leia também: Resenha: O Zen e a Arte da Escrita – Ray Bradbury

O que um escritor pode aprender com o budismo? Muitas coisas. A escrita zen, aliás, é fascinante. O alívio proporcionado pela meditação e pela necessidade de se equilibrar pode ajudar ao profissional contador de histórias a manter a própria mente e corpo saudáveis. Afinal, a rotina do escritor pode ser desgastante, e assim como Buda se afastava para obter a própria iluminação, lutar com os próprios demônios e desfrutar da solidão, escrever romances exige esta conexão consigo mesmo.


Despertar: Uma vida de Buda foi escrito em 1955 e somente em 2008 foi publicado. A ideia de abrir mão dos bens materiais e de se aprofundar na espiritualidade são indicativos da importância do budismo na vida de Kerouac. Assim como Buda recomenda cortar os laços para evitar o sofrimento, creio que em determinado momento da vida, o escritor (e grande parte dos artistas) sabe que ou ele faz o próprio trabalho e aprende a ser feliz por fazer aquilo que se ama, independente da desaprovação de seus familiares e amigos que podem não entendê-lo, ou seu caminho será marcado pelas frustrações, pelo medo de desagradar a todos e, muitas vezes, abrir mão de si mesmo e se condenar à mediocridade.

"Guardem seu coração com cuidado – não deem espaço para a apatia! Pratiquem cada boa ação com sinceridade. O homem nascido no mundo é pressionado por todas as dores de uma longa trajetória, incessantemente agitado – sem um momento de descanso, como qualquer lamparina soprada pelo vento!" – Buda.

Assim como Kerouac, encontro bastante conforto nos ensinamentos budistas. Há momentos em que, além de encontrar um ponto de equilíbrio é fundamental para continuar mantendo a produtividade da escrita, é preciso se sentir bem consigo mesmo. A jornada do escritor é marcada por sofrimentos (muitos deles são silenciados diariamente) e talvez nestas situações ajuda a lembrar que tudo é efêmero e que essa tristeza logo vai passar, assim como pode lembrar-nos da importância de ser humilde e aceitar que tudo é ilusório, pois viver é sofrer.

Jack Kerouac, escritor

Sobre o autor – Jack Kerouac (1922-1969) nasceu em Lowell, Massachusetts, em uma família franco-canadense. É o mais significativo expoente da geração beat. Seus principais romances são On The Road (Pé na Estrada), Visões de Cody, Os vagabundos iluminados e Os subterrâneos, todos publicados pela L&PM Editores.

Ficou interessado? Assista ao Documentário sobre o Budismo e a história de Buda!

2 comentários:

  1. Adoro as suas resenhas, sempre tão bem escritas! Escrever sobre o budismo não é tarefa fácil, é preciso - eu acho - viver o estado "iluminado" para poder dizer alguma coisa "certa". Eu li em um livro de física quântica que Buda costumava dizer que os ensinamentos são um dedo apontado para a Lua, mas não a Lua em si e que não devemos acreditar em nada sem que a experiência ratifique. Penso assim, por isso acho complicado escrever sobre budismo. Amei essa parte:" Assim como Buda recomenda cortar os laços para evitar o sofrimento, creio que em determinado momento da vida, o escritor (e grande parte dos artistas) sabe que ou ele faz o próprio trabalho e aprende a ser feliz por fazer aquilo que se ama, independente da desaprovação de seus familiares e amigos que podem não entendê-lo, ou seu caminho será marcado pelas frustrações, pelo medo de desagradar a todos e, muitas vezes, abrir mão de si mesmo e se condenar à mediocridade." É exatamente a crise que estou passando agora, meio que me sinto pressionada a escolher um caminho. Beijos

    http://www.gotinhasdeesperanca.com

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    Respostas
    1. Olá, Michele!
      Creio que este dilema sobre o que fazer: agradar a si mesmo ou à sociedade é levado para a vida toda. Minha próxima leitura, por coincidência aborda a história de um escritor que abriu mão do seu sonho por ter um emprego estável, até que ele é demitido.
      Fico muito feliz que tenha gostado deste trecho da resenha. É claro, nunca vou poder responder pelo Kerouac, mas é esta a sensação que eu tenho ao buscar um pouco de iluminação – uma forma de me sentir bem com minhas escolhas, mesmo que para os outros pareça egoísta. A jornada do escritor é solitária, pois quando você publica um texto num livro, vai ter muitas curtidas e elogios, mas poucos são aqueles que realmente se interessam, sabem todos os desafios que você teve. Então, às vezes, é preciso se fechar um pouco, e como o próprio Buda disse: "Fazer da solidão o seu paraíso".
      Espero que essa sua crise possa ser resolvida logo e te ajude a crescer. O tempo inteiro lidamos com escolhas difíceis e creio que só temos a aprender. É uma luta diária, afinal, viver é sofrer!
      Beijos!

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