quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Entrevista: Rubem Cabral fala sobre a distopia que está escrevendo e deixa dicas para escritores iniciantes

Nascido no Rio de Janeiro, radicado em Zurique, Suíça, mesmo morando há anos fora do Brasil, o engenheiro de software e escritor Rubem Cabral cria narrativas fantásticas, muitas delas, que se passam no seu país de origem.
"Curiosamente, sou um escritor que vive fora do país, mas que quase sempre escreve textos ambientados no Brasil". Foto: Escritor Rubem Cabral / Acervo Pessoal.
Autor dos livros A Linha Tênue e organizador da ! – Antologia de Contos Fantásticos, ambos publicados pela Caligo Editora, Rubem Cabral também já teve contos publicados nas antologias Erótica Fantástica (Draco Editora) e Caminhos do Fantástico (Editora Terracota). 1º lugar na categoria conto, no concurso Raízes, em Genebra, em 2010.

Depois de ficar encantado pela maneira que o escritor consegue fazer o leitor ultrapassar as linhas do real e imaginário em suas narrativas e de como ele não tem medo de sair da zona de conforto, convidei-o para que seja o 11º escritor entrevistado do blog! Na entrevista, Rubem Cabral falou sobre seu interesse pela escrita, criação literária, seu próximo romance de distopia O Livro Sagrado, livros favoritos e deixou dicas valiosas para escritores iniciantes. Confira abaixo:

Ben Oliveira: Como e quando surgiu o seu interesse pela escrita literária?

Rubem Cabral: Eu fui um garoto curioso e precoce, que gostava de ler tudo que me caía à mão, contudo, efetivamente, fora algumas redações escolares, nunca me atrevi a criar nada de teor literário até que vim viver em Zurique, em Outubro de 2008. Passei aqui muitos meses sozinho, enfrentei um inverno excepcionalmente frio e escuro pela primeira vez, num país estranho, sem falar a língua local, sem amigos fora os colegas de trabalho e tudo mais. Se, por um lado, eu tinha boa bagagem literária, no sentido de ter devorado avidamente desde clássicos da literatura a coisas muito mais “pops”, feito quadrinhos alternativos e ficção especulativa, como escritor eu não tinha experiência alguma.

Eu comecei a escrever, portanto, porque efetivamente eu precisava fazê-lo, era uma necessidade enorme. Por que me sentia compelido a “botar para fora” o que eu pensava e sentia. A solidão foi minha mola propulsora.

Iniciei-me então em comunidades literárias no extinto Orkut em 2008, inicialmente imitando alguns autores que eu admirava, como Neil Gaiman ou Clive Barker. Meu estilo de escrever é muito volúvel e sempre é muito influenciado por minhas leituras. Quando comecei eu adorava frases curtas “a la” Hemingway, hoje tenho um estilo mais “caudaloso” e não me preocupo tanto com a extensão de frases ou parágrafos, por exemplo.

Ben Oliveira: Você nasceu no Rio de Janeiro e atualmente mora na Suíça, onde foi premiado em um concurso literário. Essas mudanças de cenários e expressões culturais influenciaram no seu processo de criação literária? 

Rubem Cabral: Sim, influenciaram. Eu sempre torci o nariz para textos ambientados em outros países, pois pensava que devemos escrever sobre o que bem conhecemos ou, pelo menos, fazer uma boa pesquisa para não soarmos falsos. Em linhas gerais, quando leio algum autor brasileiro criando histórias nos EUA ou Inglaterra, eu já começo minha leitura com extrema má vontade (e costumo achar furos engraçadíssimos).

Por ter vindo viver na Europa – um continente pequeno, onde em poucas horas de carro você já está no exterior - passei a conhecer melhor a cultura, as línguas, e já não tenho receio de criar minhas histórias em cenários “diferentes”, desde que o mote “peça” por isso.

Ben Oliveira: No Brasil, uma das formas encontradas pelos escritores iniciantes de entrar em contato com o mercado editorial e ver seus textos publicados é por meio das antologias. Você já participou com contos em algumas delas. Qual é a importância dessa experiência para o autor? 

Rubem Cabral: Eu tenho uma opinião meio dividida quanto às antologias. Diria que há “antologias” e “ANTOLOGIAS”. Explicando melhor: quando a editora que publicará a compilação de contos faz um bom trabalho - (edição, revisão, arte, divulgação), vide as ótimas antologias publicadas pela Caligo, Draco, Tarja, por exemplo – claro, vale muito à pena publicar, pois é uma maneira de alcançar um público que normalmente o autor iniciante não teria acesso e ele/ela fará parte de uma obra de alto nível. Isso fora a oportunidade de “trocar figurinhas” com outros escritores com estilos e ideias muito diversos.

