sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Resenha: A Linha Tênue – Rubem Cabral

A Linha Tênue é um desses livros de contos para quem gosta de se deliciar com histórias curtas (e poderosas), que conseguem prendê-lo e encantá-lo desde o seu início ao final, o deixando com uma sensação de quero mais. A obra do escritor Rubem Cabral, de 264 páginas, foi republicada pela Caligo Editora, em 2014, com algumas alterações e novas narrativas.

Capa do livro A Linha Tênue, do escritor Rubem CabralCom uma belíssima capa feita pelo Pedro Viana e ilustrações antecedendo alguns contos, A Linha Tênue também encanta pelo zelo com sua qualidade gráfica editorial – tornando tão gostosa a leitura e o virar de páginas.

Leia: Entrevista com o escritor Rubem Cabral

Vamos ao que interessa... A Linha Tênue traz 29 contos do Rubem Cabral, sendo um deles escrito em coautoria com Wilson Lourenço. Logo no início, percebe-se a paixão do autor pela literatura e escrita, característica que me fez ficar interessado por cada uma das histórias. Apesar da quantidade de narrativas, nota-se que todas elas possuem qualidades literárias e não foram acrescentar ao livro simplesmente para fazer volume.

Como o próprio título do livro dá a entender, em cada uma das histórias vemos personagens que ultrapassam linhas – Ficção e realidade; Sonhos e lembranças; Fantasia e Ficção Científica; História e metalinguagem. Para leitores, como eu, apaixonados pela arte da ficção e escrita literária, A Linha Tênue proporciona mais do que entretenimento, mas uma aula sobre o gênero, seus estilos e temáticas que se interpenetram.

Criaturas da fantasia, do imaginário e do terror dividem as páginas com invenções presentes na ficção científica e elementos das narrativas policiais, isto quando não estão misturadas na mesma história. O narrador escritor e seus personagens mostram como a história sobre a própria escrita pode ser fascinante e libertadora, fugindo do óbvio, do engessamento das narrativas e das “fórmulas prontas” de como um conto tem que ser escrito ou não.

“No dia em que a conheci, pouco mais que uma adolescente, fiquei fascinado por sua beleza exótica e presença arrogante e, fingindo testar o tradutor, perguntei seu nome. A resposta resultou intraduzível; o som, humanamente impossível de se repetir. Inspirado na mitologia hindu, chamei-a de Nataraja, a dança de criação e destruição do universo feita pelo deus Shiva; a mudança necessária ou inevitável, a força que não se pode resistir” – trecho do conto A Dança de Shiva 

Rubem Cabral comprova que uma boa bagagem literária e conhecimentos sobre a linguagem e técnicas não minam a criatividade ou influenciam negativamente o processo de criação literária – mito propagado por escritores inseguros que morrem de medo de serem ‘infectados’ por outros autores; Pelo contrário, além dos conflitos e transformações vivenciadas por seus personagens, a inteligência e intertextualidade das histórias tornam seus contos, até os mais curtos, tão excitantes. O desafio é tentar não ler todos os contos de uma vez e degustá-los, pois nas entrelinhas, referências e metalinguagem estão os elementos que o distinguem das narrativas superficiais, mal construídas e que nada ou pouco acrescentam aos leitores, independente da quantidade de páginas.

O primeiro conto intitulado “O Reencontro”, por exemplo, já traz uma narrativa diferente da que estamos habituados, cujo foco narrativo é a 2ª pessoa – o personagem conversa com o leitor (e também com o autor) e o faz viajar pelas suas descrições de suas memórias da infância até sua velhice. Já o “Mil-folhas” traz narrativas dentro de outras narrativas, as quais são percebidas pelo leitor pelas diferentes fontes e maneiras de escrever de cada um dos personagens-narradores.

Ilustração em A Linha Tênue.

"- Poderia um quebra-cabeça, formado por uma peça de cada quebra-cabeça distinto do mundo, resultar numa figura coerente? Que imagem seria esta? O verdadeiro nome de Deus?..." - trecho do conto Esperando O Que Vem Depois

Imagine um conto narrado por um cão. Assim é “O Demônio do Subúrbio”, no qual um cachorro conta uma história de fantasma ao leitor. Em “O Bom Provedor” um personagem com problemas no carro é socorrido e levado até uma comunidade religiosa, confrontado com os mistérios que preferia nunca ter conhecido.

São tantos contos que me envolveram que seria penoso comentar cada um deles. Entre os que eu mais gostei estão: “Mentiras, Mentiras!”, uma versão alternativa do conto de fadas sobre a Chapeuzinho Vermelho; “Nanovidas”, um conto de ficção científica sobre a influência da tecnologia na saúde e manipulação do ser humano; “Palimpsesto”, conto policial com um toque de metalinguagem, com um toque de Edgar Allan Poe e Agatha Christie; “Além da Fábrica” e “O Dia da Inclusão”, distopias sobre as manipulações, sendo uma sobre a sociedade tecnicista e a outra apresentando uma sociedade sem homens, formada somente por mulheres e outras criaturas.

Dois dos contos do livro eu já havia lido na ! (Exclamação) – Antologia de Contos Fantásticos, também publicada pela Caligo Editora. Reli as duas histórias com prazer: “A morte e a re-morte de Natasha Moskovskaya” e “Vésperas de Natal em Páscoa”.

"Saudade já é uma palavra gasta no meu vocabulário: puída, lixada, como seixos do leito de um rio. Deveria ser 'audad', se palavras se gastassem de verdade. Quisera poder amar menos, que o tempo houvesse corroído um pouco disto que parece não caber no meu peito" – trecho do conto Mil-folhas

Enfim, recomendo a leitura de A Linha Tênue para quem gosta de histórias que saem da zona de conforto, tanto do escritor quanto do leitor, narrativas escritas por alguém que não tem medo de experimentar, porém sabe conduzir quem está lendo e fazê-lo viajar pelos universos criados, sem que os contos pareçam inverossímeis ou incomodem pela obviedade. Rubem Cabral prende o leitor com o suspense, levando-o para uma zona de cruzamento de mundos e estilos, além de suas expectativas. Esqueça os clichês e se surpreenda com o livro!

Escritor Rubem Cabral
Rubem Cabral. Foto: Divulgação.
Sobre o autor – Rubem Cabral é engenheiro de software, nascido na cidade do Rio de Janeiro e radicado em Zurique, Suíça.

Ele é apaixonado por literatura fantástica e foi publicado em algumas antologias, tais como a bem conhecida “FC do B”, uma coletânea de ficção científica anual da Tarja Editorial. O autor foi selecionado em primeiro lugar na categoria conto no concurso Raízes, em Genebra no ano de 2010. Publicado nas antologias Erótica Fantástica (Draco Editora), Caminhos do Fantástico (Editora Terracota). Recentemente publicou uma coletânea de seus contos: “A Linha Tênue”, através da editora Livronovo. É o organizador da Antologia “!” de Contos Fantásticos, participando com o texto “Intrometida Introdução Introdutória” e com os contos “A morte e a re-morte de Natasha Moskovskaya” e “Véspera de Natal em Páscoa”.

Rubem muitas vezes testa os limites do texto escrito com metaficções, embora também escreva textos mais mundanos em muitos outros estilos. Para conhecer mais sobre seu trabalho, visite o blog do autor: Contos Agridoces.

O livro A Linha Tênue pode ser encontrado na loja virtual da Caligo Editora. A obra também está presente no Facebook e Skoob.

Assista ao Book trailer de A Linha Tênue: 

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