Pular para o conteúdo principal

Destaques

Seis meses sem cigarro

Seis meses sem cigarro. Há um tempo parecia algo impossível de alcançar e aqui estava ele: estaria mentindo se dissesse que ainda não tinha fissura, mas havia conseguido controlar bem mais como nunca imaginara antes. Seis meses davam uma sensação boa. Seis meses sem fumar um cigarro, mesmo passando por inúmeras situações de estresse e de ansiedade. Seis meses aprendendo a regular as emoções de forma a não descontar no vício. Os meses iam passando. Datas que antes pareciam impossíveis se tornam reais. Já imaginara quando seria quando completasse um ano sem cigarro. Ia escrevendo para comemorar e lembrar que os pequenos dias também importavam. Escrevia para lembrar que o difícil não era impossível e qualquer um poderia conseguir se livrar do cigarro, por mais difícil que parecesse no início. Escrevia para agradecer a si mesmo por ter se libertado de algo que fazia tão mal e muita gente ainda acreditava que fazia bem. Escrevia para deixar claro que não queria voltar atrás e mesmo nos dias...

Resenha: Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz – Danilo Otoch

O livro Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz foi escrito por Danilo Otoch, publicado em 2015, no Rio de Janeiro, pela Cultura em Letras Edições. O romance se passa nos dias atuais, mas tem uma pegada de história, drama e realismo, cujo tema principal é uma tentativa de reconstruir algumas questões mal resolvidas da ditadura militar brasileira.

A história é narrada em primeira pessoa por Marcos, um dos sobreviventes que tentou lutar contra o período de repressão militar no Brasil ao lado de seus ‘companheiros’. Logo no primeiro capítulo do livro, o leitor acompanha o reencontro de Marcos com João, um evento que influencia o destino dos dois homens e possibilita um resgate de suas memórias.

“A opção pela guerrilha me deixou com cicatrizes físicas e emocionais. Sofri muito. Mas tem gente que fico com sequelas eternas”.

Com a proposta de se vingar pelas torturas físicas e psicológicas que eles sofreram e de fazer justiça com suas próprias mãos, ao tentar descobrir onde foram parar os corpos de seus companheiros de luta assassinados na época do regime militar, João convida Marcos para fazer parte deste plano maluco.

A partir deste plano de vingança que entra em cena o terceiro personagem, Dr. Asmodeu, um dos responsáveis pela morte, violência e desaparecimento de centenas de guerrilheiros ou ‘esquerdistas’.

A trama da narrativa que apresenta esta mistura entre ficção e realidade mais do que nos deixar instigado para saber qual será o desfecho da história, proporciona uma boa dose de reflexão. Particularmente, não é um tema que desperte tanto o meu interesse, pois foi um período obscuro de nossa história, a qual me faz perceber que qualquer tipo de extremismo nunca é positivo.  Porém, este é um dos diferenciais da obra de Danilo Otoch, mostrar os dois lados dos mesmos acontecimentos. De um jeito ou de outro, diante deste embate de ideologias, o resultado só poderia ser tragédia.

“Esquecer é diferente de não lembrar. Esquecer é obliterar. É apagar da mente. Eu esqueci. Esqueci do melhor amigo que já tive na vida. Do homem que uma vez me salvou a vida, e que foi assassinado e ocultado. Pensei em seus pais e irmãos, e pensei na vida que poderia ter levado se não tivesse a vida ceifada tão prematuramente na colheita mais amarga da história do Brasil”.

Em um período em que os brasileiros estão insatisfeitos com o atual Governo, o livro Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz possibilita a rememoração de uma série de fatos, visto que o povo do Brasil é conhecido pela sua ‘memória curta’. Vendo as manifestações nas ruas, nas quais as pessoas pedem pela intervenção militar, não é preciso muitos argumentos para comprovar como muitas delas não têm ideia do que estão pedindo. Diante desta confusão e obscurecimento dos pensamentos, a Literatura no exercício de imaginação para o leitor – mais do que um mero entretenimento – pode ajudar a iluminar, rever ideias e desconstruir conceitos.