Contudo, participar de antologias que são caça-níqueis, que acabam por publicar em série livros malfeitos, cheios de erros e tudo mais, penso que essas são coisas que o autor novato deva evitar para não se “queimar”. A dica em geral é “cobram para publicar na antologia?” -> provavelmente não presta.


Ben Oliveira: Os contos são histórias curtas, mas somente a extensão não é suficiente para definir o gênero literário. Quais características não podem faltar em um conto?  

Rubem Cabral: Penso que o conto ideal é aquele que atende bem a vários requisitos: ambientação convincente, bons personagens, bom uso de metáforas, clímax, surpresas, bom enredo e diálogos que soem naturais. O conto excepcional é sempre empático, é aquele que deixa uma impressão, que faz o leitor dar risadas, encher os olhos de lágrimas, ou ter saudades do mundo criado ao fechar o livro. Em função de ainda se ter que desenvolver num espaço relativamente compacto, contos assim são pequenas obras de arte, e são muito difíceis de criar.

Ben Oliveira: Com a internet, o escritor pode conhecer outros autores, publicar textos e participar de desafios literários. Mais do que uma maneira de ampliar a rede de contatos, através das interações no meio, é possível adquirir confiança e amadurecimento. Como a internet contribuiu para sua formação de escritor?

Rubem Cabral: A grande vantagem da Internet e dos desafios literários é o feedback quase instantâneo dos leitores. O autor não pode ser uma ilha, não pode “escrever para seu umbigo” e achar tudo que produz maravilhoso-Nobel-da-literatura-gênio-incompreendido. Através de impressões sinceras de leitores com boa bagagem é possível se melhorar muito. O único “senão” de tal exposição é que o autor deve ser maduro e capaz de filtrar tais impressões. Se você gosta de escrever textos complexos, por exemplo, não há porque ceder às modinhas ou à simplificação idiotizante só porque vende mais ou atende melhor ao perfil do leitor médio, por exemplo. Escritores e leitores são pessoas e, portanto, são cheias de defeitos e qualidades. Quero dizer, existirão às vezes algumas críticas despropositadas, vazias ou por simples picuinha. Elogios sem fundamento também não levarão a lugar algum.

Uma coisa boa de desafios literários feitos os do blog EntreContos é a possibilidade de se participar com um pseudônimo. Daí, o tal feedback costuma ser muito mais sincero e efetivo.

Ben Oliveira: As distopias estão num bom momento no mercado editorial e de aceitação dos leitores, desde obras contemporâneas voltadas para o público jovem-adulto até livros que fizeram sucesso e estão ganhando espaço de destaque nas livrarias. 1984, do George Orwell, é um dos seus livros favoritos e você já escreveu contos distópicos. Uma de suas novidades para 2016 é o seu romance O Livro Sagrado que a narrativa se passa em 2058, no Brasil. De onde surgiu a ideia de escrevê-lo? 

Rubem Cabral: A ideia surgiu e é renovada toda vez que a bancada evangélica no Brasil apresenta alguma outra patuscada, feito impor o ensino do Criacionismo Cristão nos colégios, ignorando que o Estado deveria ser laico e que as pessoas têm o direito de acreditar (ou não) no que quiserem. Alguns destes políticos de viés extremamente conservador querem impor sua visão de mundo a ferro e fogo. Alguns episódios, feito o ataque a templos de umbanda, manifestações de ódio e agressões a homossexuais, recusa de crianças de estudar a cultura indígena ou africana, e muito mais, foram fomentados por tais pessoas.

Em geral as boas distopias exacerbam algo que acontece no presente. Em “1984” Orwell deve ter pensado: e se pessoas como Stalin fossem vitoriosas em implantar seus ideais por muito tempo? O que aconteceria se o Estado se tornasse todo-poderoso? Se manipulasse à vontade os fatos, se controlasse tudo e todos 100% do tempo?

No meu livro eu estou me esforçando, no entanto, a não “pecar” por acabar por satanizar as pessoas religiosas ou conservadoras. Há pelo menos cinco núcleos distintos, e um deles é conduzido por um pastor de uma nova religião e que efetivamente é uma boa pessoa e uma espécie de alívio cômico ao tom em geral pessimista do livro. Então, embora eu seja agnóstico, tento não pesar a mão através somente da minha visão de mundo.

