quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Resenha: O Exorcista – William Peter Blatty

A história não é nova para quem já assistiu ao filme várias vezes, mas não deixa de impressionar mesmo com as releituras. Uma menina está possuída pelo demônio e um padre tenta ajudar uma mãe desesperada que já não sabe o que fazer para ajudar a criança a melhorar. Muita gente não tem ideia de que a produção cinematográfica foi baseada no livro homônimo, O Exorcista, do escritor e roteirista William Peter Blatty, cuja edição que eu li tem 336 páginas e conta com a tradução de Carolina Caires Coelho, publicado pela Editora Agir (Editora Nova Fronteira).

Livro O Exorcista William Peter Blatty Editora Agir Nova Fronteira

É difícil ler o livro sem pensar no filme. A adaptação foi bem fiel, afinal, o próprio autor do romance de terror foi o responsável pelo roteiro. Apesar de a trilha sonora que ajuda a criar o clima assustador e das imagens, a obra literária consegue ser mais assustadora ao transportar o leitor para o universo. A tensão crescente que desperta a imaginação faz alguns leitores até mesmo ficarem amedrontados com qualquer barulho: a mente se desperta para sensações que passam batidas no dia-a-dia, mas que devido ao estado de excitação se tornam mais evidentes.

“Assim como o brilho breve dos raios de sol não é notado pelos olhos de homens cegos, o começo do horror passou despercebido; com o guincho do que ocorreu em seguida, o início foi, na verdade, esquecido e talvez não relacionado de forma alguma ao horror. Era difícil saber”

O Exorcista conta a história de Chris MacNeil, uma atriz que vê a sua vida desandar após sua filha, Regan começar a se comportar de maneira diferente e ficar doente. A personalidade da garotinha se transforma cada vez mais com o passar dos dias e são feitos vários exames para descobrir o que ela tem. Nestes primeiros momentos do livro temos alguns sinais do caos que vem pela frente e acompanhamos o foco narrativo de Chris e do padre Damien Karras.

Dividido em quatro partes: O começo, A beira, O abismo e “E que meu apelo cheguei a Ti...”, o desenvolvimento da trama é bem linear. O romance é narrado em terceira pessoa, mas o narrador tem acesso aos pensamentos dos personagens, tornando a conexão entre leitor e personagem mais profunda. Uma mulher que vê o seu ceticismo ser desafio por acontecimentos estranhos, enquanto sua filha aparenta estar com algum distúrbio de identidade e os medicamentos não fazem efeito. O Exorcista traz uma dessas histórias que você pensa toda vez que as coisas não podem piorar para os personagens principais, o autor nos surpreende mostrando que a jornada para o inferno pode sempre ficar mais sombria e perigosa.

“E Regan retorna, com os olhos arregalados e o medo estampado no rosto, como se um fim terrível se aproximasse, gritando com a boca bem aberta até a personalidade demoníaca possuí-la, preenchê-la mais uma vez, tomando o quarto com um odor fétido, com um frio gélido que parecia vir das paredes; então as batidas cessam e o grito aterrorizado e estridente de Regan se funde a uma risada gutural de triunfo malevolente, enquanto ela enfia o crucifixo em sua vagina, várias vezes seguidas, masturbando-se de modo feroz, urrando com a voz profunda, rouca, ensurdecedora”.

Damien Karras é um personagem fascinante. Um padre que passa por experiências tristes e começa a duvidar da própria fé, dos propósitos, mas percebe que há uma preocupação maior do que os seus conflitos internos e uma família precisa de sua ajuda. O homem é um psiquiatra e seus conhecimentos sobre a mente humana o fazem questionar até que ponto Regan realmente está com uma doença espiritual (possuída pelo demônio) ou está manifestando os sintomas de doenças mentais e usando sua imaginação e experiências para se deixar levar pelos seus delírios e simular o controle pelas criaturas diabólicas.

