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Destaques

Para Toda a Eternidade: Livro explora rituais funerários diversos

Entre a naturalidade e o espanto, o tradicional e o moderno, o ocidental e o oriental, Caitlin Doughty transmite ao leitor histórias de suas visitas a espaços e profissionais envolvidos com o universo mortuário. Uma das obras pedidas por quem já tinha lido Confissões do Crematório, o novo livro foi publicado no Brasil pela editora DarkSide Books, em junho de 2019, com tradução de Regiane Winarski e ilustrações de Landis Blair.


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“Eu passei a acreditar que os méritos de um costume relacionados à morte não são baseados em matemática [...] mas em emoções, numa crença na nobreza única da própria cultura da pessoa. Isso quer dizer que consideramos os rituais de morte selvagens apenas quando eles não são como os nossos” – Caitlin Doughty, Para Toda a Eternidade
Dá para ler tranquilamente Para Toda a Eternidade sem ter lido Confissões do Crematório, mas acredito que as duas leituras são complementares. Enquanto na p…

Resenha: Olho Grego – Paulo Sérgio Moraes

Olho Grego. Impossível não ler o título do livro sem pensar em inveja, mau-olhado, mas o principal, em proteção. A maneira que o escritor Paulo Sérgio Moraes trabalhou com esse símbolo em seu segundo romance pode ser sintetizada em seu breve comentário no agradecimento do meu exemplar “[...] Um livro em que o amor se apresenta como forma genuína de proteção!”. A obra, de 262 páginas, foi publicada em 2015, através do selo O. M. pela Editora PerSe.

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O romance é narrado em primeira pessoa por Heitor, um ex-seminarista que previamente morava com sua família em Holambra – município reconhecido pelas suas flores e influência holandesa –, e acabou se mudando para São Paulo, onde seu caminho cruzou com o dos irmãos Ísis e Fred. O passado do rapaz é revelado gradualmente e sua personalidade misteriosa o torna um tanto ambivalente, fisgando o leitor, mas ao mesmo tempo o deixando com os pés atrás sobre até que ponto é possível confiar em suas palavras – afinal, sabe-se que uma das marcas da narrativa em primeira pessoa é a possibilidade do narrador-personagem poder inventar o que quiser, distraindo e moldando a história conforme suas necessidades.

Heitor é tão confiável quanto eu ou você. Paulo Sérgio Moraes consegue desenhar personagens que vão além do papel. Não se trata de dominar a técnica da escrita e simplesmente delimitar alguns traços de personalidade para os personagens, mas de senti-los vivos como seres humanos reais, nos colocando em suas peles e imaginando outras pessoas com as quais já passaram ou poderiam passar em nossas jornadas com essas mesmas características – verossimilhança que nos faz questionar cada uma de suas ações e refletir.

“Maldito tempo capaz de fazer da proteção uma ameaça, transformar o amor em revolta, conduzir o desejo à insanidade, manchar a pureza com sangue e de acordar nossos demônios interiores!”.

Além do narrador-protagonista, entre os personagens principais estão Fred e Ísis. Fred é um rapaz gay que está precisando de um transplante de rim e se encanta por Heitor desde o primeiro instante em que seus olhos se encontram. Ao mesmo tempo em que sua condição o deixa fragilizado, sua personalidade é forte e ele é muito teimoso. Já Ísis é uma adolescente doce e apaixonada por seus livros, sempre com a cabeça nos universos da ficção tornando-a tão distraída – fixação de todo bom leitor  que por acaso a torna responsável por juntar os três personagens. Difícil é não se identificar com pelo menos um ou mais dos personagens do livro, visto que cada um passa por seus dilemas, conflitos internos e mantêm seus segredos, e esses vícios e virtudes são os que os tornam mais humanos, e em determinados momentos servem como um lago espelhado, onde nos vemos e desejamos mergulhar em paz ou pular para que o reflexo seja perturbado.