Ben Oliveira: Você começou a escrever contos e agora está se aventurando pelo romance. Quais têm sido os desafios de escrever o livro de um gênero diferente e uma temática que ainda é pouco explorada na literatura brasileira? O que o leitor pode esperar de O Livro Sagrado?

Rubem Cabral: Minha experiência como escritor se resumiu aos contos, até hoje. É um desafio para mim, dispor de muito espaço para o desenvolvimento de algo maior e mais complexo, pois eu tendo a concentrar muita coisa em poucas linhas.

O leitor deve esperar uma história cheia de emoções e reviravoltas. Deve esperar também muita polêmica, pois não aliviei críticas e situações muito dolorosas. Espero conseguir uma cota razoável de lágrimas e alguns sorrisos também. Ficarei muito feliz se alguém queimar meu livro em praça pública.

Rubem Cabral no lançamento do livro A Linha Tênue que
aconteceu na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro.
Foto: Divulgação / Caligo Editora.
Ben Oliveira: Seu livro A Linha Tênue está repleto de contos com metalinguagens e influências de elementos presentes em diversas temáticas, como policial, ficção científica e fantasia. Com o maior interesse pela escrita, muitos autores iniciantes têm dificuldade de desenvolverem seus próprios estilos. Existem limites na ficção? Como foi ousar nas narrativas e sair da zona de conforto?

Rubem Cabral: Não existem limites, em minha modesta opinião, ou talvez os limites sejam apenas a capacidade de compreensão de quem lê. Algumas experiências literárias muito radicais podem simplesmente resultar em obras por demais difíceis, e só atingirem efetivamente um grupo mínimo de “iniciados” ou, ainda, levar os leitores a impressões completamente diferentes das que o autor inicialmente pretendia.

Para sair da zona de conforto tentei escrever o que eu não havia ainda escrito. Por exemplo, escrever em primeira pessoa um relato de um personagem feminino ou de orientação sexual distinta, ou com ideologia radicalmente diferente da minha. Se o autor só escreveu ficção científica, por que não se atrever e escrever ficção histórica ou algo sem elementos “fantásticos”? Por que não tentar a sátira, o drama, ou ambos? Quando experimentamos águas novas, estranhamos e vacilamos com medo, mas o medo pode ser libertador.

Ben Oliveira: Uma das partes mais difíceis para o autor iniciante é encontrar uma editora que acredite em seu projeto. Apesar da concorrência, publicar por uma editora, muitas vezes, é ter a qualidade literária atestada pelo outro. A autopublicação e os ebooks também têm se mostrado alternativas interessantes, no entanto, hoje, qualquer pessoa pode publicar um livro. Como você avalia esse cenário? 

Rubem Cabral: Eu tenho algumas reservas quanto aos ebooks, pela facilidade com que o conteúdo é partilhado sem remuneração ao autor (consigo baixar montes de livros em formato .pdf, por exemplo). Reconheço, no entanto, que o baixo custo e a facilidade de produção e a pouca burocracia na criação de tais obras são aspectos interessantes.

Normalmente eu preferiria publicar o livro físico e só mais tarde dispô-lo sob forma de ebook. Primeiro cinema, depois DVD e blu-ray, depois tevê no horário nobre e só depois na Sessão da Tarde. Algo do tipo...

Quanto à autopublicação, eu só recomendo cautela a quem está começando. Não vale a pena publicar o que está imaturo, não compensa publicar apenas para se ter o livro, não se importando com custos, qualidade, divulgação. Editoras sem escrúpulos publicarão qualquer coisa, desde que devidamente remuneradas. O autor pode acabar por lançar algo muito ruim, cheio de erros, mal diagramado, com capa sofrível e ainda ficar com um enorme “encalhe” da obra que ninguém efetivamente irá ler. Procure leitores-beta, gente cuja opinião você respeita, que não queiram criticar por criticar, mas que também não colocarão panos quentes. Normalmente a mãe, a/o namorada(o) não são bons leitores beta.

Ben Oliveira: Escrever um livro é o objetivo de muitas pessoas, embora o ofício do escritor não seja tão simples ou valorizado quanto parece. Antes de se aventurar pela criação, recomenda-se muita leitura. Porém, nem sempre é o que acontece, principalmente no Brasil, onde o índice de leitura é baixo. Em sua opinião, por que a leitura é tão importante para o escritor?

