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Twin Flames – Nikki Rowe

Apenas outra fotografia de uma foto do meu passado.  Nossas almas souberam amar, mas nossos egos ganharam o papel, de sabotagem, corações partidos.  Cheios de promessas vazias de reacender das estrelas.  Cosmicamente conectados, entrelaçados na chama,  Podemos fazer diferentes jornadas terrestres por enquanto, mas meu espírito ainda está com você a cada momento que você acorda.  Você não se separa de um amor assim facilmente, de qualquer maneira.  – Nikki Rowe

BTK, Meu Pai: Livro de memórias escrito por filha de serial killer narra devastação à saúde mental

Uma leitura para quem gosta de criminologia e livros de memórias. O livro BTK: Meu Pai foi escrito por Kerri Rawson, mulher que descobriu que o pai só era um serial killer norte-americano aos 26 anos. Filha de Dennis Rader, conhecido como BTK (em tradução, amarrar, torturar e matar). Com tradução de Monique D’Orazio, lançada em 2021 no Brasil pela DarkSide Books, a obra vem para trazer mais material sobre comportamento criminal e mente de assassinos em série para o catálogo da editora.

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Dennis Rader não só matou cerca de dez pessoas entre Wichita e Park City, no estado do Kansas, Estados Unidos, como também escrevia cartas para a polícia e para os jornais locais descrevendo seus crimes. 

O livro começa com o dia em que Kerri recebeu a visita de um agente do FBI e o contou sobre a prisão do pai, informando que Dennis era suspeito de ser o BTK e que não só ela, como outros membros da família seriam notificados e interrogados. Embora faça o possível para traduzir em palavras o momento, há coisas que só sentindo na pele para saber e imaginar tudo o que ela sentiu naquele encontro: o choque de descobrir que o seu pai é um assassino em série.

Kerri narra de forma breve a história de vida dos avôs e dos pais, informações que embora possam parecer banais, ajudam ao leitor entender um pouco sobre o verniz – habilidade que muitos assassinos em série têm de viver uma espécie de vida dupla e aparentar uma suposta normalidade diante do olhar da sociedade.

“Meu pai não decidiu de um dia para o outro cometer assassinatos. A decisão foi se formando dentro dele, crescendo ao longo de seus 29 anos de vida. Depois de ser preso, papai falou de comportamentos desviantes ocultos que datavam da tenra idade: espionagem, perseguição, invasão, roubo, tortura de animais. Falou de um imenso mundo de fantasia construído em torno da violência, bondage e sadismo. Ele lia sobre criminosos notórios e os idolatrava – acrescentando as ações narcisistas e assassinas dos outros aos seus próprios ideais malignos. Ele subverteu tudo dentro de sua cabeça: fato, ficção, meias verdades, mentiras inquestionáveis” – Kerri Rawson, BTK: Meu Pai

Embora o olhar de um familiar sobre um criminoso possa trazer informações valiosas para entender um pouco do seu comportamento, é importante lembrar que assassinos em série com transtornos de personalidade são capazes de manipular até psiquiatras, psicólogos e agentes do FBI, bem como alguns têm a habilidade de passar com tranquilidade nos detectores de mentiras. 

Ainda que possa causar ansiedade e insegurança em quem idealiza e/ou busca relacionamentos com mais transparência, a história de Kerri Rawson é um ótimo lembrete sobre como não importa quantos anos de convivência ou o grau de proximidade, há sempre um lado oculto em cena e, muitas vezes, pode ser algo capaz de ser imaginado. Além disso, essa suposta sensação de proximidade faz com que não só familiares, como policiais, caiam na armadilha de acreditar de que o serial killer se torna uma espécie de médico e monstro, como se seus lados ruim e bom fossem entidades diferentes.

“Após a prisão, papai falou de sua capacidade de “compartimentalizar” seus dois lados. Era sua maneira de separar as trevas da luz. Desde a prisão, lutei para me agarrar ao homem que conhecia e aos lugares que amávamos, mas a verdade é que ele continuou a infligir a destruição por onde passar, a tirar vidas e a arruinar mais famílias, ao mesmo tempo em que vivia com a própria família e cuidava dela” – Kerri Rawson, BTK: Meu Pai

Há episódios narrados no livro que, embora possam despertar certa curiosidade por abordar momentos entre pai e filha, como os das trilhas que eles costumavam fazer juntos e como ao longo da vida a jovem e sua mãe aprenderam a identificar quando o pai estava prestes a perder a cabeça, podem se tornar um pouco maçantes. 

Nos relatos sobre a preocupação da segurança da família, não dá para saber qual é a linha tênue entre o medo de algo ruim acontecer a eles ou de que alguém pudesse descobrir algo sobre o serial killer em sua casa: chega a ser irônico, considerando que apesar de ter experiência de trabalho no setor de segurança, Dennis usava seus conhecimentos para atacar suas vítimas, logo embora a família não fizesse parte do seu alvo, durante boa parte da vida, o maior risco estava embaixo do próprio teto. Era quase como ele se reconhecesse a existência de outras pessoas como ele e tentasse privar que os filhos e a esposa caíssem na mão de outro assassino sádico.

Após uma série de memórias, o livro volta a ficar intrigante quando volta a descrever o episódio da prisão de Dennis e o efeito em cadeia que causou na família. Desde as dificuldades da família de lidar com a exposição midiática e os questionamentos alheios sobre possíveis violências sofridas pela família, até situações que testaram a saúde mental dos familiares e uma possível ingenuidade pela dificuldade de conciliar o perfil real do assassino com quem ele teria sido como pai, na esperança de que ele pudesse se recuperar de algo irrecuperável, sua incapacidade de sentir remorso e empatia pelas vítimas que fez… As memórias de Kerri são um ótimo exemplo de ponto cego por proximidade e também nos levam a refletir sobre o estado de negação que muitas pessoas entram quando descobrem crimes, ainda que elas jamais saberão quais aspectos eram reais ou parte de um jogo para encobrir rastros e construir uma imagem que servisse como uma máscara para manter vivo esse lado sombrio.

O desenrolar dos bastidores do caso é, no mínimo, bizarro. Enquanto Kerri está preocupada que o pai esteja sendo tratado com dignidade na prisão – como se muitos serial killers não fossem tratados melhores até do que prisioneiros comuns –, Dennis não esconde seu narcisismo nas cartas e revela que tem conquistado respeito e que os presos que dividem a mesma cela se tornaram espécie de celebridades. Esse choque de perspectivas e realidades está presente ao longo do livro: há momentos em que dá vontade de sacudir Kerri, independente do grau de familiaridade. Trauma, ansiedade, pânico, depressão, o episódio com o pai não só a afetou completamente, como parte dela, mantém um lado ingênuo demais sobre como deve se comportar em relação a Dennis, independente dos crimes cruéis cometidos por ele.

Mesmo tentando passar uma imagem afetuosa nas cartas, Dennis chegou a admitir que a relação que tinha com sua família era de puro contato social, como peças de peão em um jogo de xadrez. Se não há um manual de como agir diante das situações desafiadoras da vida, por outro lado, durante um bom tempo, Kerri não parece ter noção da gravidade dos atos do pai ou de como o seu funcionamento cerebral é diferente a ponto de não sentir remorso e empatia – talvez pela necessidade de se focar mais questão social e afetiva do que na patológica e neurocientífica –, se apegando às memórias que podem muito bem ser fabricadas e até mesmo se tornarem confusas após episódios traumáticos, se tornando pouco confiáveis.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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