Cena Filme O Exorcista William Peter Blatty

Depois de várias tentativas de encontrar um diagnóstico para a filha e das investigações de Karras sobre o caso, o demônio que possui Regan fica cada vez mais poderoso, enquanto a pureza e as energias da menina se esvaem. Paralelamente à possessão da garota, a trama narra alguns conflitos secundários, como a investigação da morte de um homem por Kinderman que de alguma forma está relacionada ao segredo que eles estão mantendo. Nesta batalha entre o bem e o mal, sacrifícios e escolhas são feitas e as habilidades diabólicas são reveladas. Para deixar a escuridão tomar conta, basta abrir uma porta e Regan, como o menino em que o caso foi inspirado, brincaram com o que não deveriam.

“Karras olhou para Regan. Ainda calada. Sem se mexer. Sob o evento gelado, névoas de vapor saíam do vômito como uma oferenda de mau cheiro. Os pelos dos braços de Karras começaram a se arrepiar, com lentidão assustadora, um pouco por vez, e a cabeça de Regan girava, como a de uma boneca, com o som de um mecanismo enferrujado, até que aqueles olhos assustadores se fixaram nos dele”.

William Peter Blatty soube como criar um livro perturbador. Os limites da mente, do corpo e da alma são testados ao longo do romance. O que deixa muitas pessoas impressionadas é o fato de que a obra foi inspirada em um caso real de exorcismo que aconteceu com um adolescente. O Exorcista aproveita destas linhas: real e ficção, sobrenatural e psicológico, e tece uma envolvente e curiosa narrativa sobre mistérios antigos e que ainda permanecem incógnitos para a humanidade.

Ainda para quem ficou curioso, a DarkSide Books decidiu investir na republicação do livro Exorcismo, escrito pelo jornalista Thomas B. Allen que traz o relato do caso de Robert Manheim, um jovem norte-americano de 14 anos que brincava com sua tábua ouija (usada para se comunicar com os espíritos). A obra é considerada um dos mais completos relatos de exorcismo e a sua pesquisa traz informações pesquisadas no diário de um padre jesuíta que ajudou o exorcista.

“[…] Ainda acho que o alvo do demônio não é o possuído. Somos nós... que observamos... Todas as pessoas desta casa. E eu acho... Acredito que o objetivo é fazer com que nos desesperemos, que rejeitemos nossa humanidade...”
A obra se tornou referência para inúmeros livros e filmes de terror, mas quase nenhuma consegue chegar tão próximo do horror criado por William Peter Blatty e O Exorcista. Uma leitura que inquietadora até mesmo para quem não acredita, principalmente, pela força da narrativa de criar identificação entre leitor e personagem. Afinal, independente da intenção e da crença, Regan, Chris e Karras enfrentam um demônio antigo responsável por mudar o rumo de suas vidas.

William Peter Blatty Autor Livro Terror O Exorcista

Sobre o autor – William Peter Blatty é um escritor e roteirista norte-americano. Sua obra-prima, O Exorcista, é um dos romances mais polêmicos já escritos e tornou-se um fenômeno literário, best-seller absoluto e um clássico do terror.

O autor também foi o responsável pelo roteiro da adaptação para o cinema de 1973, pelo qual ganhou um Oscar. O filme também conquistou dez indicações ao prêmio, inclusive de melhor filme, algo inédito para uma obra do gênero.



O Exorcista pode ser encontrado nas principais livrarias do país. Adicione o livro à estante do Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/1020ED509671 



Conheça também: O Demonologista – Andrew Pyper

Gostou da recomendação de leitura? Já leu? Comente e compartilhe! ;-) 

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Oi, Raquel!
      Concordo ♥ Já estou morrendo de ansiedade para ver o que a DarkSide Books preparou para os leitores ♥
      Obrigado pela visita!

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  2. Maravilhoso. Para quem gosta de psicologia e do sobrenatural esse livro é um prato cheio.

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    1. Gilstéfany, concordo contigo!
      É um livro delicioso de ler e que possibilita refletir muito sobre várias questões.
      Abraços. Obrigado pela visita ;)

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  3. Ótima resenha!!! Livro adicionado no skoob com certeza. JÁ QUEROOOO!!!

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    1. Oi, Jarderson! Muito obrigado pela visita.
      Fico feliz que tenha se interessado pela leitura e gostado da resenha :D
      Tenho certeza de que vai adorar o livro.
      Abraços

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