Rubem Cabral: A leitura ensinará mais sobre a língua portuguesa do que todas aquelas aulas chatíssimas sobre regência, orações subordinadas e tudo mais. Além disso, quando lemos bons autores, conheceremos mais sobre as possibilidades praticamente infinitas do escrever. Afinal, boa parte da gramática das línguas fui criada / influenciada pelos escritores mais importantes.

A leitura aumentará o vocabulário, expandirá a capacidade de imaginação, influenciará inclusive o modo de pensar. Mesmo literatura de entretenimento, sem maiores pretensões, pode ser útil ao menos por criar o hábito da leitura. Vivemos hoje em dia num mundo de hiperatividade, de coisas instantâneas e descartáveis, e o livro é uma espécie de âncora anacrônica, uma esfinge. Ele é caprichoso, não cederá ao leitor Ritalina fast-food. Concentre-se, reflita, deguste (não engula!), enxergue as mensagens subliminares das entrelinhas: esta é a mensagem do bom livro. Ele sussurra, não grita.

Ben Oliveira: Você pensa em publicar seus livros na Suíça?

Rubem Cabral: Alguns contos que já escrevi, em especial os que abusaram de metalinguagem, feito o Vice-versa, usando montes de frases que podem ser lidas nos dois sentidos, podem ser praticamente intraduzíveis. Outros textos mais “normais”, eu tenho a intenção de tê-los publicados em outros idiomas sim. Conheço uma ótima tradutora brasileira e talvez possamos fazer uma parceria no futuro.


Ben Oliveira: Sobre o mercado editorial, leitores e escritores. Quais diferenças você percebe em relação ao comportamento do suíço e do brasileiro? Você diria que o livro é mais valorizado?

Rubem Cabral: O leitor europeu em linhas gerais é um consumidor ávido. Quase todos os que conheço leem três livros ou mais por mês. Tenho a impressão que no Brasil a média de livros lidos é muito menor. Vivemos um dilema: o livro é caro porque as tiragens são pequenas, as tiragens são pequenas porque os preços são altos. Aqui os livros são mais baratos e o poder aquisitivo é maior. Gostaria que o Brasil pudesse se espelhar, por exemplo, na Argentina, onde o mercado conseguiu ser muito maior. Há o problema também do analfabetismo funcional no Brasil, que acaba ficando oculto nas estatísticas oficiais. Livros ainda são encarados como difíceis ou chatos.

Ben Oliveira: A cada transformação tecnológica, o debate sobre o fim do livro, do romance e de outros gêneros sempre surgem. O livro vai acabar? 

Rubem Cabral: Não, não acho que o livro vá acabar, de forma alguma. Desde que os primeiros humanos sentaram ao redor de uma fogueira eles contaram histórias. Sempre houve os contadores e a plateia ávida por novidades. Os gostos mudam, as formas, as modas, vêm e vão, os temas surgem e desaparecem e depois são novamente resgatados. O livro, não importa se físico, na nuvem, projetado no córtex cerebral, ou em que forma for, existirá enquanto nós existirmos.

Ben Oliveira: Quais são os seus escritores / livros favoritos?

Rubem Cabral: Eu gosto de livros com muitas camadas e o ato de escrever me fez mais crítico quando leio. Passei a enxergar erros e defeitos onde antes eu nada via. Meus livros preferidos são, sem ordem de preferência, 1984 – George Orwell; Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley; O Homem que queria ser rei – Rudyard Kipling; Viva o povo brasileiro – João Ubaldo Ribeiro; O Cortiço – Aloísio de Azevedo; O Processo e A Metamorfose – Franz Kafka; Ensaio sobre a cegueira – Saramago. De livros recentes, gostei muito de O Alienado, do Cirilo Lemos, e 2666 do Roberto Bolaño. Odeio sick-lit, chick-lit e tenho um pé atrás com os Best Sellers, embora alguns tenham me surpreendido positivamente (O Nome da Rosa, por exemplo, é muito bom).

Ben Oliveira: Quais dicas você deixaria para escritores iniciantes?

Rubem Cabral: A primeira dica, meio óbvia, é: leia. Se livros forem caros, vá à biblioteca, compre no sebo ou pegue emprestado (e sempre devolva!). Lendo você reconhecerá técnicas, terras que já foram exploradas antes de você sequer nascer. Você pode começar imitando gente que você admira, mas encontrará depois o seu caminho.

A segunda, meio boba, é: viva. Viaje na medida de suas possibilidades, brigue, faça amizades, aprenda origami, crie bichos, durma na praia, tome um porre, tenha uma vida interessante e rica. Escrever sobre amor é muito mais fácil e real se você já amou de verdade. O mesmo vale para todos os outros sentimentos.

