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Descansar é arte

Descansar é arte ele escuta alguém falando da importância das pausas para o aprendizado. É tentador estudar durante horas sem pausar, mas a verdade é que o cérebro precisa de um tempo para aprender. Muitas vezes, é preciso reaprender a aprender. E nem sempre o que funciona com os outros, necessariamente funciona com você. Somos todos diferentes. Assistir aula, ler textos, resolver questões. Cada um sabia o que era melhor para si.  Era nos intervalos entre os estudos quando poderia desfrutar da poesia. Tinha lido livros e livros de portas contemporâneos e reencontrado o amor pela poesia. Sem música. Sem estímulos. Precisava tirar um tempo só para si mesmo antes de encarar os estudos. Preparar o cérebro para o que estava por vir. Era, muitas vezes, na paz do silêncio que o cérebro poderia se preparar para o que estava por vir. Não abria mão da pausa, consciente de que era necessário para aprender melhor. Um tempo do dia dedicado a fazer nada e à gratidão.  *Ben Oliveira é escrit...

Resenha: Dois Garotos Se Beijando – David Levithan

Um beijo entre dois garotos pode mudar o mundo? Talvez não o de todas pessoas, mas talvez faça a diferença para aqueles que são tocados e sensibilizados. O livro Dois Garotos Se Beijando (Two Boys Kissing), do escritor David Levithan, é um romance que aborda um pouco do universo gay e dos desafios enfrentados na adolescência e juventude. No Brasil, a obra foi publicada pela Galera, selo da Editora Record, em 2015, com tradução de Regiane Winarski.


O livro é narrado em primeira pessoa por um narrador que viveu em uma época em que os gays morriam com mais facilidade de doenças, como a AIDS, pois faltavam tratamentos adequados e que precisavam lidar com a homofobia, intolerância e construir suas próprias famílias, muitas vezes, entre amigos, para preencher a solidão e encontrarem forças para seguir em frente – situações que persistem como uma realidade para alguns homossexuais, mas que com o passar dos anos está se tornando mais aceitável.

Do narrador nostálgico, o leitor passa a acompanhar o presente de alguns personagens, como os jovens Harry e Craig, Neil e Peter, Avery e Ryan, Tariq e o solitário Cooper. Cada um dos personagens lida com seus próprios conflitos internos relacionados à questão da identidade, gênero e orientação sexuais e a relação com o amor, a aceitação de família e amigos, o bullying, a homofobia e a violência.

“Uma coisa é mostrar a alguém sua melhor e mais limpa versão. É bem diferente deixar que ele conheça seu eu profundo e irregular”

Adolescentes à procura de respostas. Enquanto muitos desses jovens se sentem perdidos, ao longo da história, o narrador fala sobre a esperança que sua geração depositou neles e a oportunidade que muitos têm de viverem uma vida que para ele fora complicada e a tristeza de ver vários amigos morrendo. A trama vai desenvolvendo, os personagens também vão amadurecendo questões que os afligem, como poder ser quem você realmente é, sem temer ser vítima de violência física, rejeição ou indiferença.

Com delicadeza e sensibilidade, David Levithan se inspirou em alguns casos reais para escrever o romance – os quais ele compartilhou na nota do autor ao final do livro. Com a magia da ficção, o autor consegue nos mostrar as diferentes aflições humanas e assim como seus personagens, ele nos toca com essas linhas temporais que se cruzam e com uma dose de esperança para um possível futuro em que dois garotos se beijando, por exemplo, não provoque tanto estranhamento.

“Muitos de nós tivemos que fazer nossas próprias famílias. Muitos de nós tivemos que fingir quando estávamos em casa. Muitos de nós tivemos que ir embora de casa. Mas todos nós desejamos  que isso não fosse necessário. Cada um de nós desejou que nossas famílias agissem como família, que, mesmo quando encontramos uma nova família, não tivéssemos que deixar a outra para trás. Cada um de nós teria amado ser amado incondicionalmente por nossos pais”

Para apoiar um amigo gay que foi vítima da violência homofóbica, Tariq, dois ex-namorados Craig e Harry querem bater o recorde mundial do beijo mais longo. Já os jovens Avery e Ryan estão naquela fase inicial do relacionamento de trocas de confidências e reconhecimentos. Os namorados Neil e Peter são tão novos, mas conseguiram encontrar a felicidade, o amor e o apoio um no outro. Já Cooper se sente deslocado e desconectado do mundo, principalmente pela dificuldade de se aceitar e ser aceito pelos outros.

Apesar de ser deliciosa a experiência de acompanhar os dilemas e desafios dos jovens personagens, as histórias que o narrador vai compartilhando sobre a geração gay do passado também são fundamentais para despertar no leitor mais empatia e nos mostrar o quanto as coisas têm se transformado ao passar dos anos – pode não ser exatamente como esperamos, mas há situações que foram conquistadas pelos esforços dos que vieram antes.

“Há milhões de beijos para serem vistos, milhões de beijos a um clique de distância. Não estamos falando de sexo. Estamos falando de ver dois garotos que se amam se beijando… Todas as vezes que dois garotos se beijam, o mundo se abre um pouco mais. Seu mundo. O mundo que deixamos. O mundo que deixamos para vocês”

David Levithan nos leva para dar uma volta com seus personagens e acaba sensibilizando com suas narrativas que se entrelaçam. Dentro do próprio universo colorido, cada personagem sabe as próprias angústias e alegrias. Enquanto existir a homofobia e o preconceito, como bem lembra o narrador, a cena de dois garotos que se amam se beijando ainda é importante para demonstrar que somos todos humanos e devemos nos aceitar – até o dia em que a homossexualidade deixe de incomodar e as pessoas possam ser tratadas igualitariamente, sem ter medo do ódio e da ignorância. O livro Dois Garotos Se Beijando mais do que a história sobre só dois garotos, é a história de várias pessoas cujas vidas e destinos se cruzam, desta rede, muitas vezes, invisível que nos lembra: "Há tantos momentos aos quais você acha que não vai sobreviver. Mas você sobrevive".


Sobre o autor – David Levithan é autor de vários livros aclamados pela crítica, inclusive Will & Will – Um nome, um destino, escrito em parceria com John Green, o primeiro livro jovem adulto com um protagonista gay a entrar na lista do New York Times. Em Dois Garotos Se Beijando, Levithan volta a falar do tema usando sua sensibilidade incrível de sempre.




E você, já leu Dois Garotos Se Beijando? Ficou curioso para ler o livro? Comente!

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