Voltando à narrativa, Danilo Otoch junta esses três personagens de personalidades bem diferentes que estiveram presentes num mesmo momento da história brasileira e agora se reencontram. Embora os anos tenham passado, as cicatrizes no corpo, na mente e na alma permanecem queimando. Do descontrole de João que beira à psicose – desconexão com a realidade, de um Marcos machucado que tentou seguir em frente e de um Asmodeu que continua inflexível, o leitor vê esta dança de cadeiras dos personagens e como toa boa literatura realista consegue cutucar a ferida até fazê-la sangrar.

“Os conceitos que regem os atos humanos são tão elásticos, que a verdade inabalável de um homem pode ser facilmente a mentira inacreditável de outro”. 

Preso num aparelho, Asmodeu é levado a narrar o seu envolvimento com a ditadura. Além de relatar o óbvio que João e Marcos já tinham conhecimento, com sua frieza, Asmodeu os mostra um universo que eles não tinham ideia. O quanto das guerrilhas e da ditadura eles realmente sabiam? Será que eles podiam realmente confiar em seus companheiros? As palavras envenenadas do ex-militar não só infectam e destroem muitas das memórias dos vingadores, como também servem como peças de um quebra-cabeça.

O comportamento de João causa estranhamento em Marcos. O rapaz age como se tivesse parado no tempo, usando seus termos de guerrilheiros a todo instante e com sua personalidade moldada aos seus objetivos. Por outro lado, o protagonista Marcos mesmo tentando manter seu equilíbrio e deixar as coisas para trás, é transformado pelas revelações de Asmodeu. Destes conflitos internos e do desenrolar das ações, o leitor se sente tão angustiado quanto o triângulo para o que os espera no final da narrativa.

Da tentativa de reparação, da certeza de que as pessoas não mudam e os ciclos continuam se repetindo, o desfecho de Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz traz um clímax bem realista. Creio que a intensidade da catarse depende de uma série de fatores que possibilitam a maior identificação com os personagens e com os contextos. Para quem nasceu anos após a ditadura militar e não viveu na pele, como eu, imaginar o não vivenciado não é tão doloroso e libertador quanto poderia ser para quem se enxergou nas linhas e entrelinhas da narrativa. Independente do nível de afinidade emocional com a trama, é impossível ler Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz e ficar indiferente diante deste período histórico e sombrio do Brasil, com a certeza de que quem pede pela intervenção militar não imagina que a maré pode voltar contra si mesmo a qualquer momento. Ainda que a Literatura não tenha compromisso com a realidade, é bom quando ela sacode o leitor e o enche de tapas na cara, fazendo-o pensar e repensar suas posturas diante da vida e da sociedade.

Sobre o autor – Danilo Otoch nasceu no Rio de Janeiro, em 1968, e atualmente reside na cidade de Jundiaí (SP). Formado em História, exerce a função policial desde 1997. Foi finalista do Prêmio SESC de Literatura de 2010, na categoria Contos, com seu primeiro livro, Mundo Cão. Secretamente, Danilo também escreve poesias e quando não está lendo ou escrevendo, dedica seu tempo integralmente à sua família e à outra paixão, as artes marciais.

Sobre a editora – A Cultura em Letras Edições surgiu a partir da necessidade de renovar a literatura nacional, apostando e incentivando novos autores a desenvolverem projetos editoriais em diversos gêneros. Occello Oliver é o criador e editor. Leia a entrevista com Occello publicada aqui no blog!

O que acharam do livro? Espero que tenham gostado da resenha! Peço desculpas desde já pela demora – em relação ao tempo que eu levava antes para ler e resenhar –, estou atolado de leituras da graduação, mas prometi a mim mesmo e a vocês, leitores do blog, que eu vou fazer o possível para não deixar o meu espaço morrer. Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz pode ser comprado no site da Cultura em Letras Edições!

Mais lidas da semana