A terceira, não muito melhor que as anteriores, é: ouse. Não tenha muito medo do que vão pensar, não tenha receio de se arriscar. O inferno está cheio de boas intenções. Quem deixou uma marca no mundo não o fez por não tentar.

A quarta seria: pesquise. Você não tem que saber tudo, mas pergunte a quem sabe, informe-se, assista documentários, fale com os professores, leia revistas e jornais. Havia arame farpado na Idade Média? Comia-se baleia e peixe-boi na Semana Santa no Brasil Colônia? Como funcionavam os vistos na Berlim do período da Guerra Fria? É verdade que a Muralha da China pode ser vista da Lua?

Finalmente, a última dica é: insista. Salvo alguns gênios, o escritor se forma com o exercício constante de escrever, de revisar até ficar com os olhos cansados e as costas doloridas. Há, é claro, a questão da inspiração e da criatividade, mas o trabalho duro é igualmente importante para conseguir realizar sua obra. Não caia na esparrela que só o enredo basta. Não, não basta. Uma ótima ideia quando mal escrita é uma porcaria. Uma ideia mundana ou simples, quando bem narrada, pode resultar num ótimo texto.

Escrever não é fácil: deve-se respeitar ou reinventar a norma culta, evitar os ecos e rimas, as repetições, as cacofonias, os excessos ou faltas, os clichês, os Deus-ex-machina, os diálogos ruins, e muito, muito mais.


Bônus: Curioso para saber o que vem por aí? O escritor Rubem Cabral liberou alguns excertos do seu livro de distopia, O Livro Sagrado. Confira abaixo:

“Tudo teve início num daqueles dias tão quentes que o mundo ganha um brilho embaçado e irreal, que cansa os olhos, encharca as costas e afoga a mente em suor. No intervalo de almoço, enquanto ele participava dum culto no Tabernáculo de Davi da Igreja das Graças Urgentes, durante a cerimônia do dízimo; foi quando ele teve a visão. Deus, alguém vestido num manto muito alvo, cujo rosto era impossível de se encarar, por brilhar como o Sol ao meio-dia, trovejou com voz de âncora de telejornal: Que tolice dar dinheiro pra mim, logo eu, que tudo posso, que tudo tenho. Ora, mas isso é exploração e das mais sem-vergonhas e descaradas. Mário Jorge, meu filho, toma tenência, cria a tua própria igreja, mas uma só de bondade, caridade, alegria e tudo mais de bom. Pois eu sou feliz, pois eu sou todo amor e perdão. E não acredita em tanta bobagem: não existe pecado onde não se intenciona o mal fazer. E do diabo, de quem se fala mais do que de mim por aí, desse moleque eu já dei conta faz milênios: o tinhoso não apita nada! Ou eu não sou todo-poderoso?! Mas já te aviso de antemão que esse caminho que quero que tu sigas trará tempos difíceis, meu filho... Mas, ora essa, afinal o Céu é mesmo para os valentes, feito tu, não? Vá agora, filho, abraça essa missão, abandona esses filisteus e que eu nunca, nunca ouça falar de pedir dinheiro na tua igreja, ou... – e Deus o ameaçou, exibindo a mão colossal no conhecido gesto de dar um cascudo.”

...

“Uma bobagem, uma criancice das grandes, talvez me soltem em breve, depois duns sermões e penitências. Uma babaquice a aposta com os abençoados meninos do colégio, de que eu não teria coragem de fazer algo assim. Davi e Moisés haviam sugerido os dizeres - “Abaixo a clerocracia!” - para a camiseta, mas Rute quis se mostrar muito mais ousada. “Foda-se a clerocracia!” foi a frase que acabou por pintar na malha, em letras vermelhas chamativas, bem capslocks. O que significava mesmo aquela palavra esquisita? Depois, foi só jogar um casaquinho por cima, e antes do culto das três da Catedral Messiânica Maná dos Céus, diante de uns mil carolas, pular, gritar um monte de coisas sem sentido, abrir o casaco e sublinhar a frase com a mão, mostrar o dedo do meio e sair correndo, rindo, rindo muito.

Mal dobrou uma esquina, no entanto, e foi atingida em cheio por um taser, ficando caída na calçada, se sacudindo feito perna de rã numa daquelas experiências sádicas da escola.”

...

