segunda-feira, 19 de junho de 2017

Livro reúne contos de escritores lésbicas brasileiras

Palavras carregam emoções e nos envolvem. No livro [in]contadas., organizado pelas escritoras Diedra Roiz e Manuela Neves, publicado pela editora Vira Letra, em 2017, me coloquei na pele de diferentes mulheres lésbicas. Recebi um exemplar da obra de presente da Diedra e foi uma surpresa gostosa me permitir perder nas páginas do livro e adentrar histórias sobre desejos, aceitações e relacionamentos.


15 escritoras se reuniram para compartilhar histórias com temática lésbica. Desde a apresentação do livro, as organizadoras deixam bem claro que o termo não é usado para rotular, mas por causa da representatividade e da visibilidade  para lésbicas. Quem é escritor LGBTQ sabe que o mercado editorial ainda é bastante fechado para algumas narrativas e a ideia não é a de segmentar, mas de abrir espaço, caso contrário, dificilmente esses textos seriam publicados. Ações como a da Diedra e da Manuela são fundamentais, especialmente porque o livro foi publicado por meio do Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, garantindo que o livro fosse gratuito para os leitores – embora no momento a versão impressa esteja esgotada, a versão digital pode ser lida gratuitamente no site da editora Vira Letra.

“A literatura com temática lésbica pode ser considerada uma literatura marginal – no sentido puro da palavra: aquela que está à margem. E a nossa intenção é de que ela esteja, cada vez mais, ao centro. Assim como sonhamos com o dia em que a mulher lésbica possa existir como protagonista-narradora-sujeito desejante, portadora da voz, do ponto de vista e do discurso” – Diedra Roiz e Manuela Neves

O fato do livro ser gratuito é um incentivo para que possa chegar até mais leitores. Mesmo sendo uma obra de literatura lésbica, é interessante que não só lésbicas, mas diferentes pessoas possam entrar em contato, para mergulhar nessas tramas e perceber que no final de contas, somos todos humanos e temos nossas paixões. Promover a empatia através do entretenimento e da reflexão é o resultado de livros como [in]contadas.

Como sempre acontece em coletâneas, os diferentes estilos dos autores se complementam e dão um toque mais plural ao livro, diferentes extensões, visões e tramas. Cada personagem passa por seus dilemas e muitas revelam conflitos que guardaram dentro de si por tanto tempo, até que elas não conseguiam mais segurar. É uma explosão de catarse. Textos sensíveis são intercalados com narrativas mais intensas, mas todas de alguma forma mexem com o leitor e faz perceber como esse espaço de fala é importante.

"Tinha se especializado na metaficção que era sua própria vida, vivendo de fachadas, criando falas para si, citando-se como numa referência erudita. Representava melhor a si mesma que a qualquer outro. Vivia assim. Meio confinada, meio autista, dialogando com sua mente, conversando horas a fio com seus personagens, as melhores pessoas que um dia conheceu"Hanna K., Antes Que Você Me Esqueça

Alguns personagens se comportam como se estivessem escrevendo uma carta, compartilhando suas confissões ou se abrindo para um psicólogo. Algumas são mulheres que tiveram que amar e sofrer em silêncio, outras, não lutaram contra seus desejos, mesmo diante dos olhares de estranhamento dos outros e das convenções. Todas têm alguma coisa para ensinar. Toda boa história nos ensina coisas sobre os outros, sobre nós mesmos, nos joga neste espaço coabitado por nossas memórias, fantasias, sonhos, ficções e presentes.

Este jogo das narrativas ficcionais e biográficas, de linhas que se cruzam, proporcionam uma experiência enriquecedora. É possível sentir a tensão e o tesão nas palavras, bem como a afetividade e as repressões. Personagens que precisaram se inventar, reinventar, confrontar seus passados e presentes, se arriscar pelo futuro. Delicadezas e paixões avassaladoras, amores quentes e amores mornos, desencontros e reencontros, existências e almas. Não consegui soltar o livro até chegar ao final e me deixei levar pelas histórias, como um amigo que se dispõe a ouvir as experiências do outro sem julgar seus passados, escolhas e sentimentos.

"Colocou o café na xícara e tomou um gole. Olhava para a varanda. Uma árvore do outro lado da rua era bajulada pelo sol gracioso e temperado que se anunciava lá fora. E, mais além, montanhas atrás de prédios, e prédios tão altos que se assimilavam a um rasgo no céu. Ainda assim, não era lá que Inaê descansava os seus olhos, se entranhando em pensamentos cada vez mais opacos. Chamavam-se memórias. Não há reminiscência, não há narrativa fiel aos fatos. O que há é memória. Ela sabia disso" – Inaê Diana, Uma Ópera Silenciosa

As próprias organizadoras compartilham seus contos. Enquanto Diedra aborda a saída do armário e como um casal de mulheres muitas vezes é visto como solitárias diante de um homem interessado em uma delas, Manuela fala sobre o amor que começa cheio de felicidade e, às vezes, se torna um poço de saudade. São 15 contos para todos os gostos: desde melancólicos e nostálgicos até românticos e sensuais. Livros como [in]contadas. são importantes, principalmente quando levamos em conta de que muitas pessoas crescem sem se verem representadas na ficção: a compreensão e o acolhimento que elas não encontram em familiares e amigos, muitas vezes, vêm dos livros, filmes e seriados.

Para quem ficou interessado, além de participar da coletânea [in]contadas., várias das autoras publicam textos na internet e já escreverem diversos livros. Seguem os nomes para quem tiver interesse em buscar mais sobre elas: Ana Paula Enes, Bel Mazzanti, Carla Gentil, Cidinha da Silva, Danieli Hautequest, Diedra Roiz, Hanna K., Inaê Diana, Jackie Rodrigues, Lis Selwyn, Manuela Neves, Márcia Rocha, Marina Porteclis, Priscila Cruz e Wind Rose.

"Tenho um touro interior. Aliás, tenho vários. Matei-os quase todos. Mas um anda me enfrentando persistentemente. Ele não desiste de mim, nem de nós. Dei um nome a ele quando me deparei com olhos que me trouxeram choque e luz. Ele despertou feroz no instante em que te vi sentada naquela recepção esperando pela pessoa que mudaria sua vida: eu. Mas, entre essa constatação e a minha falta de jeito, houve um caminho de diálogos sensoriais e dor" – Ana Paula Enes, Touro na Arena

Deixo aqui a minha gratidão para a Diedra Roiz pela oportunidade de ler o livro! Em breve devo ler o livro Luas de Marias, escrito pela autora junto com a Wind Rose. Diante de tempos de preconceitos e ódios, ainda bem que a literatura existe para nos proporcionar uma válvula de escape e também nos deixar encantar por diferentes personagens. Que as palavras possam continuar tocando diferentes seres humanos independente de identidade de gênero e orientação sexual. E enquanto continuar necessário termos como literatura gay, literatura lésbica, literatura LGBTQ e por aí vai... Que os escritores possam encontrar espaços para dar vida para seus textos e levar um pouco de magia e cores para os leitores, pois se ver dentro das narrativas é uma experiência maravilhosa, que pode nos ensinar muito sobre aceitação própria e daquilo que nos parece diferente.

Para quem gosta de narrativas com a temática lésbica, recomendo os livros da escritora Karina Dias e a coletânea Orgias Literárias da Tribo, organizada pelo autor Fabrício Viana.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e da novela Enfeitiçado, disponíveis no Wattpad.

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