Éramos uma página riscada. Todas palavras que poderíamos ser estavam rasuradas e não havia espaço suficiente para escrever novas palavras. Éramos o que não éramos. Todo mundo tem uma história. Esta é a de quando começamos a nos afastar. Não estava acostumado e não queria se acostumar com a evitação, eu que intercalava momentos evitativo e ansioso. Não, se queria seguir sendo do jeito que era, cabia a mim aceitar ou deixar ir. A verdade é que era possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Fui me soltando de seus braços e abraços, lentamente que era para você não sentir, até dar um fim na versão que eu havia projetado de você e encarar as coisas como realmente eram. Após um período de ciclos que chegaram ao fim, eu queria que você ficasse. Torcia para que as coisas fossem diferentes. Mas novamente esbarrada no fato de que não poderia forçar a permanência de ninguém. Então, foi deixando o silêncio aumentar com o passar dos dias. Depois de uma experiência anterior, prometera ...
Pode o corpo alterar nossa percepção sobre a vida e o amor? E o que acontece quando todo dia mudamos de corpo e ainda assim tentamos manter um relacionamento? Em Algum Dia, do David Levithan, o leitor é levado a conhecer o desfecho da trilogia que encantou pessoas do mundo todo. No Brasil, a obra foi publicada pela Editora Galera Record, em 2020.
Algum Dia foi um dos livros mais esperados por muitos leitores, entre eles: eu. Fui com muita expectativa na leitura. Não é que não tenha gostado do romance, mas senti falta de mais envolvimento entre os dois personagens principais. David Levithan nos deixa instigado por mais momentos entre Rhiannon e A, mas a narrativa acaba dando mais destaque para a condição do personagem sem corpo fixo.
"Agora eu sei: o amor não é tão simples. O amor nunca é sobre você dizer a si mesmo que deve fazer alguma coisa e então fazer. Nunca é sobre alguém te dizer que você deve fazer e por isso fazer. O amor não pode existir entre duas pessoas se elas não conseguirem sentir que o amor também existe fora delas. Pode envolver dor, mas não é para que você sinta dor o tempo todo. Então não é amor. É uma armadilha disfarçada de amor" – David Levithan, Algum Dia
Além de abordar o romance com uma pegada mais de conexão do que de amor romântico em si, o leitor nos faz perceber os limites do corpo e do espírito e de como alguns relacionamentos podem ser transcendentais.
Com mais focos narrativos, Levithan nos apresenta a outras pessoas em condições similares a de A, matando um pouco da curiosidade do leitor. Quantas pessoas como ele existem no mundo? Será possível que Rhiannon e A tenham um relacionamento saudável, lidando com a distância e a saudade de quem nem sempre estará por perto?
"Eu amava mesmo A, ou amava a intensidade, a sensação de que as nossa órbitas tinham se aproximado tanto que caberiam num átomo, e uma explosão aconteceria se nos afastássemos?" – David Levithan, Algum Dia
À medida que Rhiannon vai refletindo sobre seus relacionamentos passados e se envolvendo mais com A, a personagem se dá conta de que talvez os dois tenham sido covardes. Para alguns, talvez a noção de que duas pessoas que se amam e não ficam juntas pode ser uma loucura; mas se isso acontece até mesmo na vida real, quem dirá diante do inevitável e inusitado destino de A?
Com mais aventura e até mesmo suspense, David Levithan nos mantêm fisgados até o final. Porém, para os mais românticos, parece que falta um pouco mais de momentos a dois: como acontece em qualquer relacionamento, como se o tempo tivesse criado mais afinidade entre os protagonistas e, ao mesmo tempo, tivesse esfriado um pouco.
"A fênix me chama. Ela me olha nos olhos e sabe quem eu sou. Ela sabe que cada um de nós pode ser mais do que uma só coisa. Ela sabe que nós vivemos num perpétuo estado de começos e num perpétuo estado de finais. Eu a usaria sobre a minha pele, se um dia eu tivesse uma pele que fosse minha. Eu a deixaria enviar sua mensagem muda para todos que eu conhecesse, como um caminho para que me conhecessem melhor, para que entendessem o meu voo um pouco melhor" – David Levithan, Algum Dia
Com maestria, David Levithan brinca com as narrativas e mostra como um romance pode brincar com vários gêneros/temas e nos brinda com momentos de amor, amizade, empatia e dilemas existenciais. Entre o amor e a amizade, as escolhas feitas com respeito e o egoísmo. A encara sua sombra e Rhiannon descobre mais sobre si mesma do que jamais poderia imaginar. Uma história sobre como o amor ultrapassa a pele e também pode ser expressado e sentido de muitas maneiras.
Sobre o autor – David Levithan também figurou na lista de mais vendidos do prestigiado New York Times. Editor de livros infantis, é autor, ainda, de Garoto Encontra Garoto, Dois Garotos Se Beijando, Todo Dia, Outro Dia e de Nick e Norah —com Rachel Cohn —, que inspirou o filme homônimo.
Sobre o autor – Ben Oliveira foi diagnosticado autista (Síndrome de Asperger) aos 29 anos, é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.