“No percurso até o metrô, observou luzes bruxuleantes projetando-se sobre a calçada – efeito causado pelas palmas das centenas de mãos agitadas, todas erguidas - do culto das onze da imensa Catedral da Assembleia Fogo da Sarça Ardente – o antigo Teatro Municipal – que iluminavam a via com reflexos fantasmagóricos, tal qual mariposa em agonia debatendo-se contra uma lâmpada quente demais. O ritmo quase hipnótico da Canção do Dizimista embalava o rebanho que doava de forma generosa, como sempre, apesar da maioria já descontar suas contribuições diretamente de seus salários.

“O dízimo não é um pagamento. É devolução do muito que Deus nos dá... Pobre do irmão que esconde seus recebimentos, pois certamente o Senhor o castigará... Queimai, queimai, Senhor. Queimai, queimai, Senhor. Sem dó todo ladrão de vossas dádivas. Queimai, queimai, Senhor. Queimai, queimai, Senhor. Fazei de suas vidas um amargo vale de lágrimas!”

11 comentários:

  1. "Contudo, participar de antologias que são caça-níqueis, que acabam por publicar em série livros malfeitos, cheios de erros e tudo mais, penso que essas são coisas que o autor novato deva evitar para não se “queimar”. A dica em geral é “cobram para publicar na antologia?” -> provavelmente não presta." Isso!

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    1. Um dos pontos polêmicos da entrevista! Também compartilho da mesma opinião. É preciso levar em conta quais são os interesses da editora, se é realmente publicar uma obra que tenha qualidade literária ou é 'ganhar o dinheiro do autor' (que geralmente já não tem muito, principalmente se for escritor...).
      Participar de antologias é uma forma de conquistar mais leitores e dar os primeiros passos na jornada do escritor, mas também pode ser um tiro no pé. Creio que é importante para adquirir experiência e maturidade literária, muitas vezes, é o primeiro contato no mercado editorial. Cabe ao escritor saber até que ponto vale a pena ou não.
      Abraços e obrigado pela visita e comentário!

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    2. Olá, Paulo.

      Obrigado por prestigiar o blog com seu comentário! Keep fugindo das roubadas, haha.

      Abraço.

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  2. Muito legal a entrevista, parabéns.

    O primeiro parágrafo que li do Rubem, descrevendo a cidade de Praga com seu "azul hematoma de heroína", me deixou embasbacado.
    O mesmo efeito ocorreu em muitos outros contos que tive a oportunidade de ler.

    Um grande escritor, que indiretamente me incentiva a escrever melhor, para não comer poeira nos desafios literários onde tenho a honra de competir com ele e outros escritores e escritoras sensacionais. (O pareo é durissimo, acreditem!)

    Parabéns mais uma vez, ao Rubem e ao Ben Oliveira.

    Grande abraço.

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    1. Olá, Fabio! Fico muito feliz que tenha gostado da entrevista.

      Acredito que os contos do Rubem Cabral são envolventes e provam que não é preciso escrever com uma 'fórmula comercial' (mais aceitável aos leitores) para produzir algo que prenda o leitor. Pelo contrário, acredito que através da metalinguagem e da riqueza literária do estilo dele, os contos se tornam afrodisíacos.

      Abraços! Obrigado por sua visita.

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    2. Fala, Fábio!

      Obrigado por prestigiar a entrevista! Rapaz, fico muito feliz em concorrer todo mês contigo no EntreContos. Aliás, quase todos os meses você é que nos premia (leitores) com contos incríveis. Aquele "A Verdadeira História" é um dos mais fantásticos contos que já li: narração ágil, ótimos personagens, clímax de roer as unhas e muito humor. Enfim, espero um dia poder ler um livro teu (ou vários).


      Abração!

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  3. Nossa, gostei dele. Não o conhecia. Excelente a entrevista.

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    1. Olá, Peterson!
      Fico feliz em ter apresentado um novo escritor, então! Mais feliz ainda em saber que você gostou da entrevista.
      Obrigado por sua visita e comentário! Volte sempre :D

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    2. Olá, Peterson.

      Obrigadão por prestigiar a entrevista!

      Abraços.

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  4. Nossa que legal, gostei muito da entrevista.
    Já vou procurar os livros.
    Abraços.

    literanoni.blogspot.com.br

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    1. Oi, Literanôni! Fico muito feliz que tenha se interessado pelos livros. Tenho certeza de que o Rubem Cabral também vai ficar. Os dois livros podem ser encontrados no site da Caligo Editora! Para quem gosta de contos de fantasia, os contos do escritor são uma ótima pedida.
      Obrigado pela visita e comentário!
      Volte sempre :D

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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