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Em um primeiro olhar, Olho Grego é visto como algo completamente diferente de Condicional. Basta mergulhar mais um pouco na leitura para perceber que a essência do autor permanece a mesma e o seu estilo está cada vez mais lapidado. Apesar de as duas obras se tratarem de romances urbanos, dá para notar o amadurecimento da escrita. As linhas que conectam os dois romances não são tão invisíveis. É quase como pegar duas metades assimétricas e encaixá-las e perceber que em seu núcleo estará a força criadora que movimenta o escritor e permite sua versatilidade.

“Começava sempre igual. O corpo trêmulo, as paredes se distanciando, a leveza... Involuntariamente, eu era arremessado para fora do presente como num filme de ficção científica. Eu revivia momentos como se a memória ganhasse solidez. Eu sentia tudo novamente... Os medos, as dores, a solidão”.

Paulo Sérgio Moraes já declarou não gostar de definir sua obra como literatura gay (em um bate-papo mediado por mim com outros escritores LGBTs) talvez pela limitação que traz o rótulo. Olho Grego proporciona imersão de forma que é impossível não deixar se levar pela leitura e o autor acaba ajudando a desconstruir alguns preconceitos, que vão além da homofobia e estão enraizados na sociedade brasileira, brincando com as expectativas e perspectivas do leitor e rompendo limites. O autor vai muito além de contar uma boa história que possa nos entreter, ele sabe que a literatura também é uma ferramenta para crítica social.

O escritor tem predileção por anti-heróis. Não é muito difícil se imaginar na pele de Heitor, afinal, quem é que nunca se sentiu meio sem rumo, percebendo que estava na hora de buscar por transformações? E quanto mais mergulhamos no passado do personagem, mais sentimos compaixão por coisas que à primeira vista poderiam nos revoltar. Aliás, essa mesma surpresa com as revelações e reviravoltas acontecem com todo o núcleo principal da narrativa, fisgando o leitor para outra direção, quando menos esperamos – uma ótima prova de que o texto é vivo e passa por metamorfoses, como os personagens, os leitores e o autor – e que precisamos tomar cuidado com as primeiras impressões.

“Antes que meus olhos se fechassem, ainda podia ouvir ao longe e repetidas vezes: “Eu sinto muito. Fizemos tudo o que foi possível...”. Não havia o que fazer a não ser viajar pelos meus próprios labirintos. Talvez as lembranças me forçassem a entender quando foi que as coisas perderam o sentido”

Paulo brinda o leitor com uma história de amor marcada pelo realismo urbano da capital paulista com uma pitada de mel das flores de Holambra, juntando o melhor dos dois mundos, brincando com o equilíbrio do início ao fim – algo se perde, algo se acha; algo se quebra; algo se conserta –, como pede a vida. O romance ensina... Seja para cuidar de si mesmo ou das pessoas mais próximas, o melhor e mais poderoso talismã (ou olho grego) que poderíamos carregar em nossos peitos ainda é o amor.

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Sobre o autor – Paulo Sérgio Moraes, atualmente cursando Letras, é formado em Cinema com especialização em Marketing. Após a publicação do seu primeiro livro, Condicional, houve um processo de dois anos para a conclusão de sua segunda obra. Olho Grego é o seu segundo romance. Paulo também organizou junto com Guilherme Oli o livro Remetente N.15.

O livro Olho Grego pode ser comprado no site oficial do escritor Paulo Sérgio Moraes [http://www.paulosergiomoraes.com.br/

Curta a página do escritor no Facebook: https://www.facebook.com/OliEMoraes/ 

Bônus:

Resenha de Condicional – Paulo Sérgio Moraes

Entrevista: Paulo Sérgio Moraes, autor do livro Condicional

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Comentários

  1. Maravilhosa! Um olhar sensível e atento como sempre. Obrigado, Ben!

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    1. A gratidão é recíproca, Paulo!
      Uma leitura e uma resenha sempre possibilitam trocas maravilhosas.
      Abraço

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