quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Resenha: Um Buquê Improvisado – Roberto Muniz Dias

Não aguentei esperar a conclusão de uma leitura (Respiração Artificial, do Ricardo Piglia). Senti a necessidade de deixá-la de lado e avançar no livro Um Buquê Improvisado, do escritor Roberto Muniz Dias, de 142 páginas, publicado em 2012, pela Editora Escândalo. O título pode sugerir uma história romântica, e sem dúvidas algumas passagens da obra podem acender o coração dos aficionados pelo ideal do casamento, porém a riqueza da narrativa reside no estilo da escrita do autor e no resgate que o protagonista faz de si mesmo.

Dividido em 20 capítulos, o romance introduz o leitor nos casamentos de J., o protagonista. As duas primeiras linhas mostram um pouco da alegria e da dor daquele momento: “Ele não podia acreditar que estava se casando novamente. Pensou em fechar os olhos. No entanto, era verdade”. Um ótimo gancho que me fez especular várias situações. Entre erros e acertos, fui conduzido pela valsa do narrador, dançando pelo presente e pelos flashbacks do personagem.

O que esperar do livro? Em primeiro lugar é preciso ressaltar que Roberto Muniz Dias escreve histórias nas quais seus protagonistas refletem sobre os seus presentes, revivem os seus passados e rasgam os seus peitos, deixando suas essências vazarem. Parafraseando uma frase de Adeus a Aleto: “Sua poesia me fez sangrar!”. À medida que o personagem revive sua própria caixa de memórias, desejos, frustrações, o leitor faz uma viagem dupla, como passageiro espectador e como protagonista de sua história.

“Uma porta imaginária poderia se abrir para a fuga; ou poderia ser um abismo a se abrir pelo lado direito da cama, a queda profunda no limbo das sensações conflitantes. A culpa que invadia a mente de J. como algo inescapável, a tão propalada culpa cristã”.

Outro ponto interessante é a de que os romances escritos pelo autor não costumam satisfazer o público-geral, visto que muitos buscam nos livros uma válvula de escape ou entretenimento, e o que Roberto Muniz Dias proporciona com sua criação literária é a oportunidade do leitor tentar compreender o seu passado. Ou seja, esqueça a fuga de si mesmo – a história de Roberto incentiva um mergulho dentro de si mesmo, não importa quais criaturas belas e monstruosas estarão dentro do seu lago, composto pelo subconsciente, pelas impressões e lembranças, pelas vontades e tormentos.

Esclarecido este ponto que pode assustar alguns leitores e fascinar outros, por causa desse precioso resgate e convite à reflexão, afinal, não são todas as pessoas que se interessam pela arte de filosofar, de dar sentido e ressignificar o passado – há quem prefira viver em eterna fuga –, também é interessante lembrar que o livro é de temática gay, o que não impede o prazer da leitura de um heterossexual, mas pode ser um atrativo a mais para um leitor homossexual em busca de entender melhor a si mesmo.

Voltando à trama, J. se casa com Ramon, porém continua atormentado com o seu primeiro casamento com Eloísa. O presente e o passado se interpenetram, enriquecendo mais a narrativa e fazendo o leitor acompanhar as transformações internas do protagonista: a obrigação e o prazer; A dor e o amor; A vergonha e a entrega; O proibido e o gostoso; A prisão e a liberdade.

“Por três vezes e três vezes diferentes o amor surgiu na vida de J.”.

Difícil é resenhar o livro sem estragar o prazer da própria descoberta do leitor. Entre essas idas e vindas, muitas coisas acontecem. O leitor acostumado aos romances comerciais pode ficar meio perdido, enquanto o leitor mais crítico se vê amarrado a cada linha, procurando também entender, dividindo momentos íntimos de alegria e de dor. O egoísmo da paixão, a incompletude dos relacionamentos, a transformação do casamento numa guerra-fria, os preços de nossas escolhas... O amor idealizado e o amor realista dão espaço à melancolia – Roberto Muniz Dias apunhala o coração do protagonista e gira a lâmina, misturando o sangue do narrador, do personagem e do leitor, num ritual doloroso de libertação, numa tentativa de buscar o perdão para o outro, para si mesmo e encontrar a paz de espírito para os fantasmas que insistem em retornar.

Bom, vou abordar de forma breve a história, sem nenhum spoiler, já que essa sinopse está disponível na orelha de Um Buquê Improvisado. Além da cerimônia do casamento, o leitor vivencia uma vingança, o jogo de influências de uma mulher ciumenta sobre o seu filho, a força para se aceitar e a coragem de J. se casar com outro homem, um acidente que transforma a vida do protagonista.

O romance é intenso e triste. As memórias fragmentadas, o presente danificado, os textos de um velho diário, os sonhos impossíveis e aqueles realizados; O leitor vai juntando os pedaços aos poucos. É interessante notar a quebra da narrativa, o ritmo da história e a maneira que o escritor vai amarrando as pontas soltas de forma natural, como se não existissem coincidências e tudo tivesse a hora certa de acontecer.

“O quarto escuro era igual à cabeça vazia. Nada enchia aqueles pensamentos no espaço daquele quarto. Sabia ser humano, tocou-se, tocou seus órgãos genitais. Sentiu-se homem, mas não pelo volume e sim por sua capacidade de entender que estava consciente. O escuro não era invenção de sua mente, talvez ele o fosse”.

Recomendo a leitura de Um Buquê Improvisado para aqueles que se atreverem a refazerem os seus passos e os do personagem e a perceberem que nem sempre o casamento, principalmente quando é feito somente para agradar aos outros e não a si mesmo, é sinônimo de felicidade. Um simples beijo, um “sim” e uma criança podem balançar as estruturas dos indivíduos, despertando o melhor e o pior. Uma leitura prazerosa e angustiante, que nos faz sangrar e nos hipnotiza, até a última linha. A obra também nos faz refletir sobre a influência da religião na reprodução dos discursos das pessoas, na assimilação da homossexualidade como um pecado.

Sobre o autor – Roberto Muniz Dias, romancista, contista, poeta e artista plástico. Formado em Letras e Direito. Esse escritor de Teresina, Piauí, começou nas artes ainda na adolescência, escrevendo diários e desenhando croquis. Autor dos livros Adeus a Aleto, Um Buquê Improvisado, Urânios e O Príncipe, o mocinho e o herói podem ser gays. Visite o site do escritor: http://robertomunizdias.com.br/.

Sobre a editora – A Editora Escândalo destina-se a publicar e projetar no mercado editorial brasileiro obras de ficção e não-ficção exclusivamente de cunho LGBT, contando com autores que versem sobre esse foco nos mais distintos aspectos e colocando-os ao alcance do grande público. Visite o site da Editora Escândalo: http://editoraescandalo.com/

Belo texto da contracapa do livro Um Buquê Improvisado (Roberto Muniz Dias).

Espero que tenham gostado de mais uma recomendação de leitura... Agradeço mais uma vez ao escritor Roberto Muniz Dias pela oportunidade de ler Um Buquê Improvisado e Adeus a Aleto (não deixe de conferir a resenha do primeiro romance escrito pelo autor!). Em breve, devo ler o último livro lançado pelo Roberto: Urânios, publicado em 2014, pela Metanoia Editora, e publicar a resenha aqui no blog. Aguardem! ;-)

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