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Destaques

Dias de silêncio

Nos dias de silêncio estava dividido entre a fadiga e a ansiedade. Amava escrever, mas sentia como se não tivesse energia suficiente. Não poderia negar: gostava da sensação de estudar. Porém, os conteúdos difíceis eram como pedras: sabia que para algumas coisas precisava de um tempo a mais.  Entre aulas mais calmas, intermediárias e complexas, tentava fazer o melhor possível para aprender, sem se comparar com os outros, sabendo que cada um era único e todos tinham suas facilidades e dificuldades. A verdade era que mesmo coisas que gostávamos poderiam nos deixar cansados e tínhamos que tomar cuidado para não entrar em estado de esgotamento. Estava fazendo o possível para deixar a rotina equilibrada, de forma que não tivesse mais sobrecarga mental. O excesso de estudo poderia ser pior do que não estudar. Escrevia para registrar como os dias estavam sendo. Escrevia para matar a saudade de escrever. Escrevia para estudar. Escrevia. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Auto...

Resenha: Selvagens – Don Winslow

Minha terceira leitura de fevereiro foi o livro Selvagens, do autor Don Winslow, de 288 páginas, publicado no Brasil, em 2012, pela Editora Intrínseca, com tradução de Alexandre Martins.


O título original do livro é Savages e a capa da edição brasileira é a mesma do cartaz brasileiro de sua adaptação cinematográfica, Selvagens, dirigido por Oliver Stone e lançada em 2012. Já havia assistido ao trailer do filme e tinha visto na livraria, mas não fiquei tentado a comprar. Um amigo comprou o livro durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, porque estava na promoção, e como ele acabou comprando mais pelo preço do que pela história em si, acabou não gostando e me deu – quase não gosto de ganhar livros, né? Sem mais enrolações, vamos ao que interessa!

Uma das vantagens de não se criar tanta expectativa sobre um livro é que ele pode acabar te surpreendendo e assim foi com Selvagens. O romance é um thriller sobre o tráfico de drogas. Os personagens principais são Ben, Chon e Ophelia, jovens amigos que moram na Califórnia e ficaram ricos por causa de uma variedade da maconha que eles desenvolveram e venderam, a ponto de despertar o interesse do Cartel de Baja, do México.

“Chon não fala muito. As pessoas que não o conhecem acham que é por falta de vocabulário. Mas a verdade é o oposto: Chon não usa muitas palavras por gostar demais delas. Ele as valoriza, então tende a guardá-las para si”.

A história é narrada em terceira pessoa, através de uma linguagem bem ágil e cinematográfica, como se cada uma das subdivisões da narrativa cortassem para uma cena diferente e, às vezes, literalmente, quando Don Winslow usa a linguagem de roteiro. As características contemporâneas de Selvagens são seus grandes diferenciais. O autor consegue dosar bem a questão dos jogos com as palavras e as inúmeras referências da cultura pop.

Ben é inteligente e apesar de ter ganhado milhões de dólares com a venda de drogas, ele tenta compensar viajando para outros países e investindo em maneiras de ajudar os moradores destas regiões inóspitas a melhorarem suas vidas. Chon é um ex-mercenário treinado pelos fuzileiros navais que conhece os horrores do mundo. Além do utópico Ben e do niilista Chon, existe Ophelia, também conhecida como O., que vive um triângulo junto com os rapazes. A personagem é impulsiva e, por vezes, caricata, por causa de seus conflitos internos e como ela se posiciona diante da vida.

“Ben é madeira quente, Chon é metal frio Ben é carinhoso, Chon, indiferente Ben faz amor, Chon faz sexo Ela ama os dois. O que fazer, o que fazer?”.

Então, cansado de continuar neste negócio, Ben quer mudar de vida. Ele e Chon são convocados pelo Cartel de Baja, um dos mais perigosos do México, e diante da recusa dos dois, Ophelia é sequestrada. Esse desenrolar das coisas e as reviravoltas são envolventes. O leitor não só acompanha o que acontece aos “mocinhos”, mas também com os seus antagonistas.

Don Winslow escreveu um romance com uma dose acidez e realismo. Nas primeiras páginas do livro, não pude deixar de pensar em Clube da Luta, do escritor Chuck Palahniuk, talvez por causa do personagem Chon, de alguns discursos e suas contradições. O termo “Selvagens”, por exemplo, na narrativa, para os mexicanos é a maneira que eles descrevem os norte-americanos e vice-versa. A ideia de que algum dos dois lados seja menos violento, ou melhor, mais civilizado do que outro, por questões regionalistas, é só uma das críticas presentes na narrativa.

Ainda sobre a questão da linguagem. Alguns termos perdem sua potência na tradução, mas o tradutor fez um ótimo trabalho de manter a intencionalidade do autor. Esqueça aqueles romances comerciais, cujos capítulos parecem ter a mesma média de caracteres. Don Winslow faz uma série de quebras ao longo da narrativa, consegue ser bem conciso quando quer e adora brincar com o ritmo das palavras, que fica bem evidente, por exemplo, quando ele descreve as cenas de sexo.  Os personagens também têm suas próprias maneiras de criarem palavras.

“Doce, doce Bem, tão lento e gentil tão forte e gentil, tão quente quente quente quente, cacete, seus olhos castanhos olhando nos dela questionando, perguntando se esse prazer pode ser real perguntando se esse prazer realmente pode ser encontrado, e seu sorriso uma resposta, o sim porque seu sorriso dá a ela um pequeno gozo, a primeira pequena onda”.

Os conflitos acontecem tão rápidos, que fica difícil resistir a continuar lendo. Como algumas partes são mais curtas do que outras, quando você vai ver, já está envolvido com outra cena. É prazeroso ver as diferentes encrencas que Ben e Chon se metem para tentar salvar Ophelia, ainda que o cativeiro dela não pareça tão ruim assim e um tanto ‘pós-moderno’. Não dá para fechar o livro até saber como a história termina!

Outras relações de narrativas que fiz enquanto lia Selvagens: o filme Spring Breakers (2012), da diretora Harmony Korine, o livro nacional Voláteis (2005), do escritor Paulo Scott, publicado pela Editora Objetiva e a extinta série Weeds que contava a história de uma dona de casa que vendia maconha e se envolveu com o tráfico de drogas, até mesmo com o cartel mexicano.


Sobre o autor – Don Winslow é ex-detetive  particular, consultor e autor aclamado de outros doze romances, entre eles The Dawn Patrol, The Winter of Frankie Machine, The Power of the Dog, California Fire and Life e The Death and Life of Bobby Z. Winslow mora no sul da Califórnia.

O livro Selvagens pode ser comprado no site da Livraria Saraiva e da Livraria Cultura.

É isso... E você, já leu Selvagens? Assistiu ao filme? Curioso par ler? Não deixe de interagir!

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